Marés de Melodia

“A Pequena Sereia”, o tão esperado remake live-action do clássico animado da Disney de 1989, inspirado no conto de Hans Christian Andersen, chegou aos cinemas portugueses no passado dia 26 de Maio. Neste artigo, iremos explorar a importância da banda sonora no filme, destacando o talentoso compositor, o escritor, os intérpretes da versão em português e a recepção da crítica, não deixando de mencionar um lado menos positivo das sensibilidades modernas.

Quando se trata de compôr músicas memoráveis para filmes da Disney, o nome que Alan Menken soa ao ouvido. O renomeado compositor norte-americano é amplamente conhecido pelo seu trabalho em diversos clássicos da Disney, como são exemplo de “A Bela e o Monstro”, “Aladdin” e a “A Pequena Sereia”. Alan Menken, ao longo da sua carreira, recebeu um impressionante número de prémios, incluindo oito Oscars, onze Grammys e sete Globos de Ouro. É reconhecida a sua capacidade de criar canções que se tornam verdadeiros hinos da cultura pop, sendo muitos dos seus temas, parte integrante da memória colectiva de várias gerações, sendo um exemplo a sua colaboração com o escritor Howard Ashman, na criação de “Under the Sea”, uma das canções mais memoráveis de “A Pequena Sereia” (o original de 1989), e da história da Disney. Músicas como estas, com melodias cativantes e letras empáticas, conseguiram conquistar o coração de várias pessoas em todo o mundo.

Neste projecto mais recente, Alan Menken colaborou com o escritor Lin-Manuel Miranda, talentoso compositor, escritor e actor americano, conhecido pelo seu trabalho em musicais de sucesso, como “Hamilton” e “In the Heights”. Miranda também já tinha participando na criação de bandas sonoras para filmes, incluindo o sucesso da Disney: “Moana: How Far I’ll Go”. A parceria entre Menken e Miranda trouxe uma nova perspectiva musical para o filme, combinando a experiência de Menken em composição com a criatividade e estilo revolucionário de Miranda, na escrita de letras. Juntos, trabalharam para criar novas canções, ao mesmo tempo que trouxeram novas interpretações das músicas do clássico, garantindo uma banda sonora memorável. A nova banda sonora tem recebido elogios pela sua qualidade musical e capacidade de evocar nostalgia. A crítica destaca a habilidade de Alan Menken em manter a essência das canções originais, enquanto adiciona novos elementos e arranjos, adaptando-se à estética do live-action.

A combinação entre as vozes dos intérpretes e a magia das músicas tem sido destacada como um dos pontos altos do filme. Com o remake, a banda sonora ganha uma nova vida, adaptada para o formato cinematográfico actual. A colaboração entre Alan Menken e Lin-Manuel Miranda, resultou em composições que enriquecem a experiência musical do filme. A importância da banda sonora em “A Pequena Sereia”, reside na sua capacidade de encantar e emocionar. As músicas são elementos-chave, que procuram tornar o filme memorável e contribuem para sua identidade artística.

São vários os actores e atrizes que emprestam as suas vozes aos personagens para a versão portuguesa de a “Pequena Sereia”. Soraia Tavares dá voz à sereia Ariel. Já Ricardo Soler dá voz ao belo Príncipe Eric por quem Ariel se apaixona quando visita a superfície. Os famosos amigos de Ariel, o caranguejo Sebastião e Scuttle são interpretados, na versão dobrada, pelos actores João Frizza e Ana Cloe. Para além de lhes darem voz, todos eles interpretam incrivelmente as músicas das suas personagens.

A Disney, nas suas produções pós-2010, tem habituado o público a ver plasmados nas suas histórias, de forma mais ou menos clara – e mais ou menos atabalhoada – os princípios da diversidade, do feminismo e da desconstrução de estereótipos. A marca procura criar histórias que inspirem e representem diferentes perspectivas, promovendo a inclusão e a igualdade. Estas opções já foram amplamente elogiadas em determinados contextos e noutros fortemente criticadas. O remake de “A Pequena Sereia” não é excepção.

