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Bem-Estar

O peso das coisas

Na SIC Mulher, passa um programa de formato reality TV intitulado “Hoarders”. O programa pega em exemplos concretos de pessoas que sofrem de um transtorno obsessivo compulsivo que se manifesta na necessidade descontrolada de acumular todo o tipo de objectos. O formato deste programa é simples: de um lado, temos uma pessoa que precisa de ajuda para voltar a viver em condições dignas e, do outro lado, temos uma equipa de psicólogos e organizadores profissionais que tentam, de alguma forma, voltar a arrumar não só a casa, mas também a mente de quem sofre deste transtorno.

Os vários casos que são tratados no programa roçam a repulsa. Casas sem canalização, lixeiras dentro de quatro paredes, camas com espaço apenas para tralha e ambiente quase irrespirável para quem lá habita. A equipa de psicólogos e organizadores mergulha a fundo na lixeira doméstica e emocional e descobre sempre que na origem deste transtorno comportamental estão situações traumáticas e muito pesadas do ponto de vista emocional.

Desgostos de amor, mortes inesperadas e problemas de infância nunca resolvidos são as causas principais para esta necessidade de acumulação de objectos, na maioria das vezes, completamente inúteis. Há na acumulação um transpor de falhas emocionais que são compensadas pela sensação de controlo dos objectos que se compram e guardam.

A dinâmica sufocante da necessidade descontrolada de guardar tudo, torna estas pessoas ainda mais infelizes do que já são e afunda-as ainda mais num poço escuro e sem fundo. O peso do que acumulam tira-lhes brilho ao olhar e intoxica as suas relações pessoais e familiares. O domínio do material em detrimento do equilíbrio emocional, mesmo que inadvertidamente, entristece e escurece a vida destas pessoas.

A equipa de resgate que o programa lhes atribui, consegue, na maior parte das vezes, colocar em perspetiva os verdadeiros motivos deste transtorno e com a ajuda de camiões (sim, o lixo acumulado é de tal ordem que são necessários camiões para limpar as casas) vão esvaziando habitações e corações de cargas descompensadas e negativas. A diferença do início para o final do programa é impressionante. Obviamente havendo excepções, o peso retirado a estas pessoas nota-se na leveza dos seus gestos, na simplicidade das suas relações pessoais e no novo brilho no olhar. Eram pessoas que lutavam por respirar entre pilhas de tralha e emoções avassaladoras e agora conseguem caminhar da sala para o quarto sem tropeçarem em lixo e desgostos.

É a retirada de peso material e emocional da vida de quem carrega mais do que consegue suportar. É emocionante ver este renascer das cinzas e é sobretudo clarificador perceber que, num registo mais leve, o consumo desmedido que muitas vezes temos também ele pode esconder alguma falha emocional por muito pequena que seja. Acaba por existir uma necessidade de compensar uma falta com um excesso.

O programa “Hoarders” pega, em tom exagerado, numa questão que talvez seja merecedora de um pouco mais de atenção de todos, o colmatar de uma vida emocional precária com o consumo material de coisas que erradamente achamos que nos poderão preencher.

Rita Ramos

Escrevermos sobre nós próprios, no sentido de nos darmos a conhecer a quem nos lê, acaba sempre por ser ingrato. Somos um nome? Uma idade? Uma formação académica? Eu quero acreditar que somos tudo o que vivemos, que somos tudo o que nos rodeia e que absorvemos, que somos quem amamos, que somos os livros que lemos e as viagens que fazemos. Somos um conjunto de tudo e de nada. Quanto a mim, sou a Rita, tenho 37 anos, sou licenciada em Relações Internacionais, sou casada, sou filha e mãe, e as palavras têm sido a minha maior companhia ao longo da vida.

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