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Contos

As Cores do Tempo

Ao espelho, ajeitou as papoilas que lhe cresciam entre os cabelos. Roçou a polpa dos dedos nas pétalas que pareciam papel. Eram como livros, pensou, como contos novos que nasciam de uma cabeça que tinha parecido tantas vezes um emaranhado de gatafunhos sem nexo.

Quando chegou ao jardim, viu-o ao longe sentado na relva. Conhecia-o bem. Tinha-o visto murchar até se tornar só um vaso partido, escuro e vazio.

“Gosto dessas flores novas que trazes em ti”, disse-lhe quando a viu.

Ela sentou-se ao lado dele e abraçou-o como resposta.

Depois, encostou a cabeça dele ao seu peito. Calçou as luvas para não se ferir nos espinhos. Com dois dedos, afastou os sulcos do cérebro dele e apalpou. Sim, ainda estava fértil. Tinha algumas dores plantadas, duras, silvestres – daquelas que não floresciam em coragem, que só se enraizavam em sofrimento. Cortou-as com a tesoura de podar. Puxou-as com cuidado e tomou nota mentalmente para não se esquecer de as lavar com água do mar e de as queimar. Só assim se cauterizavam as dores daninhas.

Tacteou entre as memórias e as ideias até sentir o choque da sinapse que procurava. Sorriu. Era ali mesmo. Tirou da urna as cinzas do homem que ele amara e espalhou-as. Aconchegou os neurónios naquele adubo que estava cheio do bater de um coração. No meio, plantou uma semente de tempo. Dava as flores mais bonitas e mais coloridas, aquela semente, porque se podia tornar qualquer coisa. Acariciou a terra com cuidado para a alisar e soube que tinha sido bem-sucedida quando sentiu o peito molhado.

Deitou a cabeça dele nas suas pernas. Deixou-o dormir para que os olhos secassem e o tempo crescesse. Observou as pessoas que passavam por eles, algumas com azedas à volta das orelhas, outras com mãos feitas de orquídeas ou com a cabeça coroada de cactos. Viu um rapaz a colher as rosas que lhe cresciam no peito para as oferecer a alguém que era feito de deserto.

Voltou a tocar nas suas papoilas, distraidamente. Olhou para o seu amigo. Quando ele acordasse, teriam de começar a regar o tempo com boas músicas e um bom vinho – isto ajudava sempre a começar a sarar. Mas não havia pressa. Para já, bastava esperar.

 

Nota: a imagem de destaque é uma ilustração feita por Luís Eusébio e todos os direitos de autor estão a ele reservados.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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