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ContosCultura

O Mal Que o Teu Corpo Carrega

Entra, senta-te junto a mim. O convite da avó, quase uma ordem, fez Isaura tremer um bocadinho. Sempre soubera que este dia haveria de chegar. Há segredos que têm de ser revelados e que não podem morrer connosco, sob pena de não conseguirmos descansar. Isaura sabia que havia um fardo que a avó não poderia carregar para sempre e que seria apenas uma questão de tempo. Agora, a morte a instalar-se devagar em cada músculo, em cada osso, em cada centímetro de pele da avó, era chegado o momento de passar o testemunho e, quem sabe, aliviar a carga, como um peso que se sente menos, se dividido por mais braços.

Entra, senta-te junto a mim. E Isaura obedeceu, como sempre, à ordem de quem sempre se impusera como força maior, vórtice máximo, força extrema daquela família fragmentada e imprevisível.

O teu pai era um assassino. O ar que não circula nos pulmões, o sangue que se desvanece do corpo, quase um desmaio, o chão a fugir. Como assim, um assassino? Um assassino. Matou uma mulher. E contou-lhe a história.

O filho, homem de zero aos cem em menos de um segundo, era incapaz de controlar a raiva. Às vezes batia com as mãos em paredes, ossos partidos, sangue a espirrar, escoriações várias. Assim que a dor se tornava insuportável, o coração sossegava e tornava a bater no compasso certo. Tinha sido sempre assim. Bebé acabado de nascer fazia-se roxo de tanto berrar, um choro zangado, que ninguém entendia e que não havia maneira certa de sossegar. Cresceu assim, instável e imprevisível. Não havia um gatilho identificado, era quando calhava, tanto fazia, às vezes sim, por coisas menores, outra vezes não, apesar de até ter motivos que podiam considerar-se válidos. Era uma bomba-relógio que ninguém sabia como desactivar e, pior, que ninguém sabia porque se activava. 

Um dia, numa festa de um amigo, batera com os olhos numa rapariga que o intrigou. Talvez fosse a tez morena, o cabelo preto, longo e denso que lhe fazia manta pelas costas abaixo ou o ar que jazia entre o índio e o cigano, uma mistura perigosa que o afectava de alguma forma. Tinha uns olhos quase negros, brilhantes como luzes, que pousaram nele em menos de nada. Esperou que ela tornasse a olhá-lo. Ela olhou. Encostada a uma parede, os braços cruzados à frente do peito como se o desafiasse e interpusesse entre eles uma barreira física.

Uma das coisas que o acicatava era não poder ter o que queria. Fosse o que fosse: um gelado, a vitória num jogo de cartas, um sono longo e sossegado, uma mulher. Começou a sentir o lume a chegar-se à palha. Aquela miúda trigueira haveria de ser sua, encostada àquela parede, o rabo empinado para si, as mãos a tocarem-lhe as pernas enquanto ele dançasse dentro dela. Acercou-se dela. Ficou à sua frente e pousou as mãos na parede, como que a prendê-la, embora não lhe tocasse. Ela não desfez a posição, não baixou os olhos, não mostrou medo. Presa difícil, para aumentar a tensão. Dar-lhe-ia mais trabalho, mas acabaria por quebrar. Quem és tu, perguntou. Ela não respondeu. Ele tornou a perguntar. Olhou-o de alto a baixo. Demorou-se nos olhos dele. Continuou sem responder. O gato comeu-te a língua, desafiou-a. Nem um músculo dela se agitou. Ele começava a ferver em lume lento. Sabia onde aquilo ia acabar, a fúria que estava a chegar de mansinho; não sabia como ia lidar com ela, nem por que lado iria explodir. Sabia apenas que rebentaria. A violência da explosão dependeria apenas dela e de como ela se recusasse a dar-lhe o que ele queria. Tornou a perguntar: quem és tu?, nunca te tinha visto por estas bandas.

A voz dela, como um assomo gutural, respondeu: sou a pessoa que vais largar neste preciso momento e que nunca mais vai ver-te na vida. Está para nascer a mulher que fale comigo nesses termos, devolveu ele, e pousou-lhe a mão grossa no antebraço, apertando-o com mais força do que seria necessário. Ela não se encolheu, tira imediatamente daí a mão, não torno a avisar. Ele replicou, vais fazer o quê?, vais bater, queres ver. Sabes lá tu aquilo de que sou capaz, sibilou a rapariga, já num tom mais aceso e convicto. É mais fácil se não fugires de mim, sabemos os dois que estavas a olhar e eu sei o que esses olhares querem dizer. Não sabes coisa nenhuma, não me conheces de lado nenhum e tira daí a mão agora. Ele, em vez de afrouxar a força, pressionou ainda mais. Se eu te quiser, tu vens. E puxou-a com força, colocando-se atrás dela e obrigando-a a andar à sua frente. Ela não disse nada, não fez menção de reagir de maneira nenhuma. Pensa bem no que te estás a meter, avisou. Não te preocupes que vamos os dois ficar contentes a seguir. Levou-a para fora do recinto e encostou-a ao carro que estava mais próximo, entalando-a entre ele e o metal arrefecido pela noite invernosa.

Ela enfrentou-lhe o olhar sem medo e ele não soube como viver depois disto, uma mulher que não lhe cedia, que não se amedrontava, que não se acobardava perante a sua força e a sua vontade. Tentou afastar-lhe as pernas com o joelho mas deu de caras com uma mulher mais forte do que aparentava ser e cujos joelhos permaneceram unidos sem hipótese de corrupção. Trancou-a com o antebraço encostando-a mais ainda ao carro, quase a sufocando com a força aplicada na glote. A mão livre desceu até à perna dela, subindo depois até lhe encontrar o tecido das cuecas, que desviou à procura do que queria encontrar. Tocou ao de leve o tufo quente de pêlos. Tentou enfiar nela dois dedos grossos, uma violência vinda do desejo e do despeito. Ela debateu-se, por fim. Tentou morder-lhe o braço, mas a posição não ajudava. Contorceu-se como um animal enjaulado, a luta pela vida a crescer agora por ela acima. Ele, com os dedos a caminho da secura dela, interrompeu-se para a travar com uma cabeçada e aumentou a força com que lhe segurava o pescoço. Sentiu-a amolecer depois, um estremeção, os olhos revirados, raiados de sangue. E parou de respirar. Largou-a onde estava, não quis saber. Levou os dedos ao nariz, lambendo-os a seguir. Voltou para dentro como se tivesse apenas ido fumar um cigarro. Por ali, ninguém sabia bem quem era a rapariga, não haveriam de dar pela falta dela.

No dia seguinte, quando a festa se desfez em bêbedos que saíam agarrados uns aos outros numa espécie de cordão humano e em raparigas coradas, as caras avermelhadas das barbas que se lhes roçaram ali durante a noite, uma ligeira embriaguez mais de prazer do que de cerveja, alguém deu com uma rapariga caída ao lado de um carro. Apagou-se ali aquela, pensaram, e continuaram caminho. Haveria de acordar quando o álcool lhe desaparecesse do sangue. Ficaria bem com certeza. Não tornaram a pensar nela.

Como é que a avó soube que foi o meu pai? Conhecia-o, Isaura. Assim que se falou numa rapariga que apareceu morta no final de uma festa onde ele tinha estado, eu soube. Podia ter sido tanta coisa, avó, porque é que há-de ter sido ele? Porque ele tinha negritude dentro, era um diabo, nada de bom haveria de sair dele; era uma questão de tempo até ele fazer mal a alguém. Alguma vez se soube o que aconteceu? Não, só eu é que sei, quando ele estava a morrer, o cancro já mais forte do que ele, sentei-me à beira da cama e disse-lhe que sabia o que ele tinha feito; não me disse nada, nos olhos nem um vislumbre de arrependimento, nada. Deixei-o ir nessa tarde, não havia mais nada que ele pudesse dar nem tirar ao mundo. E agora, avó? Agora, vive sabendo que o teu pai, que te fez anos depois no ventre da tua mãe, era um homem cheio de maldade. E quando te apetecer ser qualquer coisa que se pareça com o que ele foi, lembra-te do que o comeu e de como nada do que ele deixou no mundo é razão para alegrias. Nem eu? Tu, sim. Mas tu és luz e eu quero apenas que saibas que há escuridão no teu sangue. Para que fujas dela se a avistares por aí.

Lénia Rufino

Escreve porque não sabe fazer mais nada. Mentira. Sabe, mas não gosta tanto. Criadora compulsiva de personagens com distúrbios psicológicos graves e dona de um fascínio absurdo por mentes conturbadas.

2 Comentários

  1. Cheguei ao fim da história sem fôlego. Caraças, que história incrível. Parabéns Lénia! Sempre a arrebatar-nos com essa escrita poderosa.

  2. O crescendo da narrativa é um talento impossível de negar! Parabéns Lénia!

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