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Faróis

Portugal carregou consigo um epíteto pouco simpático e durante muitos anos. Apesar de ser um país rodeado de água a iluminação era deficiente por isso se chamava a costa da morte. Durante anos e anos a navegação era de cabotagem o que permitiu um bom conhecimento dos recortes naturais. Contudo a noite era sempre o maior dos suplícios devido à falta de iluminação.

A acção do Marquês de Pombal foi determinante neste sector. Com o incremento do comércio com a Inglaterra, mais concretamente com a Casa da Douro, foi imperativo a construção de faróis. Este é o início de uma tarefa grandiosa e pertinente que teve o seu apogeu com Fontes Pereira de Melo.

Com o Marquês ficaram cinco faróis em funcionamento, mas agora temos a costa toda iluminada. Quando se deixa de ver um farol muito próximo está outro e a costa deixou de estar desprotegida. Os acidentes e as tragédias passaram para a história e não para o dia a dia. Hoje temos segurança e conforto, uma forma de navegar que não oferece perigo.

Apenas duas situações permitem que os faróis se apaguem: ou por ordem governamental ou por uma situação de risco de queda. A primeira aconteceu durante a II Guerra Mundial, para que os navios alemães não pudessem ter orientação. Isso seria uma traição, uma passagem de informação ao inimigo, apesar da neutralidade portuguesa.

Com mais de 50 faróis distribuídos pelo continente e ilhas a costa portuguesa já não oferece perigo e consegue exorcizar os fantasmas do passado. Os navios e os aviões podem navegar em águas mansas e tranquilas. São as mesmas de sempre, mas o estigma da morte desapareceu e agora estes edifícios convidam a visitas e viagens históricas.

Alguns deles ganharam uma aura de mistério e por isso se torna interessante conhecer a sua origem e o seu papel no contexto histórico. Não são apenas as características físicas que importam, mas igualmente a sua construção e todas as peripécias que possam ter acontecidos.

A sua localização é sempre excelente e isso propicia lendas e ditos que se vão perpetuando ao longo dos tempos. Eles existem. São testemunhas dos tempos, das decisões, das tempestades e das alegrias que também souberam dar. Os faróis são fontes históricas de valor incalculável.

Tal como as pessoas que os habitaram e deixaram ficar a sua marca. As suas paredes guardam os segredos de todos os que por má passaram, as mágoas e tristezas, os amores e desamores e as alegrias partilhadas. São como túmulos só que estes são de boa vontade de não de morte.

Visitar um farol é começar uma viagem sem fim. As escadas são marcos e testemunhos de tantos acontecimentos, de tanta vontade dos que se prestaram a dar o seu contributo para que as vidas dos outros fossem mantidas e continuadas. A mão foi dada e o caminho que seguiram foi de cada um.

São sons que se cravam nas paredes, gritos de aflição por estarem perdidos e sentirem o cheiro da morte, outros que se ouvem são de alegria e de gratidão por terem sido salvos e terem chegado a bom porto. Vidas que se juntaram e que voltaram a partir. Os dias são sempre novos e diferentes.

No alto a luz que emana é superior à que se vê. Vai ainda mais longe do que a vista possa alcançar e chega a mundos novos onde o impossível acontece e dá lugar a uma nova e boa sensação, a de segurança.

Bem-aventurados os que ajudam quem precisa e continuam no seu anonimato diário. Não é apenas uma missão que cumprem, mas, sim, um valor mais alto que mostram: o altruísmo que nunca se aparta da dedicação. Estes são os heróis que ficam esquecidos, mas devem ser recordados. Sem eles a morte continuava a vingar.

O isolamento, a saudade e a tristeza são sentimentos que podem incomodar. Um faroleiro consegue experienciar tantas emoções negativas, mas essas acabam por se desvanecer quando recebem os devidos e merecidos agradecimentos pela obra feita. São pequenos anjos que continuam a iluminar o caminho de muitos. Vai para eles a minha gratidão.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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