Joanna Kramer

Em 1979, Kramer contra Kramer, escrito e realizado por Roberto Benton, marcou a diferença na cerimónia dos óscares que teve lugar no ano seguinte. Não pelo mérito do filme, que levou as principais estatuetas, mas por ter sido uma obra relativamente curta (105 minutos) a fazê-lo, e sobretudo por explorar um drama familiar. Julgo ter sido o primeiro filme assumidamente sobre a família a vencer o óscar de Melhor Filme (podemos considerar, no início da década, os filmes d’O Padrinho como sendo sobre a família, ou mesmo, na década de quarenta, O Vale era Verde, A Família Míniver ou Farrapo Humano, mas nenhum destes tem no núcleo familiar a origem da trama (a dureza da vida dos mineiros no País de Gales, a rectaguarda de uma família na II Guerra ou o efeito do alcoolismo na vida de um homem).

Este facto marcou a entrada numa década: Reagan subiria a presidente e filmes como Laços de Ternura ou Miss Daisy tiveram a possibilidade de reconhecimento numa América mais conservadora do que aquela que havia vivido a loucura dos anos setenta.

Contudo, Kramer contra Kramer trouxe algo inovador, através de uma personagem secundária, mas cujo papel no filme é essencial em todo o desenvolvimento. Os méritos devem-se ao cuidadoso argumento de Benton, e sobretudo à maravilhosa actuação de Meryl Streep como Joanna Kramer.

Joanna sai de casa, esgotada emocionalmente num casamento onde se sente anulada. Ted vive para o trabalho e pouca ligação tem com a família. No meio dos dois, um pequeno “detalhe” de seis anos chamado Billy, o filho.

Cedo percebemos a ausência de Ted dos deveres maritais ou parentais, mas é quase tudo o que nos é dado a conhecer nas primeiras cenas, visto Joanna sair de casa com o início do filme enquanto nós, espectadores, somos deixados de imediato à deriva com aquele pai e filho que mal se conhecem.

Numa primeira leitura, o filme centra-se no desenvolvimento e crescimento da relação entre os dois, de como Ted Kramer se vê forçado a aprender a ser pai, e a dada altura quase nos esquecemos de Joanna, tão envolvidos estamos naquela relação, torcendo para que pai e filho vençam no difícil jogo dos afectos.

Mas Joanna regressa. Renovada, com um sorriso no rosto e confiança no olhar. E na sua recuperação, sente-se preparada para requerer o divórcio e a guarda do pequeno Billy. E é aqui que o filme marca a diferença. Muito provavelmente, com outro tratamento da história ou com outra actriz a encarnar o papel de Joanna Kramer, seríamos levados a tomar de imediato o partido de Ted. Afinal, durante quase todo o filme, foi a formação do seu papel de pai que acompanhámos, tendo ele amparado o pequeno Bully na ausência da mãe. Joanna seria a malvada que viria no final “estragar” o que Ted havia alcançado com tanto custo.

Só que, ainda que possamos ter pena da eventual perda da guarda de Billy por parte de Ted, a verdade é que não conseguimos ir contra Joanna. Provocar este efeito junto do espectador, sobretudo quando uma das partes esteve ausente durante grande parte do filme, é um mérito enorme. Ser arrojado desta forma e conseguir o respeito pelo Pai, mas também pela Mãe, num filme feito num formato tradicional, não está ao alcance de todos.

Joanna Kramer representa a mulher consumida e anulada por um casamento, relegada para o papel de mãe e de mulher de alguém, esquecendo-se simplesmente da mulher que era. Ao ponto de se afastar do próprio filho (a palavra “abandonar” é injusta no caso), num acto superior de humanidade, respeito e honestidade para consigo própria.

Este questionamento do papel da mulher no seio familiar e o reconhecimento dos seus direitos como igual, não sendo onde o filme se demora, é o que o torna memorável. Se Joanna não regressasse, o filme não deixaria de ser bom, mas perderia uma grande parcela do dilema moral que o alimenta.

A década de setenta estava a fechar e aproveitar a revolução dos costumes para, de uma forma convencional, explorar algo que o cinema até então não tivera coragem (no ano anterior, Uma Mulher Só, com Jill Clayburgh e mesmo Gente Vulgar com Mary Tyler Moore, no ano seguinte, voltariam a questionar o papel da mulher, na sociedade e na família) foi mérito de Benton (e eventualmente do autor do livro, Avery Corman), e de Streep.

Meryl Streep é de tal forma convincente como mulher ferida e destroçada que consegue recuperar-se e regressar para lutar pelo amor do filho, e sobretudo pelo amor-próprio, que (diz-se) Dustin Hoffman, ficou de tal modo com ciúmes da sua proeminência no filme (ele era uma estrela feita, ela uma em ascensão), que se zangou com ela durante a rodagem. Não voltaram a contracenar juntos. Ambos levaram óscares (actor principal e actriz cecundária).

Ainda que o desfecho seja sobejamente conhecido, não o revelarei, mas chegamos ao clímax final com um dilema interior. Cada espectador pode não ter uma posição neutra face ao que viu, mas o filme, e Joanna Kramer em particular, conseguem semear em nós um olhar diferente sobre o desenlace. Da primeira vez que vi o filme engoli em seco enquanto não soube com quem ficaria Billy, para celebrar o resultado. Mais tarde, deixei de o celebrar. Porque ainda que num divórcio possam existir vencedores, nunca é um jogo sem lesões.

Joanna Kramer lutou pelos seus direitos num tempo e sociedade que não lhe eram favoráveis. Ted também o fez, num meio mais confortável. Se hoje, quarenta e cinco anos depois, o mundo mudou no direito da Mulher, da Família e no superior interesse da Criança, também há ainda muito por fazer, na certeza de que existirão sempre feridas para cicatrizar. Celebrar o que evoluiu é um dever tão nobre como reconhecer o caminho que ainda temos pela frente.

Joanna Kramer traz-nos tanto neste filme, que não lhe conseguimos ficar indiferentes. Mais a favor ou mais contra pouco importa: não somos indiferentes à sensibilidade de uma mulher que deixou marido e filho, e que regressa para lutar pela guarda. Tendo esta breve descrição e, ainda assim, levar-nos a questionar, é a prova maior que este filme e sobretudo esta mulher fantástica, não foram só convincentes: foram reais. Não apenas durante os 105 minutos do filme, mas ao longo de meses ou anos de luta.

O poder da Arte, de um argumento, e de uma grande personagem vivida, como só podia ser, por uma grande actriz.

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