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24 Ressuscitou, mas para Morrer Noutro Dia

O longo ressuscitar de 12 episódios do grande êxito de acção da FOX mantém as mesmas três preocupações que todas as temporadas transactas de 24 tiveram: o enredo, o enredo e o enredo. Esta série criada por Joel Surnow e Robert Cochran desenvolve-se em torno dos acontecimentos que irão ocorrer em seguida ao momento que está a ser vivido, com as complicações, as suas desorientações e as suas repentinas (e, por vezes, excessivas) alterações de paradigma, enquanto que as suas personagens vão sendo desenvolvidas em momentos de puro brilhantismo no que toca à representação. Exemplo disso é a revelação do vilão da trama no fim do segundo episódio, que começa com um demorado olhar do espectador na parte de trás da cabeça da personagem e, de repente, é alterado o ângulo de visualização, para ser possível ver a cara da pessoa responsável pelos actos de malvadez. É nesse exacto ponto que os sádicos produtores da série terminam o episódio com a sua tão característica tela preta.

Live Another Day desenvolve-se numa depressiva cidade de Londres, onde o presidente James Heller está de visita, e com os seus cidadãos ingleses a protestar contra o uso de drones por parte dos Estados Unidos da América para atacar alvos noutros países. No meio deste clima revolucionário, um pequeno grupo de protestantes procura demonstrar a sua indignação de uma forma mais incisiva, ao… fazerem algo, que não posso contar o que foi, porque não quero estragar a experiência de quem for ver os primeiros episódios. O que posso confirmar é que a série continua a ser uma objectiva lição sobre a falta de confiança nas pessoas que estão à nossa volta, que o Kiefer Sutherland está de volta ao papel que o consagrou no panorama televisivo mundial e que o facto de estar mais velho permite-lhe dar umas novas nuances a Jack Bauer. Quando o actor ganhou o seu primeiro Emmy por causa deste papel, há 12 anos, brinquei com a situação, dizendo que o prémio devia ter-se chamado de “Brilhante Entrega de Monólogos, Enquanto Tudo o que Está à Volta Rebenta”, mas, depois de ver os primeiros episódios desta nova aventura de 24, posso afirmar que o tempo fez muito bem a Sutherland, que dá a esta personagem uma estranha dignidade que anteriormente não existia. Esta dignidade está muito patente em cenas como a que Jack está a estrangular um homem, recorrendo às suas próprias algemas e demonstrando uma delicada elegância nesse acto violento, ou, então, quando Jack diz a seis homens armados que eles não deveriam cometer o erro de pensar que ele se encontra em desvantagem numérica, num momento em que é impossível de não se rir, porque o espectador sabe que ele não se está a gabar, ou a tentar persuadi-los do que pretendem fazer. Não é possível os seus actuais adversários terem conhecimento da quantidade de situações impossíveis em que que esta personagem já esteve e, nesta situação, Jack Bauer é, basicamente, o fora da lei Josey Wales, de Clint Eastwood, que pretende apenas dar uma elegante hipótese aos seus adversários de saírem a bem deste confronto.

Existem ainda outras personagens que despertam o interesse de quem assiste a 24: Day Another Day, como o agente Steve Navarro, que parece ser o único que segue as regras do jogo como um escuteiro, e Kate Morgan, uma analista que foi despedida, depois de um escândalo político e pessoal, mas que não consegue deixar de executar o seu trabalho, mesmo que o faça sem apoios, ou ignorando as ordens que lhe são dadas. Tal como Jack e Carrie Mathison, em Homeland, esta nova personagem do universo de 24 é uma brilhante, mas, simultaneamente, volátil dissidente, que não tem nenhuma aptidão social no seu local de trabalho. No momento em que me apercebi deste facto, fiquei na expectativa para ver a cena em que tanto Jack, como Kate, iriam perceber que os dois são almas gémeas.

Como sempre, a série, a nível da fotografia, retrata Jack como sendo um espectro homicida, a disparar vários tiros, à medida que inimigos desinteressantes vão-se espalhando pelo ecrã, para no fim ser revelado que a personagem principal está escondida atrás de um pilar, ou no outro lado de uma porta. Jack não diz uma única palavra até meio do episódio de estreia, mas o seu silêncio tem mais significado do que muitos dos monólogos a que nos habituou ao longo dos anos, já que este silêncio é mais apropriado a um homem que até pelos seus pares é considerado um forasteiro e cria, simultaneamente, uma aura de desconhecimento perante os seus pensamentos. Paralelamente, é também uma personagem principal que confunde o espectador, tal como qualquer outro personagem nos dramas dos canais por cabo norte-americanos. O facto de 24 defini-lo como sendo o bom da fita, mesmo nos momentos em que está a espetar um lápis no pescoço de outras pessoas, ou a torturar oficiais do exército, de forma a fazê-los falar, faz desta série uma experiência mais volátil e complexa do que a maioria das séries, ou filmes de acção. Jack Bauer é um complexo cão de ataque fabricado pela industria militar norte-americana e que se mantém constantemente leal aos restantes cães que fazem parte da sua matilha, apesar destes já não estarem presentes, e mantendo os seus instintos ligados em todos os momentos da sua vida.

O lado político da série foi muito criticado no passado, por se alimentar em excesso das fantasias da direita norte-americana, principalmente no que toca aos males necessários em tempos de guerra, como é a questão da tortura. Uma filosofia política alicerçada na crença de que nada do que é feito por esta nação pode torná-los em algo pior do que aquilo que os seus inimigos já são. Exemplo disso, é uma frase que Jack diz em determinado momento, antes de começar uma tortura, para, mais uma vez, obter as informações de que necessita para salvar o dia: “If you don’t tell me what I want to know, then it’ll just be a question of how much you want it to hurt“. Porém, este programa de televisão também dá azo à paranoia da esquerda norte-americana. Na segunda temporada, existe uma linha narrativa, em que 24 prevê o uso do 11 de Setembro como desculpa da administração Bush para começar uma guerra no Médio Oriente alimentada pelo medo de um ataque nuclear. A representação governamental em 24 está repleta destes de cinismos e de carreiras compostas de interesses financeiros pessoais, perpetuados, principalmente, por empresários do ramo da produção de armas e outros corporativistas que olham para as guerras como um meio para atingir mais lucro.

A história relacionada com o uso do drone que Live Another Day explorou é um outro exemplo de como as ideologias políticas estão bem presentes na série, fazendo uma ligação entre a era de guerra de Bush até à era do controlo de Obama. A única coisa que qualquer norte-americano irá concordar é que as corporações e os governos estão repletos de pessoas que distorcem os privilégios que têm para o seu próprio proveito e que só os parvos é que confiam cegamente em alguém. “I’m doing this to protect the integrity of this government“, afirmou, na quinta temporada, o insurgente oficial da CTU Christopher Henderson a Jack. “This government has no integrity“, respondeu Jack. Sejam todos bem vindos a mais um dia na vida de Jack Bauer.

Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

2 Comentários

    1. Também gosto muito da série, mas para já só dá para acompanhar na net. Porém, acredito que assim que ela esteja terminada, ou quase a terminar, que a FOX comece a transmiti-la 🙂

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