Quando a minha avó tinha 10 anos, a infância sabia a dureza, vivia-se à pressa e desprovidos de qualquer coisa que se assemelhasse a afeto. O mundo experienciava a fome, a miséria e a Ditadura Salazarista, e não se pensava que as ações dos adultos influenciassem a vida das crianças. Afinal, não percebiam nada e se tivessem que fazer pela vida, melhor ainda, mais rijos e preparados para o mundo ficavam, certo? Será estranho pensarmos que se passaram cerca de 90 anos e este discurso ainda nos parece familiar?
Nessa época (e talvez ainda hoje), não havia uma consciência de como as falhas da infância podiam condicionar a vida enquanto adultos, moldando crenças, definindo personalidades e gerando padrões.
Quando o meu pai tinha 10 anos, as brincadeiras aconteciam na rua com brinquedos criados por ele e pelos irmãos. Não havia horas para voltar para casa, não havia regras para cumprir. Havia os berros da minha avó quando os queria de volta e quando precisava que obedecem. Criavam-se sozinhos na rua sob o olhar de uma ou outra vizinha, lá quando calhasse. Não existia diálogo, existia aquilo que se chamava de respeitinho (ou medo)!
Quando eu tinha 10 anos, a meio dos anos 80, a vida já se havia tornado um pouco mais tranquila. Tinha brinquedos oferecidos em duas épocas distintas: no meu aniversário e no Natal. Brincava na rua com as minhas amigas, aos escritórios, achando que era profissão muito importante, saltava ao elástico. Percorria a lista telefónica com as minhas amigas e, aleatoriamente, telefonava para alguém a perguntar pelo Sr. Leão, sendo que nunca era o Sr. Leão porque nos enganávamos na jaula! Quem nunca, em plenos anos 90?
Tinha computador, oferecido pelo meu tio, na altura em que se fazia jus à eterna música dos Rio Grande: “O rapaz estuda nos computadores, dizem que é um emprego com saída…”
O “bicho” só servia para jogar. Era uma versão 3.1 do Windows ´91 e eu percebia tanto daquilo como hoje percebo de física quântica.
O meu “chip” era limitado, como era o de todos os miúdos dos anos 80, por isso, quando se falava em internet ninguém sabia muito bem o que fazer com aquilo. Lembro-me, com real clareza, de querer sempre saber mais sobre tudo, então se existia a tal internet, eu queria saber o que ela fazia. Entrava no Ms-Dos, escrevia: “quero falar com o computador” e dava ENTER, na esperança que o desgraçado me respondesse. Nunca aconteceu! Vá-se lá saber porquê!
A minha filha tem 4 anos e com esta tenra idade já viajou mais do que eu quando tinha 20, já passeou mais, já teve mais brinquedos que eu tive durante toda a minha infância, já tem tablet, phones e navega pelo Youtube como se esta funcionalidade fizesse parte do seu ADN.
Dança todos os tiktoks que vê e tem resposta para tudo na ponta da língua. Come mal e, na sua maioria só o que gosta. Tira-me do sério vezes sem conta. Testa os meus limites e sinto sempre que não liga, absolutamente nada ao que digo, que não lhe imponho respeito nenhum e que, se isto continua, vou estar tramada com ela. É uma miúda curiosa, interessada e estimulada com comportamentos típicos de uma criança de 4 anos.
Porém, no outro dia, no supermercado, esperneou, gritou, bateu com os pés no chão e chamou-me, do alto dos seus 4 anos, feia. Pedi-lhe calma, perguntei-lhe se queria um abracinho ou se a podia ajudar de alguma forma. Não resultou. A gritaria escalou na mesma medida que a minha paciência em conjunto com a vergonha dos olhares alheios cravados em mim fizeram com que engolisse o choro baixinho, enquanto me afastava com ela arrastada pela mão.
Eu tentei a parentalidade positiva, tão falada nos dias de hoje, e, aparentemente, a solução para todos os problemas desta coisa de criar gente pequena. Tentei, da melhor forma que aprendi, ser uma mãe do seculo XXI que cria empatia com a sua filha, que lhe dá a liberdade de se frustrar (porque também tem esse direito), que a acolhe no seu choro, na esperança de também ser compreendida e não julgada pelos outros que ali assistiam à real birra. Na verdade, o que eu tinha vontade era de lhe dar uma palmadinha bem assente daquelas que ajudam a criar, mas, não fossem os mesmos olhares-juízes se transformarem em chamadas para a CPCJ, engoli o choro, a frustração e a vergonha e arrastei-a pelo braço na tentativa de fugir rapidamente dali. E se ela se torna uma bully por ter levado uma ou duas lambadas quando era pequena?
Numa vertente ficcionada, mas ainda assim tão real, a Inês transitou para o 9º ano e exigiu aos pais um IPhone 12 porque todas as colegas tinham um e ela não queria ser colocada de parte. Os pais tentaram explicar que não tinham capacidade financeira para tal, ao que a Inês rematou a pés juntos tal tacada da vergonha para os progenitores:
— Se não tinham dinheiro, não tivessem filhos, eu não pedi para nascer!
