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Eu, amaxofóbica

Estou sentada em frente ao computador. Não se ouve mais do que o rugir dos motores e o latir dos cães. E talvez o som do desafio a ecoar-me na gaveta onde tranco as apreensões.

Estou em cima do deadline para a entrega de um artigo e o tema proposto empurra-me, uma vez mais, para além da linha que delimita a minha zona de conforto: o stress no trânsito. Posso desenvolver algo interessante sobre o tema? Ninguém melhor do que eu, ninguém pior do que eu.

Todo o stress que me aflige, quando me encontro parada em filas de trânsito, tem ligação direta à visão do incauto condutor que se entretém a limpar as secreções nasais com a ajuda de um dedo. Não tenho nada contra, cada um entretém-se com o que pode, mas não é, de todo, uma visão agradável.

Chega de “deitar conversa fora”. Apraz-me deturpar um pouco a ideia deste artigo e direcioná-lo para um outro tipo de stress no trânsito: o medo de conduzir. Corrijo, neste artigo o tema foi amplamente deturpado na essência  porque não vou falar de stress, mas de pânico. É sobre isto que posso escrever. Assumo, publicamente, e com o mesmo desconforto que sentiria se estivesse neste momento a limpar o nariz com toda a audiência focada em mim, que eu sofro de amaxofobia.

Admitindo que, sentar-me ao volante de um carro (parado) é um ato heróico pelo choque adrenérgico a que sujeito o corpo, resta-me admirar, sem parcimónia, todos os que se mantêm calmos enquanto conduzem e lêem o jornal. Venero os meus pares capazes de focar a atenção em semáforos, peões e técnicas de condução, sincronicamente. Ressalvo que tenho a mesma capacidade de ser polivalente enquanto faço o jantar. Cada um é para o que nasce.

Eu podia ser o condutor que vos provoca stress porque não fez pisca. É que só me consigo concentrar ou nos pedais ou no pisca. Lamento. Eu podia ser o condutor que arranca em segunda. Sei a teoria, claro, sou encartada. O que deixa o carro ir abaixo no semáforo, o que pára em terceira ou quarta fila (vulgo, no meio da estrada). Eu sou o condutor que, entrando em pânico, provoca stress e, por esse motivo, se limita a desenvolver outras vocações. Neste preciso momento poderia estar a conduzir, mas prefiro escrever sobre a minha incapacidade para realizar tão exigente tarefa.

Apesar de reconhecer que a aceitação desta fobia é um ato de altruísmo para com a integridade física e mental de outros condutores, dias houve em que insisti e me inscrevi em aulas de condução. Bem analisadas as coisas, tirei a carta com distinção. As aulas extra serviriam apenas para uma de duas coisas: confirmar a minha incapacidade para conduzir ou confirmar que não passo de uma mulher-galinha. E o instrutor que “agarrou” em mim confirmou que não passo de uma mulher-galinha porque na minha condução não existe qualquer mácula que vos possa levar a temer pela vossa e, se forem simpáticos, pela minha vida.

Então, o que é a amaxofobia? É a fobia de conduzir que, como qualquer outra fobia, provoca um medo intenso, ou pânico se preferirem, quando o indivíduo enfrenta o volante. A adrenalina dispara, a respiração torna-se rápida e superficial, o coração acelera, o corpo treme e o discernimento é severamente ameaçado. Quase como se víssemos o objeto da nossa paixão, mas ele tivesse na mão uma marreta para nos “acariciar o lombo”. Recorri ao Google, li e reli artigos, dicas e outros relatos. Sem resultados.

Não raramente o amaxofóbico tende a aligeirar o tema dizendo que “não gosta de conduzir”. É que, mesmo aligeirando, é mais do que certo obter uma resposta como “porquê? Toda a gente conduz”. Não, não é verdade. Todos conhecemos amaxofóbicos e, no entanto, continuam a ser tão peculiares como alguém que tem dois dedões no pé esquerdo. São comuns, mas serão sempre incompreendidos e poucas vezes assumirão o que realmente os arreda do volante. No entanto, não há motivos para ter vergonha caros comparsas, pelo contrário. Quem sofre deste tipo de fobia tem tendencialmente uma personalidade ansiosa e traços de personalidade bastante característicos: perfeccionismo, elevada empatia e sensibilidade. Portanto amigos, não se gabem, mas também não se escondam.

Li, na verdade, teorias interessantes que relacionam o medo de conduzir automóveis com o medo de conduzir a própria vida, sendo que o automóvel seria – aplicando uma analogia simplista – a vida e o condutor seria o responsável por ela. Como tentei explicar muitas vezes aos que me são próximos, quando me sento no lugar do condutor e coloco o carro em marcha sou invadida pela sensação de que é o automóvel que me controla e não o contrário. Isto facilmente confirma que a minha amaxofobia tem uma forte componente emocional.

Embora o tema que me foi proposto tenha sido descaradamente desviado em proveito próprio, considerem que ele tem propósitos muito válidos, a saber:

  1. Sejam tolerantes na estrada: à vossa frente pode estar um condutor a sofrer um ataque de pânico.
  2. Quando estiverem stressados porque outro condutor teve uma atitude menos civilizada, lembrem-se: podiam sofrer de amaxofobia e estarem enlatados no metro a cheirar sovacos.
  3. Enriqueceram o vosso vocabulário com a palavra amaxofobia e até sabem o que significa.
  4. Se sofrem dela, ficaram a saber que não estão sozinhos. Saiam do armário! A partilha é motivadora.
  5. Se houver por aí algum psicólogo ou instrutor de condução especializado envie mensagem privada, por favor.

Como ajudar alguém que sofre de amaxofobia? Ofereçam boleia quando assim se justificar. Não olhem para alguém que vos confidencia não gostar de conduzir, que é usualmente a terminologia usada, como se fosse uma espécie rara de louco. Somos iguais, mas diferentes nas nossas singularidades emocionais mesmo quando sofremos das mesmas fobias. Em abono da verdade, o amaxofóbico organiza as suas rotinas dispensando uma atividade irrelevante e não prejudica ninguém. Existem amigos, cônjuges, táxis e transportes públicos. E existem também psicólogos, se assim for necessário.

E vocês, quais são as vossas fobias?

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

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