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Economia

A vacina de combate às diferenças socioeconómicas

Em março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) previu a crise pandémica como a maior crise da História Contemporânea, previsivelmente pior do que a recessão de 2008. Sendo que esta última já teve contornos bastante marcantes, espera-se uma ainda mais marcante. As consequências a nível económico marcaram uma década. A uma crise já existente soma-se uma nova. Como o fez a anterior, a atual situação crítica mexe com o fosso entre os diferentes grupos socioeconómicos. Se este já era grande, agora, está a crescer mais.

Para que realidades apontam as instituições de âmbito mundial? A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou, no mês passado, que quase 900 milhões em todo o mundo podem vir a passar fome em 2020. Numa das regiões mais pobres do mundo, a África subsariana, espera-se um agravamento da pobreza extrema, bem como o primeiro aumento dos níveis de pobreza mundial desde 1998, de acordo com previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). O mesmo indicador é apontado pela ONU, para o planeta, com números a atingir os 150 milhões.

Particularmente em Portugal, tem-se assistido ao agravamento das condições laborais e do desemprego. Voltando a território nacional, agravam-se as condições de trabalho e o desemprego. Por um lado, não pela perda, mas pelo corte nos rendimentos, na sequência do regime de lay-off, a que muitas pessoas ficaram sujeitas, ainda que isto vá a ser brevemente revertido. Por outro lado, contraria-se a tendência de descida do número de pessoas desempregadas dos últimos anos, com uma previsão da Comissão Europeia a alertar para os 8% no país. Seguindo o paralelismo da crise da última década, a verificar-se a tendência, a “classe média” será afetada, mas não mais que as pessoas mais socioeconomicamente desfavorecidas. Deste modo, as assimetrias socioeconómicas também se maximizam. Apesar de tudo, a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, já veio anunciar um novo aumento salarial na função pública.

No entanto, porque não se insere apenas na função pública a população ativa portuguesa, além do desemprego já visto, os impactos na economia são claros. A previsão do agravamento do défice nacional é já quase uma certeza. O consumo reduz, pois também se vê minimizado o poder de compra, também motivado pelas recomendações para a permanência nas residências, tirando as pessoas da rua, logo, dos demais estabelecimentos. É aqui que se vê logo o impacto na restauração, por exemplo, que já gerou vários protestos, tendo já levado o Governo a anunciar uma suavização da carga fiscal destes estabelecimentos. Independentemente do que se possa achar desta resposta, isto mostra uma atuação rápida, revelando a gravidade da situação do setor.

Até aqui, abordou-se quem saiu a perder com a pandemia. No entanto, há quem saia a ganhar com ela. De acordo com um estudo levado a cabo pelo banco de investimento Mediobanca, citado pelo ‘Diário de Notícias’, a Internet, o retalho e a tecnologia foram as áreas que mais venderam e lucraram nos primeiros nove meses do presente ano. Daqui, parte-se para dois casos em relação a fortunas individuais.

O caso da Amazon é logo um que salta à vista: Jeff Bezzos, o respetivo responsável máximo, que enriqueceu ao longo deste período pandémico, é, no momento de escrita deste artigo, o detentor da maior fortuna a nível mundial. O ‘Observador’ dá conta de que a sua fortuna pagaria quase na totalidade a ajuda financeira da União Europeia aos Estados-membros. Elon Musk, dono da Tesla, tem apresentado um aumento substancial, quase ao nível de Bill Gates, da Microsoft. Estes dois casos têm algo em comum a exibir: a acumulação da riqueza multimilionária continua a acontecer. Fortunas individuais crescem, portanto, este ano, apesar de uma crise pandémica com efeitos ao nível da Economia transversais a todo o mundo.

O enriquecimento discutido nos últimos dois parágrafos contrasta com o empobrecimento discutido nos anteriores. Estes extremos geram um espetro que cresce cada vez mais. Veja-se como, no mesmo planeta, se projeta um maior número de pessoas pobres e, ao mesmo tempo, um maior peso de certas riquezas pessoais. O que fazer para equilibrar o panorama socioeconómico quer nacional quer internacional? Fica a questão em aberto para potenciais debates, com a certeza de que a vacina de combate à COVID-19 está prestes a ser distribuída, mas a distribuição da vacina de combate às diferenças socioeconómicas parece ainda estar muito retraída.

Pedro Ribeiro

Vimaranense, 24 anos e recetivo a desafios, ocupo a maior parte do meu tempo em torno das áreas dos Média e da Comunicação. Sou estudante de doutoramento em Ciências da Comunicação e procuro oferecer a minha perspetiva da forma mais íntegra possível. Numa sociedade de pouco sentido crítico e muito moralismo, procuro trazer debate com conhecimento, procurando perceber e aprender mais. Não fosse isso um motor para a vida, o conhecimento. Já escreve Nietzsche, na sua obra 'Assim Falava Zaratustra': 'O Homem só existe para ser superado.'

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