O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin completou 102 anos no dia 8 de julho deste ano. Um dos mais importantes pensadores da atualidade brinda-nos com o seu pensamento complexo. A fórmula mágica ou, pelo menos, o contributo fundamental para a forma como devemos encarar os desafios do século XXI em termos socioeconómicos.
Uma das ideias fundamentais do pensamento de Morin é a da emergência. A emergência é o fenómeno em que um sistema complexo apresenta propriedades que não se encontram nos seus elementos individuais. Por exemplo, uma colmeia de abelhas é um sistema complexo que apresenta propriedades que não se encontram nas abelhas individuais, como a capacidade de organização e cooperação.
Outra ideia fundamental do pensamento complexo de Morin é a da auto-organização. A auto-organização é a forma em que um sistema complexo é capaz de se organizar e adaptar a mudanças no seu ambiente. Por exemplo, um ecossistema é um sistema complexo que é capaz de se auto-organizar para manter o equilíbrio.
Onde reside a grande originalidade do pensamento complexo de Morin?
O pensamento complexo de Morin é original pela sua capacidade de integrar diferentes disciplinas e saberes. Monsieur Edgar defende que a interdisciplinaridade é essencial para compreender a complexidade do mundo. A sua obra é uma contribuição importante para a construção de uma nova visão para o século XXI. Ela é particularmente relevante no contexto atual, em que o mundo se torna cada vez mais globalizado e interligado.
A complexidade dos problemas que enfrentamos, como a crise climática, a desigualdade social, o pós-pandemia de COVID-19, exigem uma abordagem interdisciplinar e original que contribuam para a construção de um mundo mais sustentável e justo. Em que devemos pensar de forma solidária, questionar as simplificações e generalizações. O autor critica o pensamento comum por ser fragmentado pois trata as diferentes disciplinas de forma isolada, sem considerar as suas interligações. O pensamento comum tende a considerar que a realidade é uma sucessão de eventos que ocorrem de forma linear. Esta linearidade pode levar a uma visão estática da realidade, que não considera a sua natureza dinâmica e complexa.
Em Mudemos de Via (editado em 2022), Edgar Morin deixa-nos um apelo para uma mudança de paradigma que nos facilite a resolução dos desafios que o século XXI nos apresenta.
O autor apresenta uma série de propostas para a mudança de paradigma defendendo a necessidade de uma Educação para a complexidade; deve ensinar-se as pessoas a pensar de forma complexa, a compreender a interdependência entre os diferentes elementos da realidade. Defende igualmente a Transdisciplinaridade; faz sentido que as disciplinas trabalhem em conjunto para compreender as questões e a Não-linearidade; os problemas complexos devem ser abordados de forma não-linear, considerando a sua natureza dinâmica e imprevisível.
Ainda assim, o autor é alvo de algumas reservas. Uma das críticas a esta teoria é a sua falta de especificidade. Morin apresenta uma visão geral do pensamento complexo, alegam, mas não fornece muitos exemplos concretos de como o pensamento complexo se pode aplicar para resolver problemas específicos.
A verdade é que, se soubermos particularizar a teoria, ela ajusta-se como uma luva ao contexto atual.
Quando as economias globais enfrentam desafios significativos num mundo pós-pandemia, a teoria da complexidade de Edgar Morin oferece uma perspectiva valiosa para entender e abordar as complexas interações que moldam o contexto económico. A subida das taxas de juro e da inflação são indicadores críticos dessas dinâmicas. É fundamental adotar uma visão sistémica das condições atuais. As economias não podem ser analisadas de maneira isolada; em vez disso, devemos reconhecer as interconexões globais que permeiam o sistema socioeconómico.
A pandemia de COVID-19 foi um grande exemplo de como eventos num canto do mundo desencadeiam acontecimentos em cadeia em todo o sistema do lado oposto do Globo. As interconexões entre os países sublinham como é limitada a autonomia de cada um deles para dar respostas a crises económicas porque funcionam em rede permanente. Se é verdade que as autoridades económicas podem ajustar as taxas de juro e implementar políticas para controlar a inflação a nível nacional, elas são dependentes de fatores externos como a volatilidade dos mercados globais e a disseminação de informações instantâneas que afetam as decisões dos investidores e consumidores. Ou em jeito de metáfora, como o bater de asas de uma borboleta na China provoca um tufão do outro lado do Mundo.
Em contexto de pós-pandemia, o diálogo e a constante adaptação são cruciais. As decisões económicas devem considerar uma variedade de perspectivas, desde a estabilidade financeira até as preocupações sociais e a sustentabilidade. A colaboração entre economistas, governos, instituições financeiras e sociedade civil são essenciais para desenvolver estratégias eficazes. O autor lembra-nos também da importância da ética na tomada de decisões económicas; é crucial que se considere o bem-estar a longo prazo das sociedades e que se evitem soluções de curto prazo que possam comprometer a estabilidade económica e social.
Ainda estamos a tempo.