Os pais baixaram a cabeça e acharam que ela tinha alguma razão. Fizeram um crédito e um esforço surreal e lá pagaram o telemóvel para a filha em 12 meses. Pena só ter durado 4 porque ela o deixou cair e partiu o ecrã, exigindo novamente outro “brinquedo”.
O Rodrigo tem 13 anos e vive a 1 quilometro da escola, no entanto, segundo ele, é um caminho muito longo para fazer a pé. Então, cada vez que precisa, que tem um furo ou que termina as aulas, telefona à mãe para o ir buscar, tal táxi à disposição da sua vontade. A mãe faz uma ginástica tremenda entre o trabalho e as idas à escola e a casa, mas ainda acha o pequeno Rodrigo muito novo para andar sozinho na rua. E se acontece alguma coisa? Se é raptado? Se tem um acidente? Não! Não! Nunca se iria perdoar!
Estas mães estão erradas? Não. Não estão, tiveram foi azar de terem sido abençoadas com a maternidade numa altura em que tudo o que se faz está, de algum modo, errado.
Em 90 anos toda a esfera educacional alterou. Não só os nossos comportamentos enquanto pais, mas também dos nossos filhos que já são de uma geração esculpida por moldes diferentes dos nossos e dos nossos avós.
Muito se evoluiu e se estudou para que esta faixa etária fosse compreendida de forma mais assertiva e se entender que tudo, mas absolutamente tudo o que acontece na infância tem consequências diretas na idade adulta. As nossas crenças, os nossos medos, os gatilhos que são ativados. Todavia, esta sede insaciável pela mudança causou um desequilíbrio de proporções gravíssimas entre a imagem que precisamos, a qualquer custo, de transmitir de pais perfeitos, na tentativa de evitar repetir padrões comportamentais, querendo sempre o melhor para os nossos filhos (e o melhor, normalmente é o oposto do que tivemos), e o ridículo em que nos deixamos cair nesta espiral de exageros e superproteção.
Se uma mãe diz que ouve a sua filha e que tenta ser empática com ela, há sempre outra mãe à espreita a dizer, a plenos pulmões, que o que ela precisa é de uma lambada a ver se tem educação e respeito pelos outros.
Se uma mãe nega a mais recente tecnologia à sua filha está a limitar-lhe o acesso a todos os mundos que poderia ter, se acede, é porque lhe faz as vontades todas e ela nunca será ninguém na vida porque não sabe o que custa trabalhar e ganhar dinheiro. Se uma mãe deixa o filho de 10 anos em casa, sozinho, porque não tem alternativa e quer que este aprenda a desenrascar-se, está a ser negligente, irresponsável. Se o leva e vai buscar à escola de carro quando este tem 13 anos está a ser mãe-galinha, a criar um mimadão que nunca saberá fazer nada sozinho.
Ser pai ou mãe foi e será sempre a tarefa mais dura, árdua e injusta que alguém pode desempenhar. Criar e educar um Ser Humano para que se torne um adulto saudável, equilibrado, amado e feliz pode parecer facílimo e, no entanto, é das coisas mais difíceis e cruéis de fazer na vida.
Parece que a ideia de ser o adulto a tomar as decisões e a impor regras fundiu-se com esta nova geração de pais que tenta cumprir todas as vontades do filho, ser um pai porreiro e um amigalhaço, não estabelecendo limites ou barreiras tão necessárias quanto o beijo, o carinho, a compreensão e a empatia.
E, uma vez mais e como sempre, o cerne da questão, a culpa e a responsabilidade será sempre dos pais. Podemos não gostar de ler, de ouvir, de aceitar ou assumir, mas já de longe vem a frase: O que fizeste com o que fizeram contigo? Ou será necessário relembrar que todas as crianças são esponjas e espelhos do mundo que as rodeia?
Não sou diferente. Não sou melhor ou pior. Sou mais uma mãe confusa e muitas vezes com excessivos sentimentos de culpa que me bloqueiam o discernimento e me rotulam de incapaz. Confundindo aquilo que, atualmente é considerado correto, com as crenças impressas nas minhas células.
Nesses dias, olho para a minha filha, dou-lhe mimos, abraços e explico-lhe o que estou a sentir na esperança de que ela também o faça. Conversamos. Compreendemos. Acolhemos. Aprendemos em conjunto a gerir esta relação recheada de medos e bipolaridades típicas da maternidade. Choramos e pedimos desculpa. Afinal, já se concluiu que demonstrar sentimentos não faz mal a ninguém. Posso ter dúvidas em relação a tudo, mas nunca do amor que tenho por ela. Por isso, todos os dias, na busca de ir acertando as tarefas da mais difícil profissão do mundo, tento ser um bocadinho melhor do que no dia anterior. E enquanto assim for, estará sempre tudo certo.