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Filho de um padrão!

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Não são os padrões que nos definem, somos nós que não nos conseguimos definir.

A ilusão de que temos tudo sob controlo, quando na verdade somos uma cassete com a fita que encravou. Parecemos um rádio que caiu ao mar e mesmo assim não consegue parar de tocar a mesma música. E mesmo a ir ao fundo, continua sintonizado na mesma rádio. E no fundo, no fundo, está tudo bem. Ou melhor, não está, mas quase de certeza que um dia irá ficar.

Procuramos explicações para cair na mesma armadilha, que muitas vezes parece ter sido armadilhada por nós mesmos. E de alguma forma, até foi. Somos seres contraditórios. Talvez porque o melhor para nós, nem sempre é o que queremos. Humanos vulgares, selvagens, domesticados, que vivem à procura de respostas. Outras vezes, vivem de certezas camufladas por medo da realidade. Sem falar que em casos sérios, a ignorância pode ser um dom.

Sempre que desistimos de algo que nos afecta, aproximamo-nos do que é certo para a nossa sobrevivência. E desde a pré-história que o nosso cérebro é treinado para sobreviver.

Da mesma forma que antigamente saíam da caverna para caçar, mesmo representasse enorme perigo. Assim somos nós. É perigoso usar comportamentos que antes foram nocivos e sentindo dor, mágoa e sentimentos que não queremos ou não sabemos explicar, a verdade é que continuamos a querer continuar a percorrer caminhos que independentemente de termos o desfecho da história à frente dos nossos olhos, não é suficiente. Precisamos de sair da caverna para caçar, morrer várias vezes se for preciso por animais selvagens, olhar pela última vez para a caverna que não vamos voltar, simplesmente porque desfiámos as probabilidades e ignorámos o nosso instinto a troco da nossa vontade.

Os padrões de comportamento são como um vício. Daqueles que ficamos em reabilitação até ao fim da nossa vida. Ser addicted em posturas ou comportamentos que nos levam a pequenas mortes. A morte de um dia nos sentirmos desprezados, arrependidos, enganados, e pior de tudo, sentirmo-nos mal connosco e com as nossas decisões. Como se a nossa pele não fosse a que gostávamos de ter, como se a nossa alma não estivesse conectada com a realidade e tudo o resto que nos afecta. Como se fossemos o Titanic, e em vez de nos tentarmos afastar do iceberg, ainda fazemos de conta de que não o estamos a ver, e até secretamente desejamos embater com ele mais depressa.

Não nos voltarmos a apaixonar por quem não se dá na mesma medida, ou o clássico “não me volto a diminuir para caber em conceitos”. Tão vulgar e cliché.

Contudo, a verdade é que todos nós somos especialistas em cair vezes sem conta nas situações que jurávamos a pés juntos nunca mais querermos na nossa vida, e quando voltamos a repetir o mesmo padrão, até voltamos com gosto. Aquele gosto de quem se convenceu de que desta vez é que será diferente. Desta vez não darei tanto de mim, desta vez vou dizer não quando tiver de dizer, desta vez nem voltamos a gritar, desta vez não volto a aceitar situações que não me acrescentam nada. São tantas as coisas que repetimos para nós mesmos no exacto momento em que percebemos que estamos prestes a repetir os mesmos erros.

São padrões de comportamento todos aqueles que nos fazem bem ou mal, e que se repetem. De avós para pais, de pais para filhos. Algo que está aos nossos olhos, ao nosso alcance de fazer diferente, e sem sabermos muito bem porquê, continuamos a insistir. Repetimos os erros dos que nos são próximos sem nos apercebermos. E quando paramos para pensar, parece uma maldição, ou algo que o valha. Como se houvesse um cordão umbilical que nos obriga a permanecer com comportamentos que vivenciámos vezes sem conta.

É difícil livrarmo-nos de padrões, principalmente quando já parecem fazer parte da herança genética. Mais difícil ainda será continuar a lutar por situações que em nada vão ser benéficas. E esta sensação de prazer imediato facilmente passa. Comportamentos iguais, não geram resultados diferentes, é o que costumam dizer.

Nós definimos os nossos padrões a partir do momento em que olhamos à nossa volta e, mesmo em pleno momento de caos, sentimos o peso das nossas escolhas. Fomos nós os grandes causadores daquele momento. E lembramo-nos precisamente, do momento fulcral para aquela história não ter um desfecho feliz. Foi o momento em que não fomos fortes o suficiente e demos de bandeja o nosso poder. O poder de dizer que não, o poder de mudar de rua, o poder de não voltar para o mesmo local, o poder de não responder à mensagem, o poder de não permitir mais nenhum tipo de abuso. O poder de dizer basta a algo que não combina com a nossa ideia de felicidade.

No entanto, se a quebra de padrões fosse algo fácil este texto não faria qualquer sentido.

Todos temos de concordar que em algum momento da nossa vida nos deixámos levar, outras vezes, decidimos escolher a mentira fácil e rápida, em vez de nos debruçarmos e colocarmos o travão que provocará dor e ausência a curto prazo. Mas que surtirá o efeito desejado,

Os padrões de comportamento estão arrumados em caixas numa dispensa qualquer perto de nós. Temos tendência a usar e abusar deles. Acessíveis, fáceis, facilmente desculpáveis e perdoáveis. Como se não fossemos suficientes ou capazes de escrever as últimas linhas de uma história que envolve tortura. Daquela que deixa mazelas, porque os piores críticos da nossa vida, somos nós. Uma metamorfose constante, com episódios repetidos.

E assim que nos der vontade de entrar em cena, respirem fundo.

Desçam a cortina, e decidam aas vossas falas. Não é quando toda a sala de espéculos nos faz uma ovação de pé, que nos devemos esquecer que a qualquer momento podemos ter de voltar a entrar pela porta dos fundos.

Os padrões de comportamento são como uma traição entre nós mesmos. Resta-nos entender até quando é que estaremos dispostos a perdoar.

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