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Três eleições depois: que sinal ainda falta?

Em três anos já ocorreram três eleições legislativas. Em 2022, na sequência do fim da geringonça, que deu a maioria absoluta ao PS; em 2024, após a queda do Governo de António Costa, em consequência de uma série de casos e casinhos. E, agora, em 2025, após uma polémica que começou com as empresas imobiliárias de secretários de Estado e que rapidamente pôs o Primeiro-Ministro no centro de um escândalo ético.

Um Primeiro-Ministro envolvido num escândalo ético — e sem apoio político para se manter no cargo — ter conseguido vencer poderia ser o grande choque destas eleições. Mas esse facto foi rapidamente ofuscado por algo ainda mais surpreendente: o Chega tornou-se na segunda força parlamentar.

As eleições foram ganhas pela AD, com 31.79% (91 deputados). O PS (22,83%), apesar de ter ficado em segundo lugar em número de votos, passa a terceira força política na Assembleia da República, com 58 deputados, e é ultrapassado pelo Chega (22,76%), que passa a ter 60 deputados. Se, em 2019, existia uma clara maioria de esquerda na AR, o cenário inverteu-se, simbolizada pela queda do PS.

Há algum tempo que os sinais estavam à vista. Não se trata agora de categorizar os 1 437 881 eleitores do Chega de fascistas. Alguns até serão, mas a larga maioria não é e até vieram de partidos de esquerda, como o PS. Muito menos de que os eleitores são néscios ao ponto de votar contra si, porque foram “enganados” pelos partidos do arco de governação. E a justificação de voto de protesto tem os seus limites explicativos, especialmente quando põe um partido em segundo lugar.

Desde as eleições legislativas de 2019, sobretudo as de 2024 e 2025, que os eleitores deram um sinal claro de que algo teria de mudar na política portuguesa. Não somente pelo número de pessoas que decidiram não votar, mas pela escolha de um partido que assumidamente quer cortar com as conquistas do 25 de Abril. Há uma clara desilusão com os partidos institucionais e as suas políticas.

O século XXI português tem sido, até ao momento, um carrossel de crises. A crise financeira de 2010/2013, que culminou num pedido de auxílio a organismos internacionais; um governo liderado pelo PSD (Pedro Passos Coelho), que decidiu ir além do memorando com a Troica e, por isso, agravou as medidas de austeridade, piorando as condições de vida de quem aqui vivia.

Neste contexto, as esquerdas reorganizam-se e decidem que é hora de terminar com a austeridade que já não se justificava. Naquele momento, nas eleições de 2019, a esquerda, na sua globalidade, conseguiu um dos melhores resultados em democracia. Apesar de algumas medidas terem conseguido aliviar um pouco a vida dos que aqui residiam, a verdade é que a chamada política de «contas certas» não era em nada diferente das políticas de austeridade. Orçamentos e Estado eram aprovados, mas os valores orçamentados não iam para os serviços públicos ou entidades públicas, porque estavam cativos.

A pandemia da COVID-19 chegou a Portugal quando estávamos a ganhar algum fôlego da crise passada. O fecho de fronteiras, medidas de confinamento e, depois, o reacender da guerra na Ucrânia resultou numa degradação económica e social, de que ainda se sentem as consequências. 

Nos últimos anos, PS e PSD, reconhecidos como os líderes da esquerda e direita respetivamente, não têm sido diferentes. Ambos subscrevem as políticas do neoliberalismo, a austeridade acabou com o PS, mas criaram-se as contas certas, que não passam de uma austeridade com um nome digestível. Os serviços públicos, como já se vira durante a pandemia, não têm recursos, financeiros nem humanos, suficientes para atender os cidadãos em tempo útil e com qualidade mínima.

Governaram PS e PSD, mas o problema da habitação não se resolveu, antes se agravou; o SNS tem cada vez mais constrangimentos. Os aumentos nos rendimentos nunca são o suficiente para alcançar o ritmo de crescimento das despesas. À falta de oportunidades em Portugal, muitos decidem emigrar. Quando os problemas económicos se agudizam, parte da esquerda importou do debate anglo-saxónico uma agenda identitária, ignorando que a base material da sociedade é a estrutura que determina tudo o resto.

O direito à diferença é algo justo e pelo qual se deve lutar. No entanto, sem segurança económica, habitação, serviços públicos de qualidade e acessíveis, as pautas identitárias não têm adesão suficiente. Para quem está com dificuldades em pagar a renda, porque se é precário ou não ganha o suficiente, a representatividade identitária e o direito ao reconhecimento são importantes, mas passam a segundo plano. Este desvio, abriu espaço suficiente para o discurso oportunista do Chega, no qual identifica de modo direto e simples os culpados. Mesmo que a solução apresentada por André Ventura resvale para um projeto autoritário, a sua retórica tem sido eficaz como se verifica pelo número de votos.

O Chega tem um discurso abertamente antissistema que aponta os culpados do estado a que chegámos. A esquerda, como bem sintetizou Rui Tavares, não conseguiu apresentar uma alternativa. É verdade que muito do que existe de positivo em Portugal, como o salto na qualificação, redução drástica da mortalidade infantil, apoios sociais para os mais desfavorecidos, é fruto de lutas sociais ouvidas pelos diferentes partidos, especialmente de esquerda.

Foi o momento em que a esquerda foi capaz de se afirmar e apresentar uma alternativa. Ou Estado Novo, ou um novo regime onde as populações, não somente tivessem representação parlamentar, mas também soubessem que seriam ouvidas e poderiam participar na construção desse novo Portugal. Para a campanha eleitoral de 2019, mais uma vez, a esquerda apresentou uma alternativa à austeridade, embora tenha desiludido com as contas certas.

Em vez disso, a campanha eleitoral para as legislativas de 2025 centrou-se, mais uma vez, nos casos e casinhos, no desmaio de André Ventura, em Luís Montenegro ter apresentado a sua declaração de rendimentos com um ano de atraso. Que soluções foram apresentadas para resolver o problema nos serviços públicos? Que medidas foram apresentadas para estimular a economia nacional?

Se formos ler o programa da CDU, encontraremos medidas que vão ao encontro desses problemas. Também no PS as encontraremos; no BE e Livre também existem medidas para resolver os problemas social e ambiental. Mas a maioria do eleitorado não vai ler os programas políticos. O conhecimento político que vai obtendo é encontrado nos jornais, vídeos e publicações curtas na internet e nos diferentes espaços de comentário.

A queda da esquerda institucional nestas eleições legislativas é uma oportunidade e não uma tragédia. Está na hora de a esquerda institucional sair da sua torre de marfim e descer às ruas. Ouvir as pessoas nos cafés e falar com elas, não numa atitude de quem sabe o que é melhor para elas, mas com verdadeira vontade de trabalhar em conjunto para mudar este sistema, que tem o prazo de validade largamente ultrapassado. É momento de sair dos gabinetes e juntar-se às pessoas nas ruas quando elas se manifestam, não porque é tradição ou bonito desfilar numa avenida enquanto se entoam alguns slogans, mas para verdadeiramente lutar ao lado dessas pessoas por um Portugal diferente, onde a exploração, a precariedade, discriminação (inclusive identitária), enfim, tudo o que de negativo o capitalismo tem, possa ser algo do passado.

O verdadeiro poder, como a Revolução mostrou, está na rua e por isso não é preciso temer 60 populistas a criarem ruído em S. Bento, desde que a esquerda possa ser alternativa.

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