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Cinema

Pieces of a Woman

A imaginação pode ser, por vezes, um factor que contraria a expressão do realismo, o qual traz muitas vezes um sentimento de desconforto, impotência e, claro, empatia.

Pieces of a Woman” é um filme que nos conta a história de um dos maiores pesadelos na vida de um casal – um parto traumático em casa, com um resultado trágico. O filme explora as ramificações desse acontecimento no casal, na família e na sociedade. Acompanhamos essencialmente Martha (como poderíamos esperar pelo título), que vem de um ambiente “snob” e do mundo empresarial, personagem interpretada de forma imaculada por Vanessa Kirby. Observamos em grande parte do filme, Sean, marido de Martha, um homem tempestuoso, construtor de pontes, com um historial de abuso de substâncias e interpretado por Shia LaBeouf de forma brilhante, com uma energia impulsiva e crua, capacidade já nele reconhecida anteriormente.

É também de elogiar Kornél Mundruczó (realizador do filme), pelo modo como nos conta esta história, já que o filme tem duas partes, com estrutura e linguagens visuais bem distintas.

A primeira parte é introdutória (cerca de trinta minutos), onde o realizador nos mostra toda a experiência do parto em casa com uma parteira “suplente”, que veio substituir a escolhida “à última da hora”. Desde o momento em que o casal entra na casa, Kornél apresenta-nos um momento incrível na vida das duas personagens. Através de um plano de sequência de uma enorme complexidade e duração (vinte e quatro minutos), sentimos o uso da câmara leve como uma pena, com uma enorme capacidade de detalhe e coordenação de todo o processo de parto e da relação íntima do casal.

Todas estas escolhas técnicas de Kornél, fazem-nos sentir como uma terceira pessoa na casa, a assistir a um momento íntimo, importante, cru e mítico, onde claramente não deveríamos estar presentes. Acima de tudo, gera-nos uma enorme sensação de desconforto (lembrando um pouco o estilo Lars Von Trier), por nos sentirmos intrusos na vida íntima de outras pessoas.

A partir desse momento, o filme mostra-nos como estas personagens procuram sobreviver à dor. Aqui conhecemos melhor a mãe de Martha que em estado de dor, deseja a condenação da parteira, reclamando justiça pela perda do neto. Procura pressionar Martha e Sean a lutar nos tribunais pela morte do bebé, sendo esse desejo partilhado também pela comunidade local. Vemos um casal que reage à dor de forma dramaticamente diferente expondo a profundidade do luto. Sean torna-se cada vez mais imprevisível, recaindo nos seus problemas de consumo, mas procurando sempre não esquecer que teve uma filha. Além disso procura reconstruir a sua relação com Martha de forma abrupta, enquanto Martha (em sentido contrário), vive numa plena apatia, “veneno” que aparenta tornar-se permanente e ser o seu estado natural do dia-a-dia. Uma apatia impenetrável, ao mesmo tempo que luta contra tudo e contra todos para esquecer que teve uma filha. Vemos um encadear de situações em espiral de um casal cego pela dor, de costas voltadas um ao outro e em “modo de sobrevivência” individual.

Nesta segunda parte do filme (sendo esta a maior), a história é contada de forma mais fragmentada através de cenas mais curtas, de pequenos e grandes acontecimentos contextualizados numa janela de tempo de quase um ano. O realizador leva ao espectador a sensação do passar do tempo e da possibilidade do estado actual das personagens poder tornar-se realmente permanente. O som é usado de uma forma inteligente, em cenas de Martha deixando presente o som contínuo das conversas à volta dela, mesmo nos momentos em que a câmara acompanha Martha para outros compartimentos da casa (elemento um pouco “Hitchcockiano”) como se de um mosquito se tratasse que não a deixa em paz ou vozes que estão dentro da sua cabeça que não consegue silenciar. Através deste processo, Kornél Mundruczó mostra-nos a constante apatia e falta de reacção ao que se passa à volta de Martha. Todo o pesar do ambiente, a sensação constante de ver o tempo passar e a dor das personagens “afundando-se”, fazem o espectador cair num mundo de impotência.

Se tivesse de criticar negativamente algum aspecto do filme, diria que como experiência cinematográfica, os primeiros trinta minutos por mais difíceis que sejam de ver, são mais poderosos que qualquer outra parte do filme. É um momento de inacreditável coordenação técnica, representação e detalhe, sem subterfúgios. Mostra-nos um momento dramático sem esquecer que nos “altos e baixos” da situação, a intimidade e química do casal está sempre presente. Porém, esta força torna o resto do filme, que tem uma edição mais fragmentada, numa sucessão de acontecimentos que se evidenciam negativamente ainda mais, devido àqueles excepcionais primeiros trinta minutos.

Pieces of a Woman” é descrito como um filme que aborda a perda de um bebé no parto, na vida de um casal. Na realidade, ou melhor na minha opinião, é um filme sobre o luto no seu contexto geral. Todos reagimos de forma diferente ao luto: procura de vingança, desespero, desistência total da vida… E este filme procura mostrar-nos a profundidade a que a dor pode chegar, com experiências de perda.

Sempre ouvi dizer que na vida de um casal, um acontecimento traumático ou aproxima ainda mais o casal na dor ou a dor separa o casal ainda mais, e este filme é um retrato legítimo, real, ao ponto de ter momentos em que temos dificuldade em continuar a assistir.

E como em qualquer quadro, obra, livro ou filme que nos transporta para relatos e retratos cheios de realismo, também neste filme não podemos deixar de sentir a empatia, pelas personagens que “renascem” dos momentos de profunda dor.

Pieces of a Woman

Argumento - 65%
Interpretação - 90%
Fotografia - 75%
Produção - 75%

76%

76%

Filme dividido em duas partes. Primeira parte experiência cinematográfica poderosa, segunda é "apenas" uma sucessão de acontecimentos.

Pedro Peixoto

Bracarense. Licenciado em Cinema, Vídeo e Comunicação Multimedia. Trabalho actualmente em publicidade para plataformas digitais. Apaixonado por todos os formatos de storytelling, sendo o cinema o predilecto. Fotografia analógica como passatempo. Uma varanda, charuto, whiskey, duas horas de boa conversa e sinto-me em casa.

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