Cinema

Avengers: Endgame

"Part of the journey is the end."

Nota sobre Spoilers: esta crítica não pretende revelar nada que estrague a experiência de quem for ver o filme, contudo, irei falar sobre ideias, temas e interpretações que considere interessantes para o leitor.

Já passou mais de uma década desde que a Marvel Studios lançou Iron Man (2008), a primeira pedra no seu universo de filmes com uma história interligada tal como nos comics. E mesmo tendo passado este tempo todo, ainda é difícil de perceber como é que este franchise mudou a forma de fazer filmes. Após 10 anos, 21 filmes, várias séries de televisão, inúmeros comics tie-in, jogos, merchandising, vídeos que se tornaram virais e vários milhões de dólares ganhos, o Marvel Cinematic Universe (MCU) tornou-se no Santo Graal que todos os estúdios pretendem copiar, normalmente, com muito pouco sucesso. Os filmes do MCU são o pai da loucura por criar franchises multi-plataforma com uma história interligada com arcos espalhados por vários filmes.

Contudo e apesar da Marvel ter criado um conjunto de fórmulas que os outros estúdios têm dificuldade em imitar – desde a sua famosa mistura entre acção e humor às frequentes referências narrativas e visuais para os fãs dos comics –, também esta começa a abandonar as fórmulas de sucesso que tem usado até aqui. Spider-Man: Homecoming foi lançado depois da guerra entre heróis que foi Captain America: Civil War e preferiu tornar a sua história mais pessoal, centrada num herói de bairro, reduzindo a sua acção a um terreno mais mundano e humano. Thor: Ragnarok deve a sua história à visão de Taika Waititi, um realizador com uma sensibilidade cómica muito distinta, que introduziu um sentido estilístico indie ao mundo dos super-heróis. Avengers: Infinity War, pela primeira vez, fez com que os heróis perdessem e que tivessem perdas muito pesadas, matando muitas das personagens principais de várias séries de filmes.

No entanto, até agora nada destruiu a fórmula Marvel como Avengers: Endgame fez, ao seguir o caminho criado por Infinity War, explorando e expandindo a sua sensação de perda e desamparo. De tal forma, que o filme deixa de ser apenas uma história da Marvel para passar a ser uma série de momentos recompensantes para todos aqueles que seguiram as várias histórias dos vários filmes que a Marvel criou ao longo de mais de uma década.

Filmes de super-heróis têm o constante mau hábito de usarem a morte trágica de um personagem só para criar tensão por uns minutos, já que acabam por revelar, pouco tempo depois, que a personagem afinal ainda está viva. Avengers: Endgame não segue esta tendência. Em vez disso, decide usar o tempo que tem disponível para explorar a forma como os heróis lidam com o luto, a perda, os remorsos que sentem por terem sobrevivido e o sentido de falhanço que os vai consumindo aos poucos. O elenco numeroso, infelizmente, impede que nenhum dos personagens consiga explorar essas emoções na sua totalidade, mas os directores, Anthony e Joe Russo, e os argumentistas, Christopher Markus e Stphen McFeely, fazem questão de destacar que cada um dos sobreviventes está a sofrer por ter perdido uma pessoa amada em Infinity War e a forma como estão a tentar seguir em frente sem eles.

É quase impossível falar deste filme sem revelar alguns dos seus twists, mas o que posso dizer com toda a certeza é que Avengers: Endgame é maravilhoso, tanto no que toca à sua escala narrativa como à sua ambição logística. Em Infinity War, Thanos falou na necessidade de balanço e Endgame consegue alcançar este objectivo com uma surpreendente confiança, equilibrando na perfeição momentos muito dramáticos com momentos de comédia. As cenas mais negras e emocionalmente honestas da história do MCU ganham vida ao mesmo tempo que assistimos a algumas das cenas mais ridículas e divertidas que alguma vez vimos. É verdade que existem menos momentos de grandes gargalhadas do que em filmes anteriores, mas também é verdade que este filme é francamente mais leve e, em vários momentos, mais enternecedor do que o que se poderia esperar de uma história que começa com as repercussões do estalar de dedos de Thanos.

