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Surrealista

Naquele dia, sentia-se um pouco surrealista. Tentava distinguir no ruído da sua vida as suas próprias mãos, que sabia serem pequenas demais para o seu corpo, e olhava-as como se as visse por primeira vez e não fizessem parte natural dela. De vez em quando, se ela não olhasse directamente e só apanhasse um pouco de luz com a visão periférica, parecia que as mãos eram só borboletas. Mas quando olhava com atenção, ainda só eram lagartas em crisálidas coloridas.

Numa sinestesia abstracta e confusa, ao chegar a um lago no meio de um deserto, começou a ver o cantar dos cisnes, enquanto os ouvia a cair do lago para o céu, numa morte azul e renascida. Fascinava-a esse som colorido de liberdade, e ficou sentada durante algum tempo naquele deserto, com os pés dentro do lado negro, encostada a uma grande cruz. Ouvia e ouvia e sentia, deliciada, como quem prova. Nunca se tinha sentido assim, naquele prazer inexplicável de quem só ouve. Fechou os olhos durante algum tempo, e sonhou com ovos gigantes partidos por cavalos que tinham pernas de aranhas. Abriu os olhos, aterrorizada. Levantou-se e correu, com medo de alguma coisa que ainda não conseguia distinguir. Com um apertão no peito e nos pés, como um presságio. Escondeu-se atrás de árvores nuas de folhas para não ser pisada por elefantes, tapando os ouvidos quando as melodias dos trombones se tornavam insustentáveis.

Quando chegou a noite, começou a chorar. Sentia que o presságio se tornava mais forte, consumindo-a por dentro. Sentia fogo a queimar a pele, mas estava gelada. A noite trazia o desespero dos castelos de areia destruídos, como se a criança também tivesse sido destruída com o castelo. Soluçou, de medo e de desconforto. Sentia-se perdida e confusa. Corria e olhava para a frente, para os lados, para trás. Bateu contra um gigante de gavetas no peito. Ele apontou-lhe a escuridão, como que pedindo ou dando ajuda, prostrado e vencido pelo sol. “Salva-te”, parecia dizer. Ela correu para a escuridão e sentiu que todas as máscaras lhe caíam e se partiam no chão, a cada passo que ela andava.

Só quando viu os relógios moles, derretidos pelo sol e pelo tempo que guardam dentro deles, é que se lembrou que tinha ido ao museu naquele dia. Devia ter caído num quadro de Dalí. Sentiu-se mais aliviada, e andou em direcção à única luz que distinguia no escuro. Se conseguisse sair, prometia-se nunca mais visitar um museu.

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