fbpx
ContosCultura

Coração nas mãos

De repente, sou um aleijado numa cadeira de rodas, ora prisão, ora única salvação, sentado em frente a uma parede cinzenta, desfeita, destruída apesar de ainda erguida. Uma óptima metáfora de mim mesmo, se querem saber. Sou, ao mesmo tempo, este homem e esta parede, esta cadeira e estas pernas inúteis. Sou o ser acabado e com inúmeras possibilidades. Se me perguntassem, o meu único sonho sempre foi ser paradoxal. Porque, percebam, as possibilidades são infinitas.

Um dia, era apenas o homem igual aos outros todos, o emprego, o carro, a casa, os filhos que nem sempre quis ter, a mulher que calhou ser esta mas que podia ter sido outra qualquer, tanto faz, desde que me faça companhia e me alivie uma ou outra tensão, ao mesmo tempo que me cria tensões anexas. Tudo bem. É a vida moderna e esta normalidade vazia é o preço a pagar. Afinal de contas, eu nunca tive ambições desmesuradas. Ou achei que não.

Ocupei-me para que não me sobrasse tempo para pensar. Não queria voltar aos sonhos de miúdo, a antecipação dos estádios cheios que iriam erguer-se a cada golo que eu marcasse, as parangonas nos jornais, David Alcobia já é o melhor goleador de sempre!, Pelé a ser apenas o meu antecessor cujo record bati e o mundo rendido ao talento que carrego nos pés.

A faculdade feita entre noites inteiras a estudar, as bebedeiras espaçadas, semanas académicas apenas se o ano já estivesse assegurado, quadros de honra sempre, todos os possíveis, mais bolsas de estudo e prémios em barda. Mulheres poucas, muito poucas, para que não me distraísse, o foco é mais além, não quis perder-me em vaginas mais ou menos fáceis de usar. O meu caminho é sozinho, a meta é para cruzar a solo, depois logo penso em companhias, se o dinheiro já não me bastar.

Os meus pais orgulhosos, filho pródigo que ninguém antecipou, afinal a paixão sempre foi a bola e jogador nenhum é conhecido por ser uma mente brilhante, valham-lhes os agentes que os sabem vender e que lhes fazem nascer milhões nas contas bancárias como cogumelos em florestas húmidas.

Benção das fitas, senhor doutor, quem diria que o puto de chuteiras rotas, bola sempre colada aos pés, afinal se fazia médico, cardiologista em potência, venha de lá o Harrison que estamos cá para ele. Não estivemos. Voltamos a tentar. A ambição são peitos abertos e corações à espera dentro de tinas de metal, antes de serem postos no sítio certo, transplantes bem-sucedidos, cardiopatias resolvidas no bloco operatório, horas e horas e horas de estudo, cafeína a correr nas veias, poucas horas de sono e muitas sinapses em simultâneo.

Um dia era apenas o médico, director de serviço no hospital, uma extensa lista de vidas salvas, famílias inteiras em agradecimentos profundos, duas dúzias de miúdos batizados em honra do médico que lhes salvou os pais, és David porque esse era o nome do doutor que não deixou o teu pai morrer, devias chamar David ao teu filho também, e o carro a fugir-lhe das mãos, o barulho do traço a avisá-lo do rail, o sono a ser mais pesado, o peso todo do corpo em cima do pé direito, os olhos fechados e o sono de anos infinitos a abater-se agora, neste preciso instante.

E depois a cadeira de rodas, Alcoitão, os médicos, colegas de faculdade, ortopedistas e psiquiatras no coração da equipa médica, coitado do doutor Alcobia, tão novo, um prodígio, que azar o nosso que ficámos sem o melhor cardiologista que Portugal já viu.

Estou preso a esta cadeira e, ao mesmo tempo, ela é a minha única hipótese. Sem ela, sou uma massa de carne deitada numa cama, uma história inacabada, nenhum sonho concretizado. Nem a bola nos pés, nem o coração nas mãos. Quão falho pode um homem ser?

