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Ode à saudade

A saudade assume formas que não podemos imaginar, evitar ou sequer controlar. Surge nos momentos menos oportunos.

Como uma pulga que se aninha no pelo de um felino, multiplicando-se.

Como uma pedrinha que cai sobre o para-brisas abrindo uma racha, que nunca chega a quebrar totalmente, mas que também não desaparece.

Como o dente do siso que começa a nascer, incomodando. Uma espécie de picadela que no início até controlamos com paracetamol, todavia acaba por se revelar persistente, doendo, moendo, levando a que sejamos obrigados a arrancar o dente.

É assim que funciona a saudade, esse sentimento que só é bonito na Literatura, esse sentimento que até nos soa poético, mas que consome, corrói e destrói.

De repente, voltamos o rosto na direção oposta, na certeza de termos escutado aquela voz que, por mais anos que passem, sempre será familiar.

Somos acometidos por uma espécie de loucura que nos desassossega.

Sentimos aquele cheiro tão característico, que em tempos também se entranhou na nossa pele, também se fundiu em nós.

E, embora já sejamos crescidos, nunca seremos suficientemente crescidos para entender a saudade, a perda, a ausência. Não importa se temos dez ou vinte anos, não importa se lemos muitos livros de autoajuda ou vimos muitos documentários sobre o mesmo; a saudade é inevitável e inquestionável. Apenas sente-se.

A memória apaga o que foi mau, liberta-nos das coisas desagradáveis, das palavras raivosas que se faziam sentir como bofetadas, dos planos destruídos, dos sonhos inacabados, e guarda só as coisas boas; os abraços, os beijos, o conforto do colo onde gostaríamos de nos quedar, o pedaço de vida pela qual morreríamos para viver de novo.

Não podemos controlar, evitar. E ainda que se vire a página, que se clique no botão de reiniciar, que se formate o sistema do coração ou que comece um novo dia, todos os dias serão lembretes da saudade, todos os dias serão mais um dia que passa em que a ausência é a única companhia.

Por vezes, a imagem começa a escapar-se, aquele rosto começa a ser menos percetível, e só nos restam as fotografias que agarramos com força para não se perderem, as cartas que não rasgamos, os sonhos que não se dissolveram, a voz que ainda ecoa em nós e o cheiro, aquele cheiro que nos faz rodar a cabeça na procura vã pelo que já se foi.

Hoje, agora, é o momento de refletir e de homenagear todos aqueles que amas e que já partiram, seja o avô, a avó, o tio ou apenas um qualquer conhecido.

Afinal, se continuarmos à procura de alguém que já não existe em lugar nenhum além de dentro de nós, o que é suposto encontrarmos?

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Letícia Brito

22 anos. Escritora e fotógrafa. Autora dos romances, Nos Braços do Vagabundo e O Dia em Que Chegaste. Bloguer no Minha Querida Isabel onde reúne mais de 122 mil leituras. Apaixonada por gatos e cinema mudo. Leitora compulsiva.

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