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CrónicasTecnologia

Ode ao dumper!

Conduzi um dumper pela primeira vez em 2006 num parque de agregados.

Um dumper é um camião articulado com capacidade de transporte e movimentação de grandes volumes de cargas pesadas. É usado para movimentar, usualmente, terras e escombro entre locais de difícil acesso, e existem vários e de diversos tamanhos, desde a caçamba até ao modelo em que só as rodas já nos fazem sentir umas formiguinhas. Quase todos nós já nos cruzamos pelo menos uma vez com um dumper, são presença habitual no lote de brinquedos das nossas crianças.

Ao contrários dos de brinquedo que podem ir aonde a imaginação os levar, os “a sério” não podem circular na via pública, e assim, naquele fim de tarde, empoleiramo-nos 4 pessoas na cabide e, com a supervisão de quem sabia, improvisamos uma corrida em jeito de gincanas por entre as pilhas de agregados, em que o importante era conseguir contornar as pilhas sem as pisar. A condução de dumpers tem o pormenor de que as rodas de trás acompanham o movimento do volante o que dificulta as manobras, principalmente para quem já tomou os vicios da condução automóvel.

Os primeiros veículos desta natureza terão surgido no século XIX para fazer face à necessidade dos fazendeiros de transportar material pesado.

Em 1905 terão surgido os primeiros exemplares a motor na Lauth Juergens e a Galion Buggy, tendo evoluído até aos modelos que conhecemos hoje.

Eu, desde as aulas de Mecânica dos Solos que babo por estes equipamentos (e também por motoscrappers).

Estes camiões têm uma estereotomia geométrica equilibrada e delicada, uma frente frágil (e fofa e querida como as Joaninhas), têm um jeito gingão de se movimentar, e são audazes e decididos a vencer as dificuldades que o trajeto a percorrer lhes impõe.

Os dumpers são uma metáfora do que aprecio no ser humano, das pessoas que admiro e por quem nutro um carinho intemporal, quer mantenhamos ou não proximidade emocional.

Um dumper, para mim, é mais bonito e elegante do que muitas peças de roupa ou carros de alta gama, do que o revestimento da última moda ou o pormenor arquitetónico do sicrano na mó de cima (mas é menos bonito que uma abóboda). Um dumper é tão bonito quanto as pessoas que ultrapassam a beleza artificial e aparente e que se expoem na plenitude da sua rudeza e fragilidade humana e que vão, mesmo com medo,  transpondo os obstáculos.

Um dia destes alguém me perguntava se eu não tinha saudades da minha antiga rotina, sim, tenho: saudades do cheiro a betão e da dança dos dumpers, ao que o interlocutor jocosos respondeu: “Deves ter, deves!”. Sim, tenho: da dança dos  dumpers nas descidas acentuadas para não derraparem e do esforço no sentido contrário, quer dos dumpers de carga quer dos dumpers humanos.

Que saibamos ser dumpers e acompanhar os nossos dumpers nos trajetos escolhidos e nas cargas transportadas, porque o que pensam os outros só interessa a quem anda ao sabor do vento.

Bom verão!

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