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Cheiura de Alma

Amantina tinha cerca de duzentos anos, embora não aparentasse mais de cem. Estava cega, enrugada e lenta, mas continuava com uma mente tão lúcida e activa como quando tinha trinta anos. Vista como a sábia da pequena aldeia onde tinha crescido, sabia muito do que se passava por baixo das estrelas, e muitos estavam em crer que sabia muito do que se passava por cima delas também. Pediam-lhe conselhos, bruxedos, curas, e nunca Amantina falhava.

Naquele dia, de manhã, assim que abriu os olhos, soube imediatamente que seria um dia diferente. Conseguia cheirar a diferença no ar. Sabia-o. Sentia que a alma estava um pouco mais cheia, como se lhe tivesse chegado ao espírito mais amor, mais sorte, mais vida. Como se fosse uma dor de ossos ou de cabeça, sentiu umas saudades imensas de ver as terras e as vidas iluminadas pelo sol, e, principalmente, de se ver ao espelho. Todos os dias, depois de lavar a cara com água fria, os olhos cegos fixavam-se em frente ao lugar onde ela sabia que estava o espelho. Tocava nele. Sentia o vidro, quase que podia tocar o seu próprio reflexo.

“Amantina!” ouviu a voz do Ricardo Jorge.

Obrigou um caminho às pernas vagarosas, tocando com as palmas das mãos nos móveis que já conhecia de cor. Força do hábito. Abriu a porta. O sol tocou-lhe brevemente na pele, só para ser tapado pelo corpo implorante de Ricardo Jorge.

“Diz, filho” sentou-se na cadeira de madeira que tinha sempre à porta de casa. Era ali que dava os conselhos, que conversava com as pessoas, que sentia a vida a passar – sentia os pés das pessoas a pisarem a terra, os gritos das crianças a brincar, sentia o vento quente do Verão, os insectos a esvoaçar nos seus afazeres de Natureza, as árvores a queixar-se, o sol a mudar de posição e a luz da lua a iluminar-lhe as pernas.

“Preciso da sua ajuda urgente” explicou-lhe ele. Ajoelhou-se em frente a ela, e colocou a cabeça no seu colo. Ela ouvia os nervos dele nas mãos que se coçavam e esfregavam, nos dentes que rangiam, na voz trémula. “Fiquei sem sorte, Amatina. Senti-o. Foi hoje, há uns minutos atrás. O meu copo ficou vazio, a sorte foi-se embora e como o ar num balão. Senti-o como se sente um choque. Como um arrepio. Como uma queda na realidade, quando finalmente compreendemos bem qualquer coisa, Amantina.”

Amantina tocou-lhe na cabeça. Teve curiosidade. Ninguém sabia, mas Amantina há muito que tinha descoberto que existem quantidades estipuladas de certas coisas durante toda uma vida. Um quantidade de felicidade, uma quantidade de sorte, uma quantidade de tentativas, tal como temos uma quantidade limitada de anos, de filhos, de ossos. É o destino. São as estrelas. É assim o mundo, a Natureza. A lagarta que vive pouco tempo como borboleta. E sabia que o que o Ricardo Jorge sentia era verdade. Tal como não percebia como é que ela, esgotada de sorte e de amor, tinha acordado naquela manhã com a alma a abarrotar.

“Filho, há muita gente que esgotou a sorte há muito. Vive na normalidade. E algumas até no azar.”

Ricardo Jorge começou a chorar. “Não sei viver no azar, Amantina. A minha mulher vai abandonar-me, o meu filho vai ficar doente, o dinheiro vai voar e as couves e as batatas não vão dar para me sustentar. Sempre tive sorte, nunca precisei de grande coisa, não sei viver no azar.”

Amatina explicou-lhe como se adaptar. Explicou-lhe como fazer acontecer pequenos milagres, como sentir gratidão nas pequenas boas coisas, como depender do esforço, como deixar de esperar que o mundo trabalhe por ele. Explicou-lhe que o azar só lhe chegaria se ele não se esforçasse por ser feliz, se se deixasse cair no desespero. Não havia motivo para desesperar e a vida continuava a ser bonita. Ela vivia assim há anos, há mais de cem anos, com a alma cheia de azar, vitalidade e sabedoria. As almas e os corpos têm mais do que aquilo que imaginamos, vivem com menos do que supomos.

“Não quer dizer que vás perder nada, filho. Só quer dizer que vais ter de te esforçar mais daqui para a frente. Só isso” finalizou o seu ensinamento e beijou a cabeça do rapaz.

Aquele era um dia diferente e ela teve tempo para pensar. Perguntou-se se a cheiura de alma que sentia teria sido às custas de Ricardo Jorge, e soube que sim. Perguntou-se o que lhe traria a sorte de novo. Doía-lhe a cabeça de pensar, de calcular, até de sentir alguma culpa pela forma de agir do Universo, de Deus, do Destino. Mas quem era ela para questionar o inesperado?

Decidiu dormir uma sesta depois de beber um chá de camomila – com aquela idade, alimento não era algo que importasse. Dormiu duas horas e sonhou com pássaros, com liberdade, com ondas bravas nas rochas. Durante o sonho, Amantina voltava a ver e brincava e tinha corpo de jovem. Era bonita, sem rugas e com uns olhos azuis enormes – embora, na realidade, sempre os tivesse tido castanhos. O cabelo esvoaçava e ela era feliz. Ainda a dormir, Amantina teve medo de morrer. Teve medo que aquele sonho e aquela felicidade significassem fim, mudança, morte.

Acordou banhada em medo, a tremer, com o suor a invadir-lhe a pele.

E não acreditou.

Correu até à porta. O sol da tarde bateu-lhe na cara e em vez de ver o mundo a branco, ela chorou. Conseguiu olhar para a cadeira de madeira na rua que a esperava fielmente durante todos aqueles anos; olhou para as pessoas que passavam apressadas em frente à sua casa – couves aninhadas nos lenços das cabeças, água em baldes que abanam e deixam cair gotas. Viu as borboletas e viu os beija-flor. Correu até à casa de banho e olhou-se ao espelho. Tocou no seu reflexo – sentiu, no reflexo, todos os poros da sua cara, todas as rugas da sua pele, todas as cores dos seus olhos. E chorou, chorou, chorou até se ver borrada, até ver o espelho por detrás de uma chuva. E riu, riu, riu às gargalhadas com a sua voz de jovem, com o seu espírito cheio.

A partir desse dia, e até ao dia em que morresse, Amantina nunca mais fecharia os olhos.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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