O roçar dos teus dedos

“Hoje está mesmo tempo de Domingo”, diz alguém no comboio. Instintivamente olho pela janela. Durante tanto tempo, Domingo e Depressão pareciam ter as mesmas letras, aquele mesmo sentimento de impotência, de rotina, de tristeza permanente e de questões. De falta de um je ne sais quois. Mas só até começar a passar os domingos contigo (sorrio instintivamente), nos teus braços, e a melancolia parecer menos solitária, mais completa, e até como que uma aliada procurando o teu abraço quente. Claro que o Domingo continua a ser um dia cinzento, mas o fardo é sempre menor quando carregado por dois.

Sim, concordei na minha cabeça; estava tempo de Domingo, que é como quem diz “estava tempo de ronha”. Aquela nuvem que tapava o sol, escurecendo um pouco o dia, mas que não trazia chuva. Uns pingos, talvez. E com os pingos, esse tal sentimento de melancolia e tristeza, de falta de brilho, de falta da vida que o sol parece dar a tudo num dia de Verão. Só apetecia sofá ou cama, filme ou livro, chá e chocolates. De preferência com uma boa companhia a aquecer-nos a alma.

Estremeço de frio, mas lembro-me de ti. Porque é que os arrepios me lembram de ti? Estou a falar alto? Acho que não. Olho ao meu redor, esperando que não pensem que enlouqueci. Sorrio sem querer, imaginando ou lembrando o nosso Domingo. Penso que os meus dias contigo são irreais e fica tudo confuso, tudo meio impressionista e realista e abstracto ao mesmo tempo, naquela embriaguez de felicidade própria dos apaixonados ou dos tolos (tolos? Ou sábios?). E com os meus pensamentos sinto-me envergonhada, como se tivesse pensado em algo erótico, o que consequentemente me leva a pensar em algo erótico (um gemido? Um corpo nu? Coro e abano a cabeça, afastando o pensamento) e fico ainda mais envergonhada. Pensando nos teus olhos quando te ris, nas rugas no canto do olho. E como os teus olhos conseguem ter dentro todas as cores do Mundo. São azuis e são verdes e são castanhos, e são alegres e tristes e chorosos e felizes, e mudam com o sol e com a lua e com o vento. E com o amor. E com o álcool. E com os charros. E comigo. E antes de tu me beijares. E depois de eu te beijar. E durante o sexo, e antes, e depois (mais memórias pornográficas? Abano a cabeça de novo, procurando novas lembranças). Mudam com o mundo. São o mundo.

O sorriso também os muda, aos teus olhos. Quando sorris para mim, quando dás uma gargalhada por um motivo qualquer, ou quando te ris por pensar em algo incrivelmente indecente, sensual e tímido, com um brilho de demónio nos olhos.

Sinto um frio na barriga, que faz com que me mexa involuntariamente. Mas o comboio está cheio e ninguém quer saber se foi um solavanco ou um pensamento a manifestar-se. Sinto um frio na barriga porque tenho saudades dos teus dedos entrelaçados nos meus, de estar deitada ao teu lado, a sentir o teu corpo quente e a tua respiração. Estremeço, bêbeda de sorrisos, de uma felicidade que permanece com estas memórias. E sinto falta do teu toque distraído, da tua preocupação. Olhos preocupados, acompanhados de um toque suave para não magoar.

Pára o comboio. Estou na minha paragem? Toda a gente sai. Confirma-se. Estou na minha paragem, e tu não deixaste de me acompanhar, e não me largas agora quando vou a andar, a correr para apanhar o autocarro, nem quando me sento à secretária, nem quando ligo o computador. Tenho comichão nos dedos, como se estivesses a roçar a ponta dos teus nos meus, e esfrego as mãos. Tenho que me concentrar. Um novo frio na barriga e mais um sorriso involuntário. Logo à noite vou ver-te. Logo à noite, logo à noite, logo à noite, logo à noite…

Tenho de me concentrar!

Para conseguir controlar-me tento pensar em Coelhinhos Suicidas, em algo triste que não tenha nada a ver com nada. Mas por alguma razão só me dá ainda mais vontade de rir.

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