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Na língua dos afetos nem todos falam o mesmo dialeto

Os afetos são como uma língua com muitos dialetos, mas ainda que nem todos saibamos falar essa língua, todos temos necessidade de a ouvir. Às vezes um texto grande não diz muito, e outras vezes uma simples frase diz tudo, e assim é também com os afetos, não importa o tamanho do gesto do afeto, o que importa mesmo é que se comunique o afeto na forma de que quem o recebe perceba, e sinta como é amado.

No filme “Fio invisível”, disponível na Netflix, numa cena de término de relação percebe-se que o amor não é suficiente para manter uma relação viva e saudável. Dentro deste contexto é explicado ao elemento do casal que passou a sentir o casamento como garantido, que o cuidado do amor traduz-se no comportamento que se tem, como por exemplo, através de simples perguntas como querer saber como a outra pessoa se sente, querer saber o que a outra pessoa quer e também querer saber o que a outra pessoa pensa. 

O cuidado é afeto e o afeto é o amor transformado em comportamento, se não há tempo para os afetos, o amor morre como uma planta que não é regada, passo a citar o cliché.

Ou seja, os afetos são a manifestação física do amor. Por exemplo, a minha avó materna tinha muita dificuldade em dar carinho físico, mas cozinhava verdadeiros manjares para a família. A cozinha era a arte em que era exímia, e oferecer essa experiência à família era a sua expressão de amor, e todos nós sabíamos disto.

Contudo, há um grande equívoco em relação aos afetos. Cada um dá afeto conforme quer receber, esquecemos assim, ou ignoramos, a forma como o outro gosta de receber afetos, ou melhor, como o outro percebe o que é afeto. 

Já há muito tempo, ao ver um dos documentários de Michelle Obama, percebi como cada pessoa fala o seu dialeto em relação aos afetos, isto ficou claro para mim através da história que ela contou sobre os desentendimentos que teve com o marido, Barack Obama. Ela explicou que a vida familiar em que o seu marido cresceu foi de distância física devido ao fato de que algum membro da família, ou ele próprio, estava sempre a viajar, então o afeto era traduzido pela repetição da expressão “I love you”, e para ele isso era suficiente, isto é, ficava com a garantia de que era amado e que os laços que os uniam eram fortes, concluindo, para ele não era preciso mais nada do que expressar verbalmente o seu amor. 

Por outro lado, já ela, Michelle, vinha de um background completamente diferente, porque tinha sempre vivido com o seu núcleo familiar sem haver despedidas, e por isso, as palavras tinham pouco valor, o que lhe assegurava que era amada era o cuidado no comportamento e a própria presença física no dia-a-dia.

Ou seja, para além de darmos afeto como gostamos de receber, devemos também dar afeto na forma que a pessoa de quem gostamos quer receber, porque senão ainda que todos falemos a mesma língua, ninguém se entende dado que a comunicação de afetos é feita em dialetos diferentes.

A coragem de dar afeto nestes termos é revolucionária, porque é a rendição à vulnerabilidade é a vitória das emoções humanas, uma vez que os afetos são a primeira ligação com os nossos cuidadores quando nascemos. 

A validação do amor que o outro sente por nós é feita através dos gestos de afeto, sendo por isso, um exercício de troca, entre o dar e o receber e a prova de que há uma boa comunicação entre quem se ama.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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Madalena

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