green and yellow fish on water

Procura-se título que ofereça 100% de satisfação criativa

Ora bem, estou de volta ao Repórter Sombra para esta edição especial. Mas sem saber bem como voltar. Esta indecisão, que cunho como falta de criatividade, assume um carácter de piada, tendo em conta que o Miguel me desafiou a responder às seguintes questões:

  1. Será possível sentirmo-nos satisfeitos a 100% num trabalho no que toca à nossa criatividade? 
  2. Como conseguir um trabalho que nos permita ser criativos e explorar essa criatividade?

Perante esta incongruência, com certeza que conseguem imaginar a anedota que me sinto. Aqui estou eu diante de uma oportunidade de explorar as minhas ideias, sem que passem por grandes hierarquias de aprovação, e tudo o que fiz até agora foi empatar o vosso tempo, a ver se ganho algum para mim, até alcançar as respostas de um milhão de dólares.

O caso torna-se ainda mais grave, quando penso que um dia disse que queria ser criativa. A lei da atração funcionou (e o esforço também) e hoje trabalho num departamento criativo. Departamento esse a que o publicitário Edson Athayde – aquele que fez o “Tou xim” da Telecel – se referiu mais ou menos nestes termos: se quiser ser criativo, mais vale ir graffitar paredes.

É que a publicidade não trabalha só com a imaginação. Tem clientes e notas legais. E coisas que têm de estar em cada peça. E orçamentos. E prazos. E muita – mesmo muita – gente a filtrar ideias. A começar por nós. E talvez seja aí mesmo que esbarrem os 100% de satisfação.

Por coincidência, recentemente esbarrei com uma entrevista a Toni Segarra, considerado o melhor criativo do século XX. O homem arrecadou 39 Leões de Cannes, mas diz que não se lembra de uma só campanha que tenha sido executada da forma como imaginou. Segarra vai ainda mais longe ao afirmar que raramente sente que tem a ideia. Mas levou para casa 39 Leões de Cannes. 39. Leões. De Cannes. 

Isto responde à primeira questão, certo, Miguel? O homem está numa área criativa por excelência, os óscares da área reconhecem que ele tem as melhores ideias do ano e mesmo assim não há ali satisfação a 100%.

No que respeita à segunda pergunta, felizmente lembrei-me de um caso que talvez ajude na resposta.  No ensaio “Telenovela, Indústria & Cultura, Lda.”, escrito por Eduardo Cintra Torres para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, uma das grandes conclusões que fica é: ser guionista requer muita criatividade e insatisfação proporcional. Uma das situações mais flagrantes é quando os guionistas de telenovelas criam cliff-hangers que, na verdade, por questões de grelha, acabam por aparecer a meio ou no início de um episódio.

Posto isto, diria que trabalhos criativos há muitos. Até o meu pai taberneiro é criativo, quando enche os copos de vinho a partir de um pipo e, como a pressão cria espuma, na verdade o copo não fica cheio até ao topo, o que permite ganhar o mesmo dinheiro com menos produto entregue. 

E até eu sou criativa quando junto casos e casinhos para preencher esta página. 

Quanto à satisfação criativa que daí advém, duvido muito que algum dia seja plena. Cá para mim, será sempre um copo enchido a partir do pipo com aquela espuma duvidosa a pairar. E, nessa espuma, cabe tudo o que ficou por imaginar. Tudo o que não foi possível concretizar.

Ainda assim, esperemos que tal consciência de incompletude nem sempre anule o prazer da viagem. Como esta que agora faz 10 anos e, mais do que um copinho, enche uma jarra de bom néctar. 

Um brinde a nós.

Nota: Artigo escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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Querida Telma

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