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Fuga à Meia-Noite

Ainda que pouco possamos fazer contra o avanço desenfreado da máquina do mundo, tenho pena que um certo olhar sobre a vida e a arte se esteja a perder (se é que não se tenha já perdido). É verdade que, entretanto, outros olhares ou abordagens nasceram, mas não substituem aquela forma de escrever, tocar, filmar ou pintar, jogar futebol ou argumentar num debate, apresentar um concurso televisivo ou um noticiário, namorar ou ser, ser amigo, filho, irmão, colega.

É fácil confundir o parágrafo anterior com uma visão nostálgica do mundo, mas ela vai mais longe: traduz a luta interior, entre evoluirmos (o melhor presente que recebemos por estarmos vivos) e lançarmos a âncora da essência imutável, a que nos agarrarmos (o outro melhor presente da vida). Mais do que desejarmos ficar lá atrás ou replicar as sensações com que em tempos renascemos, tenho pena de não ter conseguido manter a alegre convivência entre quem fui e quem sou.

Fuga à Meia-Noite, o filme de Martin Brest realizado em 1988, com Robert de Niro e Charles Grodin, talvez dê vontade de rir na sequência desta introdução, mas é um filme que ilustra uma época da minha vida e um jeito mais ingénuo de fazer cinema. Era mais uma daquelas obras cuja fita da cassete tratava por tu o videogravador lá de casa, de tantas vezes o vimos, umas em família, outras, sozinho. O género talvez congregue os dois mais difíceis: acção e comédia.

É muito fácil fazer um filme de acção, como é muito fácil fazer uma comédia ou um bom drama. Já filmar uma boa comédia ou uma boa história de acção é o mais difícil. Fuga à Meia-Noite atinge a proeza de conjugar ambos e aguentar-se neles ao longo de quase duas horas, sem grandes efeitos especiais. O que o segura é uma história bem contada, uma realização firme (Martin Brest já havia feito O Caça-Polícias e realizaria Perfume de Mulher) e uma química imbatível entre os dois protagonistas, um caçador de prémios e um contabilista da máfia perseguido pelos mafiosos (de quem desviou dinheiro), por outro caçador de prémios e pelo FBI.

Nota: Desde a adolescência que não voltei ao filme, pelo que pode dar-se o caso que aconteceu com tantas outras obras desse tempo… vê-las sob as lentes do presente pode destruí-las (veja-se o MacGyver) de tão datadas que se fizeram. Sei que voltarei a ele, nem que seja para tirar a prova de que este filme sobreviveu ao estado vegetativo em que o cinema hoje se encontra. Mas também para recordar que, à semelhança de O Caça-Policias (do mesmo realizador), Regresso ao Futuro ou Arma Mortífera, (ou até da trilogia originial de Indiana Jones), houve uma década em que do cinema de acção era possível extrair grandes momentos de comédia ligeira sem tornar os filmes apatetados. 

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