A casa sem janelas – parte I

Jaime olhou para a casa do lado de fora do pesado portão enferrujado. Achou-a irreconhecível, perdida no meio da cidade, descaracterizada entre altos blocos de apartamentos, fechada em si com as paredes e portas emparedadas. Mas ao mesmo tempo era-lhe perfeitamente reconhecível, igual a como se recordava dela, um triste lar de distantes memórias que por mais que tentasse, nunca conseguia esquecer.

Quando o homem de rebarbadora na mão conseguiu por fim quebrar os anos de resistência do portão, Jaime impediu-o de entrar. Quis ser ele o primeiro a fazê-lo mas também de impediu a si próprio. Deixou-se ficar em silêncio com o braço estendido em frente ao seu ajudante que o olhou sem grande paciência. Jaime nem o via já. Olhava a casa e os escombros que hoje eram o jardim de entrada, viu-se a brincar num luxuriante relvado, a correr, a esconder-se por trás de canteiros e arbustos, obrigando a sua mão a procurá-lo divertida.

Foi a recordação da sua mãe que o convenceu a entrar. Era altura de se desfazer daquela casa onde cresceu e onde viu a sua mãe pela última vez.

Passaram 50 anos e ainda chora. Ainda criança fugia de casa dos tios que o acolheram e corria para se deixar encontrar por eles, ali agarrado ao portão fechado. Viu aos poucos a relva a estragar-se, a secar, a ser invadida pelo lixo que caía trazido pelo vento. As janelas outrora cheias de luz passaram a ser janelas de pedra que fechavam a casa e a sua infância. Eram o maior testemunho da sua tristeza.

Ali apenas as memórias mantinham-se vivas e nelas pensava enquanto regressava de mão dada com a tia e uma lágrima no canto do olho.

À medida que se afastava via-se constantemente no seu eterno papel de menino que acabara de saber que o seu pai partira e a sua mãe desaparecera. Foi num dia de inverno frio. Saiu da escola e viu os seus tios entristecidos. Andaram longos quilómetros tentando explicar àquele menino que a vida nem sempre faz sentido. Pararam do lado de fora do portão fechado e ele viu novas paredes no lugar das janelas e das portas. A casa estava entaipada e ninguém sabia porquê. Depois observou assustado o desenho daquela mancha de sangue nas escadas cruas, ao longe, antes da entrada da casa.

Nunca soube o que realmente aconteceu. Já jovem adulto revelaram-lhe que o seu pai chegou um dia a casa e terá encontrado uma carta de despedida. A sua mãe teria partido para longe e ele terá desistido de a esperar ainda antes de o começar a fazer. Deu um tiro no céu da boca e tombou na escadaria pintando-a de tragédia. Assim decidiu a polícia o que acontecera, na falta de outra explicação e de acordo ao que se apurou na época. Nunca nada mais se soube da sua mãe.

Jaime desistiu de a procurar quando decidiu derrubar a casa onde crescera. 50 anos são uma vida que ele deixou passar ao lado. Vencido pela força das memórias que não o deixavam esquecer, Jaime desistiu também de as combater. Finalmente convencera-se de que nunca iria saber o que aconteceu à sua mãe e baixou o braço deixando por fim o homem abrir o resto do portão para a equipa iniciar os trabalhos de demolição.

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