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Crónicas

Dores coloridas

Há dores que não se conseguem consertar por mais que se tente. Apesar de existirem químicos potentes, aqueles que até podem fazer ver unicórnios azuis e cor-de-rosa, as ditas ficam tão profundas que não querem mesmo sair. Aliviam em modo temporário, mas regressam ainda mais fortes, imbuídas de raiva e amargura. Colam-se a memórias que são bastiões de glórias passadas e tentadoras. Não é verdade que morram, pois são arrebatadas por momentos que as palavras despoletam.

A vida continua no seu ritmo normal ou num outro que se tenha encontrado, mas elas espreitam a cada esquina, em cada local onde, matreiras, estão camufladas de simpatia e luz. São penumbras dolorosas que picam como agulhas de máquinas avariadas com bicos rombos e infectados de doenças invisíveis. Que se faz para colmatar estas manhosas e falsas amigas? Usam-se cores e sons, sorrisos e alegrias, forças e abraços como se o amanhã fosse o hoje e a perfeição existisse a cada momento.

Outras vezes, as dores regressam com tons suaves, como se fossem músicas que se ouvem com satisfação. Usam pautas de sonhos, de melancolias doces onde o agradável se imprime com risos e alegrias e não com marcas de tristeza e de desolação. São as memórias que afloram para dar paz e alguma quebra nos choros que se acumulam em vias estreitas e escuras, dentro de cada um. Passam a ter o nome de memórias e levam a lugares que não podem ser regressados, mas onde os abraços ainda podem ser dados.

Algumas são tão poderosas e fortes que até conseguem fazer sorrir, mas outras são como punhais que ferram as suas lâminas em momentos de perpétua dor. Por mais que se tentem afastar, elas persistem e insistem para relembrar que nada pode ficar esquecido. É inevitável que se soltem as lágrimas e umas serão de alegria, por tudo ter um dia acontecido e outras, ai, estas outras, são de tanto lamento que até faz dó só de pensar.

Por isso, os fortes são vistos como pedras ou estátuas e não como seres que também sofrem, que choram interiormente e que se perdem em si. Como se dão e se estendem a outrem acabam por se esquecer de si e fecham-se em conchas que endurecem em calcários milenares e místicos que só alguns conseguem vislumbrar. E não há tatuagem alguma que devolva aquilo que foi roubado sem dó nem piedade.

O que há a fazer? Seguir em frente, como se tudo fosse novo e nada de perigoso pudesse existir. Viver é um risco acrescido, um mantra que é perpétuo, uma vontade indómita de continuar, um prazer que não tem fim. Se não fossem as delícias dos imprevistos, as duras e tolas aventuras do dia-a-dia, a existência seria muito monótona. A cor ameniza, suaviza e até encontra poesia, onde a dor quis ter um lugar cativo para se instalar.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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