No que diz respeito à banda sonora, foi o próprio compositor Alan Menken quem se propôs a reflectir sobre a influência que a sua arte pode ter na música, cinema e na sociedade em geral. O compositor sentiu necessidade de fazer algumas alterações ao tema “Kiss the Girl”, segundo afirma o próprio, numa entrevista dada a Leigt Scheps, para a Vanity Fair, “porque as pessoas ficaram muito sensíveis sobre a ideia de que [O Príncipe Eric], de alguma forma, a forçaria [Ariel]”. Na mesma entrevista o compositor fala ainda da alteração à música “Poor Unfortunate Souls”, pois segundo o mesmo, “podem fazer com que as meninas de alguma forma sintam que não devem falar fora da dua vez, mesmo que Úrsula esteja claramente a manipular Ariel para desistir de sua voz.”

E é aqui que se coloca o eventual excesso de sensibilidade. Podendo argumentar-se que as denominadas sensibilidades modernas podem levar a uma sensibilidade excessiva. As sensibilidades modernas referem-se a um conjunto de questões e preocupações, que se tornaram mais proeminentes na sociedade contemporânea, em especial na última década, e que estão relacionadas a várias áreas, onde se inclui também a justiça social, igualdade de género, a diversidade, a inclusão, a sustentabilidade e a ética. Embora as sensibilidades modernas sejam um movimento tendencialmente positivo, promotor de igualdade, justiça e conscientização, existem algumas preocupações e críticas que se levantam quando, como em tudo, há excessos. Onde qualquer palavra, acção ou expressão pode ser interpretada como ofensiva.

É essencial, por isso, manter uma visão equilibrada diante dessas discussões, para que o diálogo não desapareça, para que não exista apenas espaço para o politicamente correcto, o que quer que tal signifique, e para que haja sempre uma oportunidade de reflexão, crescimento e liberdade de expressão. No caso concreto, e ao contrário do que está a acontecer com a alteração de obras literárias post mortem, como as de Agatha Christie, é importante reconhecer que o compositor tem não só o direito, como a liberdade artística, para alterar as suas criações e adaptá-las de acordo com sua visão actual. Contudo, não é displicente a preocupação com a autocensura, podendo as pessoas, sentirem-se pressionadas a filtrar cuidadosamente as suas palavras para evitar desencadear reacções negativas. Isso pode limitar, não apenas a liberdade de expressão e dificultar o debate aberto e honesto sobre questões importantes, como também limitar a liberdade e expressão artísticas. A arte sempre foi uma forma de expressão que desafia normas, questiona convenções e provoca reflexões.

O excesso das sensibilidades modernas pode levar a controvérsias e restrições. E tem levado mesmo, em casos específicos, à censura da arte. Encontrar um equilíbrio entre o respeito às sensibilidades e a liberdade de expressão na arte é um desafio contínuo. Não deve ser percorrido o caminho mais fácil, sob pena de perda de espontaneidade artística. É fundamental não perder de vista a importância da autonomia pessoal do público e a capacidade crítica individual. A arte é um reflexo da sociedade em que vivemos, e é expectável que ela evolua e se adapte às transformações culturais. Mas será que lhe cabe apagar expressões e acções para não ferir algumas sensibilidades. Alterará isso a realidade da sociedade? Ou apenas estamos a perder a oportunidade de discutir temáticas de extrema relevância?

No caso das músicas de “A Pequena Sereia”, sem as alterações às músicas, estávamos já perante uma oportunidade para discutir com os mais jovens, ou entre pares, o consentimento, a igualdade de género e outros temas relevantes. A censura excessiva pode inibir a oportunidade de aprendizagem e o entendimento da sociedade. É essencial manter o diálogo, ouvir diferentes perspectivas e aprender uns com os outros. Somente assim poderemos encontrar um equilíbrio entre a apreciação da arte, a sensibilidade às mudanças culturais e a preservação do legado histórico. A música, como expressão artística, tem o poder de envolver, emocionar e estimular conversas importantes, sobre temas relevantes.

A nova banda sonora de “A Pequena Sereia” certamente proporcionará espaço para reflexões e despertará o diálogo. Ressalvo que as preocupações e desafios que podem surgir ao lidar com estas questões, não invalidam as sensibilidades modernas como um todo. A sensibilidade em relação a certos temáticas é uma parte essencial do progresso social e da promoção da inclusão. Encontrar um equilíbrio entre sensibilidades modernas, liberdade de expressão e compreensão mútua é um desafio contínuo para a sociedade.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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