Endgame é um filme que parece ter sido feito de fãs para os fãs, sendo composto de homenagens a momentos, personagens e relações em que investimos nos últimos 11 anos. Várias cenas parecem genuinamente tiradas de uma página desenhada por Jack Kirby e isso é algo extremamente emocionante, ao obrigar-nos a parar e absorver a grandeza que a Marvel Studios conseguiu construir. Uma experiência cinematográfica incomparável.

Enquanto Infinity War fez o seu melhor para conjugar o enorme número de heróis presente em toda a história do MCU, Endgame decide reduzir no número de personagens, preferindo focar-se nos 6 Vingadores originais (com apoio de alguns dos sobreviventes), dando a cada um o seu bem merecido destaque. O custo de não usar a maioria das personagens mais recentes é elevado, mas, no fim, foi uma decisão que resultou brilhantemente.

Isto permitiu que o filme tivesse vários arcos narrativos que moviam a acção sem nunca perder o seu peso emocional. Aliás, são estes “pequenos” momentos em que as personagens interagem, revelando a história que têm uns com os outros e com o público que os vê, que acabam por ser o ponto alto do filme. Em contrapartida, quando o foco passa a ser a grande luta contra Thanos, alguma da urgência e da clareza da sua missão acaba por se perder um pouco. Felizmente, grande parte da história mantém o seu foco inquebrável e mantém também a nossa atenção nos objetivos individuais que cada um dos nossos heróis tem de alcançar. O que dá a Endgame o ímpeto e a circunspecção necessária para impulsionar a narrativa, mesmo nos momentos mais calmos, mais centrados no desenvolvimento das suas personagens. Há tempo para o luto, a culpa, o amor e a saudade, o que acaba por tornar o escalar da acção ainda mais recompensador. E é aqui que Endgame mais brilha.

    Talvez a maior conquista que este filme tem é a forma como nos faz compreender e apreciar mais os filmes todos que o antecederam. É realmente o clímax de um franchise inteiro e não apenas a resolução do cliffhanger deixado por Infinity War. Apesar de sabermos perfeitamente que o MCU irá continuar bem vivo com as prequelas, sequelas e spinoffs que já se encontram em desenvolvimento, a verdade é que este é o fim de uma era não só para os nossos heróis, mas para uma geração inteira de fãs que cresceu e construiu uma vida ao lado deles. Endgame pode ser o último filme em que Stan Lee aparece, mas, graças a estas incríveis personagens e aos actores que lhes dão vida, é inegável que o seu monstruoso legado está em muito boas mãos.

    Dizer muito mais sobre este filme iria obrigar-me a ser spoiler. Por isso, prefiro terminar dizendo que Endgame, pelo menos para mim, acabou por se tornar muito mais emocional e satisfatoriamente lógico do que aquilo que esperava. É um filme longo, mas, quando termina, quase que queremos ver ainda mais. Sorri com cada interação entre as personagens, com cada referência aos comics, com todos os momentos de conquista e em todos os momentos mais calmos de reflecção. A situação nunca esteve tão negra para os nossos heróis e as consequências não poderiam ser maiores, mas mesmo assim existiu sempre espaço para o humor. Não seria o mesmo MCU sem isso, não é verdade?

    Se tens uma ligação tão forte com estas personagens como os realizadores esperam que tenhas, então, garanto que este filme irá deixar-te muito feliz. Irás chorar. Irás pensar “BOA!” e aplaudir de euforia. Endgame reconhece que nem todos os filmes da saga foram perfeitos, uma vez que os tempos e os gostos mudaram, mas reconhece também que nós conhecemos cada segundo destes filmes e que eles foram muito importantes para uma geração inteira de espectadores. É o fim, mas é também um novo começo. O passado foi de ouro, mas o futuro é certamente brilhante.

    Pontuação Final

    Representação - 95%
    Argumento - 95%
    Produção - 95%
    Efeitos Especiais - 90%

    94%

    O melhor blockbuster alguma vez feito

    Avengers: Endgame é o final perfeito para uma era do MCU

    Tags

    Miguel Arranhado

    licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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