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Quase o fim

Sinto que é quase o fim, P. Não sei. É aquela a sensação de que algo está a acabar, sabes? Não sei o quê. Penso que possa ser eu.

Noutro dia, cruzei-me com um café que não via desde a infância. Bastou isso para ser aquela criança outra vez, ver as mesmas pessoas, sentir o mesmo sol, e soube de cor os ruídos, os cheiros, as vozes. Não entrei, continuei rua fora, mas com passos mais pequenos, olhos maiores, algo de inominável no peito.

Anteontem o choque de futuro foi tão imenso que explodi por dentro. Não estou a brincar, P. De repente fui maior do que o meu corpo, soube predizer o maravilhoso, os meus átomos lembraram-se de que todos somos feitos de milagres e eu expandi-me com o Universo. Deve ser isto que os pássaros sentem ao voar.

Ontem percebi que não me lembrava onde se acendia a luz na cozinha da minha antiga vida. Imaginei-nos logo envelhecer paralelamente, sem nunca nos encontrarmos. Vamos continuar no mesmo mundo, a viver ao mesmo tempo, mas estaremos muito longe do que éramos, as histórias que iremos contar serão diferentes e as memórias que nos farão sorrir não se irão tocar.

Nestes últimos dias tenho sentido a alma toda embrulhada.

Hoje estou triste. Não te quero dizer porquê: o que não sabemos demora muito tempo a explicar. É tão complexo que parece mentira e o que começamos a sentir acaba por não ser nada daquilo. E depois há um vazio, uma frustração. Somos seres desfasados. Prisioneiros na nossa própria casa e nem sabemos em que gaveta guardámos as chaves.

Está bem, tento.

Eu sei a teoria toda. Ninguém está inteiro, já todos fomos amachucados e descosidos e rasgados. É assim que nos vamos criando, com remendos e cortes e acrescentos que ganhamos com o tempo e o mundo e as pessoas – aquelas em quem encontramos e deixamos partes nossas. Podemos ser uma ideia sempre em evolução. Podemos ser a maior e mais importante construção da nossa vida. Podemos ser tudo e podemos ser nada, que é como quem diz livres. É assim que percebemos que não há chave, as portas da nossa casa sempre estiveram destrancadas, podemos sair e arejar.

Sei a teoria. Na prática, oscilo. Toco nos extremos com a ponta dos dedos, caio neles, voo para o lado oposto. Não dou com o ponto de equilíbrio. Preocupo-me demais com respostas, tenho sempre muitas perguntas. Preciso de sair e arejar, P. Procuro a porta às apalpadelas e não é porque está escuro; é porque não percebo como abrir os olhos.

Continuo a sentir que é quase o fim, P. Que até pode significar um princípio. Não sei, não sei nada. E principalmente não sei se volto. Se voltar, não serei igual.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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