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Ciências

A importância dos Microbiomas humano e vegetal

O Microbioma e o início: Em 1958, Joshua Lederberg (EUA, 1925-2008), médico americano e investigador em Biologia Molecular, foi agraciado com o Prémio Nobel da Medicina pelos seus trabalhos em recombinação Genética e Genética Bacteriana. Na sequência das suas premiadas investigações, muito centradas nas disciplinas referidas da Genética e da Microbiologia humanas, uma nova área científica surgiu, apesar de ainda hoje ser muito pouco referida.

Com a evolução das investigações e o passar dos anos, fomos sabendo mais sobre o Microbioma e a sua importância. Comecemos então por esclarecer de que se trata. Durante os poucos séculos de desenvolvimento da Medicina e das ciências que abordam a Fisiologia Humana, foi-se tomando conhecimento do que se designava por “flora intestinal”, ou “flora microbiana”, como algumas populações de microrganismos que coabitam no nosso organismo e que intervêm nos processos digestivos. Pouco mais, na realidade, se foi avançando, até às conclusões de Lederberg. Com o tempo, a Ciência foi descobrindo que, passando a factos hoje consensualmente aceites, temos cerca de três quilos de microrganismos no nosso corpo, que correspondem a mais ou menos noventa por cento dos genes que transportamos (que estão no nosso organismo), sendo os genes humanos apenas cerca de dez por cento. 

No nosso corpo temos microrganismos literalmente em todos os órgãos, desde o cérebro ao maior órgão do corpo, a pele, incluindo a córnea ocular. São predominantemente bactérias, mas também fungos (as conhecidas leveduras, por exemplo) e outros, e são responsáveis por inúmeras funções vitais, intervindo não apenas no processo digestivo, mas na produção hormonal, nas nossas glândulas e por actividade microbiana também. São responsáveis pela manutenção de funções vitais, bom ou mau funcionamento de órgãos e ainda pelo nosso bem-estar psíquico e forma de nos adaptarmos ao ambiente onde estamos, o ambiente natal ou outro para onde mudemos e dos microrganismos necessitarmos para a fundamental adaptação. 

Trinta anos mais tarde, após o Nobel de Lederberg, uma descoberta casual levou ao início de uma outra área científica, ligada à do Microbioma humano. Foi identificada uma bactéria fixadora livre de Azoto na seiva da planta da cana-de-açúcar, quando até aí se pensava que tais bactérias apenas podiam interagir com as plantas através de processos simbióticos. O que pode parecer uma descoberta de menor importância, tem vindo a conduzir (ao longo de lentos trinta anos, no caso desta matéria científica) a novos desenvolvimentos e novas perspectivas sobre a produção vegetal, ou seja, sobre a produção de alimentos vegetais, todos eles. 

Hoje, é também consensual que os microrganismos não apenas existem em todos os ambientes naturais, concretamente nos ecossistemas vegetais, naturais ou agrícolas, sendo parte fundamental dos mesmos e contribuindo para a sobrevivência das plantas, muitas vezes sendo determinantes, perante factores de stress, abiótico (clima, solo físico, condições de salinidade, humidade em excesso ou défice hídrico, fenómenos ocasionais catastróficos, etc) e bióticos (exposição e susceptibilidade a organismos patogénicos, tal como com o nosso corpo)

Os microrganismos nos ecossistemas vegetais são fundamentais e basilares nas estratégias “coordenadas” entre plantas-solo-microrganismos. Boa parte do nosso Microbioma começou por ter origem no que ingerimos, tal como diariamente (em tudo o que ingerimos), a sua manutenção, essencial à nossa saúde e bem-estar, tem essa origem, seja animal ou vegetal. 

A consciência da existência do Microbioma, no nosso organismo e nas plantas, quero dizer, no ambiente de produção agrícola é de tal ordem que não é mais possível ignorá-lo, sendo hoje com as Alterações Climáticas e os fenómenos das catástrofes naturais cada vez mais frequentes, um factor determinante para manutenção de produção agrícola, num mundo que se espera, dentro de trinta anos, por volta de 2050, venha a ser habitado por 9 biliões de pessoas, sem se perceber ainda como poderá haver alimentos suficientes para tal dimensão humana. Os microrganismos do Microbioma vegetal, presentes em todos os órgãos das plantas, da raiz às folhas, caules, flores, frutos e vasos vasculares internos das mesmas, são populações produtoras de fito-hormonas essenciais, de metabolitos anti-patogénicos, metabolitos estimulantes do crescimento, floração e frutificação das mesmas. Essas populações protegem as plantas de factores bióticos e abióticos adversos ou ameaçadores, e contribuem para um equilíbrio dinâmico.

Nos tempos actuais, com as ameaças à nossa sobrevivência, a consciência sobre os Microbiomas, e o conhecimento ainda em fase quase inicial sobre os seus papéis, será determinante para a espécie humana, para os animais e para todos os ambientes naturais.

A FAO, pretendendo dar uma noção e uma imagem da omnipresença dos Microbiomas nos ecossistemas agrícolas e florestais, é responsável pela frase “numa colher de sopa de terra, há mais microrganismos, do que há pessoas no planeta” (acima dos sete biliões). Uma afirmação genérica, porque tudo depende das condições de cada solo e do clima respectivo, mas bem significativa da importância que temos de dar a estes seres unicelulares que já cá existiam milhões de anos antes de nós.

Tudo isto serve para repensarmos o que somos, o que nos alimenta (outro exemplo, confirmado cientificamente: as abelhas jovens que morrem em várias partes do Planeta, não subsistem por ausência de bactérias essenciais à sua alimentação, que de forma natural se podiam encontrar no pólen, mas que por acção letal de pesticidas não são suficientes para que tais insectos essenciais como polinizadores e, assim, à produção agrícola praticamente toda, possam sobreviver: uma outra ameaça grave à produção alimentar tão importante num planeta com um clima em profunda alteração e uma população em acelerado crescimento).

O contexto actual da produção agrícola necessita de um novo paradigma: o reconhecimento da importância de deixar sobreviver o Microbioma Vegetal e a necessidade de ser repensada toda a química ainda utilizada em larga escala na Agricultura (também responsável pelo mais perigoso gás de efeito de estufa, o Óxido nitroso, catorze vezes pior do que o Dióxido de carbono).

Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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