Neste planeta

– Gostava mesmo de ir ao concerto, mas disseram-me que já não há bilhetes!

Mais que a tristeza, notava-se na cara e no tom de voz o desapontamento.

– O Bispo é o meu cantor preferido, pai.

No dia seguinte enviei à minha filha, via Whatsapp, um anexo com dois bilhetes para o Coliseu, concerto do Bispo. Havia ainda muitos bilhetes.

Diz que quando abriu o ficheiro durante o intervalo das aulas, nem estava a perceber bem o que era. Foi uma colega da turma que a elucidou:

– Nem estava a acreditar, pai. Obrigado! Love you!

Em meados de março, lá fomos à “missa”. Como pai responsável de uma menina de 13 anitos, lá fui certificar-me de que tudo correria bem neste seu primeiro concerto a sério.

Pareceu-me que para fazer 80 quilómetros, comer qualquer coisa e estar no Coliseu com tempo para ver o início do concerto às 21 e 30, duas horas e meia seriam mais que suficientes.

Só que não. Da rotunda do Marquês para baixo era um tal de para arranca que demorou mais a fazer o caminho até aos Restauradores do que a fazer os tais 80 quilómetros. Na avenida não andava, nas laterais entupidas de carros também não. O parque dos Restauradores não era opção. E o tempo a passar: 21 e 10 e nós no meio do trânsito. 21 e 20, conseguir finalmente chegar aos Restauradores, voltar para cima pela lateral da avenida, procurar um lugar para estacionar, percorrer duas paralelas sem sucesso, 21 e 40 estacionar quase no Marquês e desatar a correr por Lisboa abaixo até às Portas de Santo Antão. Nós e mais uns quantos…

Quando entrámos e conseguimos uns lugares minimamente aceitáveis na bancada numa sala completamente apinhada, obviamente, já tinha começado o concerto.

A minha filha cantava a plenos pulmões as músicas que fez questão que eu ouvisse durante a viagem. Claro que sabia todas as músicas de cor. Claro que conhecia todos os (muitos) convidados. Claro que filmou quase tudo. Enquanto isso, as lágrimas escorriam-lhe pelas faces.

– Estás bem?

Olhou para mim, enquanto filmava, acenou que sim com a cabeça e abraçou-me.

Sem muito espaço para nos mexermos, podia dizer que já não tenho idade para isto, mas não. Das músicas eu conhecia os duetos com a Tinoco e com o Piçarra e mais uma ou outra que passam mais nas rádios. Fiquei fã, a música é bem construída, as letras contam histórias do dia a dia e mexem connosco. Gosto muito de música ao vivo. E adorei fazer esta surpresa à minha filha.

O atraso foi esquecido; o seu primeiro concerto ficou marcado.

– E, por que estavas a chorar?

– Não sei pai. Foi por tudo, pelo atraso e pelo stress de pensar que já não íamos ver nada; depois por já estar lá dentro; por não acreditar que estava ali; pelas músicas e as letras dele…

Agarrou o meu braço com as duas mãos e encostou a cabeça.

– Obrigado pai. Adorei.

– Eu é que agradeço por viver estes momentos contigo.

Nota: artigo escrito segundo o Novo Acordo Ortográfico.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Dias e Noites de Amor e de Guerra

Next Post

Três eleições depois: que sinal ainda falta?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Silêncio

O Silêncio é de Ouro. Ditado tão batido e tão verdadeiro. Tão mais verdadeiro. Tão cada vez mais verdadeiro. É…

A Frustração

Por norma, nesta crónica que escrevo habitualmente para o Repórter Sombra, escolho um ou outro tema da…

A perspectiva do copo

A forma como escolhemos enfrentar os desafios na nossa vida, definem o modo como nos posicionamos perante os…