Lénia Rufino

Escreve porque não sabe fazer mais nada. Mentira. Sabe, mas não gosta tanto. Criadora compulsiva de personagens com distúrbios psicológicos graves e dona de um fascínio absurdo por mentes conturbadas.

28 Comentários

  1. Que fantástico! Dá vontade de pedir mais, que não seja só um short story. Que seja muito mais.
    A intensidade da sua escrita é a melhor que já vi em muitos anos. Eloquente mas terra a terra. Voltemos à intensidade; que maravilha! Tanta emoção e tanta vida em meia dúzia de parágrafos! Num instante conhecemos a personagem, apaixonamo-nos e sentimos o nó na garganta. O vazio no peito e o aperto na alma. E o final?! Que magia. “Nem a bola nos pés nem o coração nas mãos”.
    Parabéns! Precisamos muito de novo sangue na escrita Portuguesa. E a Lénia é fantástica. Que venham muitos mais escritos dos seus dedos.

  2. Muito bom! O tanto que havia para este David fazer e viver. Fico sempre encantada com o modo como consegues criar personagens que são tão realistas que nos conectamos a elas de forma imediata. Os grandes perfumes vêm em frascos pequenos e com este (micro)conto tu provas que as grandes histórias também. Parabéns Lénia!

  3. Muito bom Lenia!
    Tão bom que parece que estava ali, a olhar para aquelas paredes. Vou ali respirar fundo…

  4. Um pequeno texto mas com tanto tanto conteúdo. Ao longo da história a minha mente foi viajando entre pessoas que conheço (incluindo eu mesma) e que são todas um pouco do David. E quando nos identificamos e sentimos que o texto foi escrito sobre nós e sobre os nossos aí sim sabemos que estamos perante uma grande escritora! Muitos parabéns!

  5. Tão bom Lénia, simples e cativante como se me transportasse e estive ali ao lado dele a ouvir a sua história de vida. Até parece que lhe ouvi a voz! 🤩🙌 Parabéns, venha mais escrita Miúda Gira 😉😘

  6. E que bom ler-te aqui! Crua, intensa, a destilar realidade. A aguardar o próximo conto, o livro, o que vier. Obrigada

  7. esta é a escrita que eu gosto: intensa, cheia, tanta coisa em tão poucas palavras. no caso, uma vida inteira e um homem que ficámos a conhecer tão bem. precisamos desta escrita e destes escritores.

  8. esta é a escrita que eu gosto: intensa, cheia, tanta coisa em tão poucas palavras. no caso, uma vida inteira e um homem que ficámos a conhecer tão bem. precisamos desta escrita e destes escritores.

  9. Adorei… Apetece saber mais e mais sobre esta personagem! Agarra-nos logo a sua história! Parabéns!!! Ansiosa pelos próximos!

  10. Quando um conto nos dá vontade de puxar uma cadeira, sentar, olhar nos olhos duma personagem e querer saber tudo até ao fundo da alma dela… Sabemos que lemos algo muito bom!
    Ainda tenho um espaço à espera na estante.
    Parabéns, grande miúda!

  11. Muito bom Lénia!
    Adorei a cadência. Uma história crua, uma vida toda em “meia dúzia” de parágrafos e a vontade de te ler mais e mais!
    Parabéns!
    andreial77

  12. Muito bom, Lénia. Uma pessoa quer ler o resto, quer saber o que vai acontecer depois porque queremos sempre finais felizes. Mas está perfeito assim. E tão bem escrito que dói.

  13. Muito bom Lénia! Por um segundo, uma tal tristeza invadiu-me pelo retrato de tanta gente que hoje vive em paixão, ou mesmo apenas por viver…ou por uma glória qualquer, mas desumanizada. E, subitamente…um outro lado do mundo…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.
%d bloggers like this: