fbpx
Bem-Estar

Doce Solitude

Acabei de comprar um bilhete para o próximo concerto do Rodrigo Leão. Sim, UM bilhete, singular.

Quando o comunico,  com visível entusiasmo,  às minhas pessoas, recebo variadas reações. Os mais próximos reagem com a naturalidade de quem já me conhece bem. Outros olham-me arregalados: mas vais sozinha?! De entre estes há ainda os que, de tão simpáticos, dizem que eu podia ter dito alguma coisa, que iriam comigo, que me fariam companhia. Uns amores.

Divirto-me com isto, a sério que sim. Ando longe de ser uma pessoa solitária, mas de há uns anos para cá (noblesse oblige) não deixo de ir onde quer que seja por não ter companhia. Nem sempre as pessoas têm disponibilidade ou o mesmo gosto. Mas se eu quero, se eu gosto, eu vou.

Comecei pelo cinema, com alguma noção de estar a ser observada por aqueles que partilhavam o mesmo espaço físico. Talvez se indagassem porque não tinha companhia, como se tivesse que ter. Quase que lhes adivinhava o olhar de pena alheia, mas mais tarde vim a perceber que tudo isto talvez só existisse na minha cabeça. Mais tarde, com o embalo da experiência, questionei-me se não teriam alguma admiração pelo facto de o fazer de tão bem com a vida. Depois percebi que as pessoas estão na sua vida e não estão minimamente preocupadas com o assunto. Portanto, é uma questão de cada um.

No outro dia encontrei uma amiga, divorciada e sem filhos. Eu tinha vindo, sozinha, da Ericeira, cabelos desalinhados do vento marinho e leve bronzeado no rosto. Pergunto-lhe o que tem feito, e responde-me que entra em casa à 6ª feira e sai na 2ª. “ Onde vou eu sem companhia?” disse-me, os ombros subjugados à inevitável solidão. E eu penso que aquela mulher que ali está, representa aquilo que eu já fui, há algumas décadas. Não ia, tinha vergonha. Ficava em casa. Tanto tempo livre, tantas hipóteses de ir e fazer, desperdiçadas no recolhimento voluntariamente forçado. Disse-lhe que tinha ido passear, naquele sábado, que fora à Feira do Livro , que almoçara na esplanada junto ao mar, que de tarde fora à exposição da minha amada Alice Vieira. Fora um dia só meu: as minhas coisas, os meus interesses, os meus pensamentos. Olhou-me espantada, como se eu tivesse feito algo transcendente. Não fiz.

Aprendi, com o tempo, que nem sempre os outros têm disponibilidade para e que isso não me deve travar. Recentemente fui, acompanhada, ver o Monólogo do Pénis ao Casino Estoril, e lembrei-me que, estupidamente, não tinha visto o Monólogo da Vagina, em tempos idos, por falta de quem alinhasse comigo. Perdi a 2ª peça do puzzle porque tinha pudor em ir só, como se alguém sequer notasse ou se importasse. Mais do que isso, não devo privar-me de viver, porque a companhia não me assiste. Além de que, muitas vezes, se a pessoa ao nosso lado (marido, amigo, colega) não tem a mesma vibração que nós, não tiramos o devido proveito da experiência. Claro que é ótimo termos com quem comentar ou rir conjuntamente, numa partilha de prazeres. Mas se a pessoa não o aprecia de igual modo, ou se vai só de corpo presente , enquanto pensa no seguro do carro que tem para pagar, mais vale estarmos sós.

Estar apenas connosco próprios permite-nos concentrar no que se passa à nossa frente, saborear totalmente o espectáculo. Pode até ser um egoísmo, embora me pareça que é apenas um equilíbrio necessário, mas ir com alguém que não percebe sequer o nosso júbilo, é empobrecer o momento. Mal comparado, é como levar o marido ou a mulher tímidos (ou não) para um encontro de amigos de escola que nem fazem ideia quem é a cara-metade. Em vez de nos concentrarmos no reencontro de amigos, no reviver de histórias que podem até ferir alguns ciúmes, estamos preocupados em ver se o nosso par não está aborrecido, a tentar enquadrá-lo em temas que lhe são totalmente alheios, ou mesmo puxá-lo ao momento se ele ousa falar da opção de aparelhos de ar condicionado que falámos os dois nessa manhã. Ninguém merece.

Por isso, imprimo o bilhete, e olho-o de forma prazerosa, como se fosse um segredo meu. Mais do que um segredo, um tesouro. Guardo-o na mala, ansiosa por que os dias passem. E quando o dia chegar, farei questão de me deixar emocionar e sentir cada nota, cada elevação, cada vibrato, provavelmente com um extenso e intenso arrepio na pele.

Rodrigo Leão sempre me significou o amor. Inclusive o próprio.

“Porque é que havia de me sentir sozinho? Raras vezes na minha vida, desde que me lembro de mim, tive um sentimento de solidão. E não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu. Não me aborreço.”

António Lobo Antunes

Tabu / Sol (2008)

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

2 Comentários

    1. Às vezes é preciso coragem para por um travão em tudo o que são solitações. É uma aprendizagem, mas como diz uma amiga minha, na segunda metade da vida não se fazem fretes, pelo menos no que diz respeito à vida pessoal. Beijinho transatlântico

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Veja Também
Fechar
Botão Voltar ao Topo
%d bloggers like this:

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.