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Tempero

Diz, quem sabe, que comida é metáfora da vida. Que na vida se utilizam os temperos em perfeita alquimia tal qual como na cozinha.

Bem sei que a vida não é perfeita. Quando cozinhamos também não. Mas quem gosta de cozinhar sabe que se tentam misturar todos os ingredientes na mais requintada ordem, principalmente quando cozinhamos longe de tarefas obrigatórias ou do tempo corrido e auto imposto.

Nem todos gostamos dos mesmos temperos. Gostos não se discutem mas ninguém nega que a salsa, muitas vezes renegada, serve para refrescar o sabor que a pimenta exalta.

Muitas vezes refugio-me na cozinha. Em alturas de stress ou de forçada organização mental, é nos tachos e nos temperos que encontro uma certa paz, uma definida ordem. Aí me perco em cheiros apurados, em sabores que ainda estão por definir, nos sons de algo que está prestes a ser saboreado. Apuro-me na cozinha na esperança de me relembrar que tenho o mesmo poder na realidade.

Na parede um pequeno móvel com temperos são instrumentos artísticos. O sal dá alegria e paladar, o gengibre ajuda na saúde e aguça a língua, os tomilhos não se requerem para tudo mas na dose certa ajudam a temperar um bom assado no forno.

Enquanto isso crepita o refogado na panela, lembro-me que os coentros dão um toque final elevados a estatuto de aromaterapia mas tenho de cuidar, nem todos gostam. Têm personalidade forte, ou se adoram ou se odeiam.

Verdadeiro exercício de meditação, cozinhar se transforma em reencontro comigo, em doação aos outros, em bênção de vida.

Para que tudo o que utilizo na cozinha pudesse chegar até mim, houve quem amassasse o confortante pão em altas horas da madrugada, quem colhesse as doces laranjas em agrestes chuvas no campo, quem me trouxesse o gás às costas para que tivesse lume em casa. Tanto para que aqui esteja esperançosa de mínimos resultados finais.

Enquanto cozinho penso: esquecemos tanto de agradecer. Os dados são garantidos, fazem parte dos dias corridos, nem nos lembramos que sem a vida dos outros nem os teríamos. Precisamos uns dos outros e nem reconhecemos. Não nos vemos.

Temperada assim se quer a vida. Todos os temperos são necessários na dose certa e utilizados conforme o que se cozinha.

Por fim, na mesa, temos missão cumprida. Sensação gostosa de finalização. Parece quase que os cominhos e o louro estão em estado de graça, cumpriram propósito, estão no sítio certo à hora certa. Arrisco a dizer, depois de tudo isto, que eu também estou.

Carla Moreira

Fiz teatro e fui jogral de poesia há algumas luas. Ainda piso as tábuas, volta e meia, porque faz parte de mim, nem me vejo de outra maneira. Gosto muito de vários assuntos. De pessoas. De assuntos que envolvam pessoas. A paixão por livros e letras é tão grande que tenho de aprendê-las através das palavras.

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