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Fernando Pessoa. David Bowie.

Ou a Heteronímia que salva.

No fim de semana passado vi um documentário sobre David Bowie, anunciado como se tratasse essencialmente dos últimos cinco anos da sua vida, que me voltou a lembrar o que sempre me deslumbrou nele – a multiplicidade de que foi capaz. Conseguiu tornar-se muitos, ser vários, como Fernando Pessoa, que transportava consigo ‘todos os sonhos do Mundo’. A psicologia lançou a designação de alter-ego, meio envolta numa certa vaidade, num corolário de si próprio, mas parece-me ser antes um excesso de realidade que precisou de sítio para onde ir.

Quando conheci Fernando Pessoa fiquei fascinada. Estava, na altura, a ser-me apresentado um conceito novo, na adolescência, quando também andamos carregados de sonhos: a Heteronímia. A concretização deste conceito é muito mais do que a sua definição no dicionário nos pode fazer adivinhar. Para além de haver um autor que assina com o nome de outrem, o heterónimo acrescenta ao pseudónimo a personalidade, uma série de características e uma história que sustentam uma entidade, à qual me parece redutor chamar só personagem. No caso destes dois, Pessoa e Bowie (jamais tinha pensado escrevê-los assim, lado a lado), a heteronímia, trouxe mais vidas ao real, multiplicaram-se dando-nos mais do que apenas um poderia dar.

Alguém que se desdobrou, como Pessoa, num médico, num futurista, num telúrico, num desassossegado, trouxe-se a esses lugares, indo a si explorar cada direcção traçada. Não considero que seja só uma personagem de ficção criada, é algo que está presente e se desenvolve. A ficção vem depois, o processo há-de começar em algo que é real e existente naquele momento.

O facto de haver uma exigência geral e latente para a definição e sobretudo para a auto-definição, que presume que nos compreendem melhor se definirmos claramente o que somos, faz brotar uma certa esquizofrenia, como se a escolha de uma tal etiqueta nos tirasse à força a possibilidade de todas as outras, não necessariamente menos adequadas. Eles resolveram. Se posso ser tudo, porque tenho de escolher ser alguma coisa? O mundo quer arrumar-nos num lugar, sucede que esse lugar nem sempre consegue dar albergue ao que trazemos dentro.

Às vezes, dá-se o caso de o mundo interno ser mais vasto que o externo e precisar do espaço de um corpo imaginário para se poder expressar. É ter muitas vidas na cronologia de uma vida – mais uma definição que souberam fintar: o tempo deles não foi linear. Quantos anos terá vivido Pessoa?, os quarenta e sete da sua nota biográfica ou o somatório de todas as vidas que habitou?

Há neste ser outro uma abundância de real que dribla a perda consequente de uma posição clara e definida. A vida ensina-nos que “não podemos querer tudo”, que “se queremos uma coisa, algumas ficarão para trás”. Com Pessoa não aconteceu assim. Encontrou forma de encaixar na sua cronologia várias perspectivas de estar e de ver o Mundo: pôde recusar-se ao pensamento (“pensar é estar doente dos olhos”), bebendo dos ensinamentos da Natureza e, em contemporaneidade, ser médico, estudioso, habilitado a curar, porventura, aqueles outros olhos, que serviam mais que a razão para conhecer o Mundo, e ainda, ao mesmo tempo, cantar hinos de elogio ao progresso.  Quão esquizofrénico isto seria se não houvesse uma arrumação clara em outras identidades? Quando leio Pessoa, Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, gosto de todos, talvez menos do futurista com nome trocado – talvez Pessoa não quisesse ser óbvio ao colocar o apelido ‘Campos’ no Guardador de Rebanhos. Há um pouco de mim capaz de compreender e até concordar com cada um deles, pois cada vez mais me convenço que perseguir o ponto de vista certo e definitivo é caminho certo para o engano.

Todos sabemos que a carreira de astronauta é uma construção dedicada de uma vida. Não o terá sido para Bowie. Pode sê-lo desde cedo e daí partiu para muitas outras viagens. Mas há uma heteronímia em Bowie que me parece anteceder as restantes, uma que já lá estava e sustentou um Ziggy Stardust, um Aladdin Sane ou um Thin White Duke, mais branco e magro que o nome. Foi a coexistência do artista e do estratega no mesmo ser, aliando o espírito criativo e até romântico, na sua capacidade de ler e se expressar sobre o mundo, com a mente mais calculista de um produtor que sabia onde estava e para onde queria ir. Era um artista completo, um visionário, e aquilo que fazia, para além de ser arte, era também negócio. Na terminologia irritante de hoje, foi CEO de si próprio, sendo que esse distanciamento que o permitia ver-se como produto esteve presente até ao fim, não largando as rédeas do espectáculo, mostrando, na fase final, que o artista se sobrepôs ao homem. A morte não o apanhou desprevenido, porventura porque já tinha vivido outros fins de vida. Toda a envolvência quase mitológica que soube criar à sua volta era um prenúncio disso mesmo: dali só podíamos esperar todas as coisas, vindas de um qualquer lugar insano que dá combustão ao artista. Este ser loiro (às vezes) e magro também disse e escreveu coisas que mostram bem a lucidez que simultaneamente o habitava, sendo o seu percurso de vida a acertada ilustração que se entrelaçou finalmente na obra.

Quando oiço Bowie, há coisas de que gosto muito e outras das quais não gosto nada. Um dos seus álbuns, o mais vendido, foi lançado no ano em que eu nasci: odeio-o. Let’s Dance? Não, não vou dançar ao som desse hino. Não me é indiferente, causa-me mesmo desconforto. Quando alguma faixa desse sucesso de vendas passa na rádio, mudo de estação imediatamente, fico irritada só de pensar em ouvir uma China Girl de início ao fim. Penso que, lá do alto da sua estrela, um David Jones iria ficar satisfeito com esta confirmação da plenitude da sua heteronímia abençoada. Este trabalho é tão diferente que poderia ter sido qualquer outro a fazê-lo, quebrando, quanto a mim, a linha que tende a unificar as carreiras. Não é mais um trabalho do mesmo artista: é outro artista. Parece que os heterónimos não se deixam somar.

Este ímpeto não está em todos nós? Não nos convençam a definir o que somos, castrando tudo o mais que poderíamos ser. Já nos cantaram ao ouvido que podíamos ser tudo, até heróis, nem que seja por um dia.

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

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