Um dia…

Uma forte chapada de som acordou-o violentamente. Era mais uma manhã e o sol ainda tímido espreitava prometendo um sorriso ou pelo menos um dia de claridade, daquela luz em que que ver se torna mais fácil. A luz incidiu sob o vazio a seu lado. Lugar marcado por odores, formas e um sentir imaginado. Naquele lugar da cama devia estar ela, um lugar quente a seu lado, um sonho sentido e sonhado. Ele sentia-a naquele vazio porque a amava. Ela não sabia que era sonhada tão intensamente.

O caminho para o trabalho fazia-o em forma de rotina. Repetição massificada por dias repetitivos. As mesmas estradas, as mesmas vistas, a mesma demora, o mesmo trânsito que todos os dias o punham à prova. Nenhum toque, nenhum colidir, nada que o atrasasse senão o tocar nela, senão o colidir a sua vida com a dela. Bem o tentava, vivia para unir aquelas duas vidas mas o acaso teimava em os separar. Vidas difusas vividas em tamanha concentração no eu próprio que aos outros não restavam segundos nem de nem com quem partilhar. Não conseguia tempo para a ver e o tempo não a deixava livre para ser vista.

Naquele dia de primavera já manhã alta, o sol sorriu como prometeu ao acordar. O entrar no edifício para o trabalho foi um fugir forçado de uma alegria de que sentia falta. A alegria do sol a escorrer pela pele, a queimar de cor o rosto, a aquecer a motivação para qualquer coisa que fosse. Mas a obrigação a isto obrigava. Mais uma reunião, o disparatar de argumentos e indicações, as correcções e o pensar em evitá-las. O fugir aos momentos de pausa que adormecem o espírito, a perseguição de estudos e a leitura conclusões. As pessoas, todas elas, todos eles, colegas, amigos, amigas, chefes, subordinados, vozes, feitios, expressões. Um inacreditável compêndio de figuras que ele não sabia se enriqueciam a sua vida mais do que apenas pensar nela.

A sequência natural desse dia foi o fugir. Tirar um fim de tarde que não podia tirar e repensar em si no quem era ela. Aquela pessoa de beleza cegada pelo amor, de paixão ardente intocável. Ela que mal o via, que dele nem sempre sabia mas que nunca o esquecia. Sem o imaginar, as suas palavras moldavam de forma indelével a vida dele. Ele descalço pisava a relva virgem de um jardim caminhando seguro em linha recta. Pegou no telemóvel e ligou para ela. Cada vez que falaram ela mostrou-lhe um caminho sem se aperceber disso, ele trilhava-o e aprendia, crescia. Ela existia e por isso ele vivia. Era esse o efeito que ela tinha na sua vida e por isso a amava, por ela tornou-se melhor, por isso, de novo, a amava tanto.

Toque atrás de toque, inquietação, precisava de a ouvir, de ver um novo caminho, o dia, o sol, pesavam. Ela atendeu, falaram. Um olá-tudo-bem-sim-tudo-nada-de-especial que durou quase quinze minutos. Muito falaram e de quase nada conversaram. “Podes vir ter comigo, conversar um pouco, beber um café?”. “Gostava mas não posso. Prometo que fica para outro dia”. Não faz mal.” Sorriram e desligaram. O sol avisou um adeus na tarde a aproximar-se do fim. Chegou a um arbusto e roubou com carinho uma flor, branca, centro amarelo, simples de enorme beleza, como ela era.

Regressou a casa a sorrir porque nesse dia falou com ela. Não a viu mas sentiu-a, e soube por onde caminhar. Terminou o trabalho que devia ter feito no escritório em paz e sem pressões e deu por findo mais um dia da sua vida.

Nessa noite deitou-se e colocou a flor ao seu lado como a se colocasse no cabelo dela por cima de orelha. Sem ponta de lágrima, sorriu e como se soubesse algo que ainda não aconteceu, ofereceu a si um forte suspiro: um dia…

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Paula

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