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As Ilhas

As ilhas são lugares de solidão e nunca isso é tão nítido como quando partem os que apenas vieram de passagem e ficam no cais, a despedir-se, os que vão permanecer. Na hora da despedida, é quase sempre mais triste ficar do que partir e, numa ilha, isso marca uma diferença fundamental, como se houvesse duas espécies de seres humanos: os que vivem na ilha e os que chegam e partem.

—  Miguel Sousa Tavares, in Equador

A minha primeira viagem de avião foi à Madeira. O batismo de voo é sempre um momento importante, independente do destino. Nunca tinha andado de avião e nunca tinha estado numa ilha, foi um dois em um. O voo da Portugália cumpriu o seu propósito, chegou direitinho ao destino e aterrou sem sobressaltos no então perigoso aeroporto do Funchal onde a pista terminava de forma abrupta mesmo em cima do mar e os pilotos faziam aterragens de travão a fundo! Lembro-me de ver a asa do avião completamente sobre o mar a virar para retomar a direção ao hangar do aeroporto, a excitação do momento impossibilitou-me de sentir medo ou perigo. A minha irmã comentou alguma coisa sobre a ocorrência, ao que pensei: “Que se lixe! Isto é fixe!”

Superada a prova do voo, o desafio maior veio a revelar-se depois: o estar numa ilha. A Madeira é muito bonita e tudo mais, mas a sensação que tive na Ilha da Madeira não voltei a ter em mais ilha nenhuma onde estive (já estive em muitas) e acreditem já voltei à Madeira e pude constatar que sinto o mesmo – claustrofobia e um sufoco incrível de ter a perceção de estar no meio do mar e não ter para onde fugir! O oceano é tudo o que rodeia a ilha, mesmo quando não se vê, sabe-se que está lá. Ao fim do segundo dia já só pensava no regresso a casa…

Depois da Madeira já estive em todas as ilhas Baleares, em algumas das Canárias, Cabo Verde e até nos Açores e nunca mais voltei a sentir o mesmo. Nos Açores conseguimos, no meio da ilha de São Miguel, ver o mar na parte de cima e na parte de baixo a noção de ilha é real ou um ilha como Menorca onde se vê o mar praticamente de todos os ângulos e que é minúscula comparada com a Madeira, no entanto não senti o mesmo o que senti na Madeira! Como referi, entretanto voltei à Madeira e apesar de não me ter sentido tão claustrofóbica não me consigo abstrair da sensação de estar no meio do mar sem grandes extensões de terra por perto por onde caminhar. A não existência de terra a perder de vista que neste caso é mar até perder de vista, não me acalma, deixa-me inquieta.

Talvez precise regressar mais vezes à Madeira para me harmonizar com ela ou continuar a visitar mais ilhas para ter mais referências e entender o que sinto no meio do oceano, quem sabe, seja essa a solução.

Photo by Tom Winckels on Unsplash

Sofia Cortez

Sofia Cortez marketeer por acaso, escritora em desenvolvimento e artista por vocação. Não existe uma linha condutora para a criatividade, só a vontade de criar. Entre os seus trabalhos estão uma Exposição de Croquis de Moda realizada 97 no Espaço Ágora, curso de desenho na Sociedade de Belas Artes em Lisboa, a participação em feiras de artesanato com o projeto: Nomes em Papel para crianças, um livro editado em 2018 “Devemos voltar onde já fomos felizes”, várias participações em coletâneas de autores em poesia e conto, blogger no blog omeuserendipity.blogspot.pt, cronista, observadora, curiosa com o mundo e aprendiz de todos os temas que permitam o desenvolvimento humano.

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