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Mujica, a apologia da vida simples

Há países, como pessoas ou ideias, pelos quais nutrimos um fascínio misterioso. Assim, logo que ouvimos algo acerca dessas culturas, despertamos através de um impulso que a razão não explica. Sempre me deslumbrou, sem aparente motivo, a República Checa durante a adolescência, a Índia enquanto criança e já mais tarde a curiosidade aguçou-se sempre que encontrava algo sobre a sombria Coreia do Norte. Fui investigando aqui e ali alguns motivos para aprofundar o romance por determinadas latitudes e aproximar-me de umas, enquanto me desiludia com outras. Uma dessas paixões ficou tatuada na minha pele, o Uruguai. O pequeno país do mate, localizado na Costa Este ganhou lugar de destaque neste misterioso ranking pessoal, quando me confrontei com as palavras de um velho despojado de qualquer arrogância ou artefactos materiais. Pois é, já imaginam de quem falo: esse mesmo, Pepe Mujica.

Quanto mais simples forem as respostas às perguntas intrincadas que formulamos melhor construiremos o nosso sistema de pensamento complexo. Os tais impulsos e reacções que se transformam num sistema de valores e crenças, como nos ensina Daniel Kahneman, no seu livro Pensar depressa e devagar. Um homem que chega ao poder e tenta desfazer-se do próprio poder, deve ser admirado por qualquer um. Alguém que, após ser eleito presidente de um país, continua a viver de forma sóbria e utiliza o seu cargo para fortalecer os mais fracos equilibrando a balança da justiça social, estará sempre do lado certo da história. Chegados a este ponto, pouco interessa se é de esquerda ou de direita, o que importa é que este Homem é um líder especial que quer mudar o mundo para o tornar num local melhor. Não deveríamos querer todos?

Um presidente de uma pequena república que nos sugere perguntar. Porque aceitamos todos os dogmas que são imputados à condição natural do Homem? Questiona a ambição desmesurada, a ganância e a hiper-produção e se esse será o caminho para a proteção do planeta que deveríamos estar a cuidar ou para a felicidade global.

Aquele que foi o presidente mais pobre do mundo é popular e não populista. Veio orgulhosamente do Sul representar o continente americano transformado desde o século XVII por europeus. Criticando o eurocentrismo e egoísmo do mundo ocidental, resultante de uma economia que serve o pior de todos nós, a ganância. O elogio à sobriedade de Pepe não se coloca contra a liberdade de ninguém, nem contra a propriedade privada. Serve como um apelo à consciência colectiva de uma sociedade capitalista naturalmente cansada, stressada e deprimida. Pior que a sociedade da pandemia e do medo, só a sociedade do cansaço.

O chefe de estado recusou viver em palácios ou mansões, preferindo a sua quinta dos animais, onde ao contrário de Napoleão de Orwell, permaneceu fiel junto aos seus e à sua cadela de três patas, Manuela. Ali desenhou formas mais justas de democracia e provou que a felicidade individual não vive da realização materialista. Esta pode encontrar-se no nosso interior e apenas pode ser concretizada através de acções que permitam diminuir a nossa dissonância cognitiva.

“Ou consegues ser feliz com pouco ou nunca conseguirás ser feliz com todo o dinheiro que exista no Mundo.”

Agnóstico dessa Igreja que desregula todos os mercados financeiros, Mujica sempre esteve preocupado com os problemas de todos. Alerta que não haverá planeta suficiente se o consumo médio actual de cada habitante dos países considerados desenvolvidos continuar a este ritmo. A cada minuto são gastos dois milhões de dólares em acções militares no nosso planeta enquanto a investigação médica não chega sequer a um quinto deste valor. A palavra modernidade chega a ganhar pó a cada palavra do ex-presidente uruguaio. Não será através da tecnologia per si, mas da sua utilização, que servirá, para conquistarmos tempo para conviver entre todos, que a sociedade se poderá modernizar. Precisamos de tempo para cuidar, amar e brincar mas o repentismo do consumo, da hiper-produção e da acumulação de capital não convivem actualmente com estas ideias.

Consideradas políticas utópicas pelo statu quo, as ideias de Mujica devem ser analisadas por todos, pois visam apenas o progresso da igualdade social e a sustentabilidade do planeta perante mudanças tão necessárias à nossa forma de viver.

Francisco Mouta Rúbio

Licenciado em Publicidade, trabalha em audiovisual e social media e está sempre rodeado por cultura, futebol e filosofia. Autor do podcast Dedo no Ar.

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