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Quarto de hotel

Onde eu tento dormir, já tantos outros dormiram antes!

É mesmo assim, tento dormir num hotel frio e distante. O hotel é sempre um lugar inconstante. Esta cama, onde estou, já pertenceu [temporariamente] a outros e, no entanto, sinto-me aqui tão sozinha que até dói o coração. Tanta gente já por aqui passou e este continua a ser um quarto repleto de solidão.

Tento dormir sobre o colchão onde já alguém sonhou sonhos que nunca serão meus. Sonhos que nunca partilharemos, porque a vida nunca permitirá que nos venhamos a conhecer. Talvez aqui, fiquem migalhas de sentimentos meus que não irão servir noutra alma que por aqui venha a passar. Quem sabe se nas minhas roupas não irei levar gotas do perfume de quem aqui já dormiu e que não se irão misturar com o meu odor porque os nossos corpos não dividiram o mesmo espaço.

No silêncio desta solidão, em que tento adormecer, julgo escutar o ruído da respiração de um qualquer coração que eu não conheço, mas que também já aqui libertou as suas mágoas e desabafou com o silêncio destas paredes as muitas voltas que a sua vida deu e quem sabe até pediu conselhos sobre como encontrar a saída para o túnel negro em que viajava.

Quando aqui cheguei cansada e exausta de uma viagem que me castigou o corpo, lavei o meu rosto num lavabo que tem marcas de outras mãos, que nunca saberão escrever a poesia da minha vida. Outras mãos que escrevem em diários escondidos histórias dos amores que o mundo não pode conhecer, ou então, gritam as suas dores, aquelas que ninguém sabe curar. O mármore deste móvel está marcado com as impressões digitais dos dedos de quem tocou em corpos que não conhecia, ou quem sabe, os dedos de quem corre pelo mundo fugindo de uma sina que diz não ser a sua.

Neste quarto já dormiram corpos em que o amor não existia. Corpos que ainda não conheceram o amor. E agora, eu deito o meu corpo sobre este colchão, onde um qualquer desconhecido do mundo já deixou a sua sujidade.

Que lugar é este?

Um espaço tão exíguo onde já tantos passaram e onde mesmo assim não existe calor humano. As cortinas são escuras para esconder o sol, deixam passar o frio dos sentimentos. A porta de madeira envelhecida, tenta encobrir o que não conseguimos sentir.

Nesta casa, que não nos pertence, precisamos descansar o corpo fisicamente exausto, pelo número de quilómetros que contabilizou numa viagem louca. Na casa de banho há um espelho que não nos mostra a alma, mas somente o rosto fatigado. Ao fundo consigo vislumbrar as sombras dos outros que por aqui passaram.

Este é um lugar sem vida, vazio de todos os que por aqui passaram e que deixaram pequenas marcas suas nas paredes e no chão que pisaram. Pequenas marcas que o tempo sopra para longe.

É neste lugar onde o meu sono não chega para me acalmar, que a minha mente procura razões para não afastar a insónia que resolveu deitar-se a meu lado para não me deixar dormir.

Angela Caboz

Olá sou a Ângela, nasci no Algarve (Tavira) em 1966 e desde cedo que me apaixonei pelo mundo das palavras. Sou técnica administrativa e aprendiz de escritora nas horas livres. Escrevo o que a Alma me dita e vivo o que coração me pede ... é assim que as palavras se soltam para colorir as páginas da vida!

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