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Crónicas

Perpétua

Parecia uma senhora normal, ou melhor, convencional, das que se intitulam donas de casa e que zelam pelos seus, marido e filho, mas, na verdade, era fora do comum. O nome não lhe assegurava a imortalidade, mas a sua maneira de ser, extremamente paciente, dava-lhe toda a razão. Nunca a vi enervada nem alterada. Sempre com ar sereno, de que não se passa nada e a vida é maravilhosa.

O marido era outra pessoa de enorme valor. Um belo corpo, bem tratado com exercício constante e um cabelo lindo, todo branco, que usava num penteado elaborado. Era bastante comunicador e culto. A sua grande paixão eram as antiguidades e, por esse mesmo motivo, as nossas conversas batiam sempre no mesmo, um passado com tanto ainda para descobrir.

O filho tinha-se casado duas vezes e continuavam a conviver com a primeira nora com enorme carinho. A segunda nora, uma mulher fascinante, das que faziam virar a cabeça quando passava, era bem mais velha que o marido, mas isso eram amendoins numa relação de muito amor. Perita em certos tipos de peças antigas, deliciava quem a quisesse ouvir falar sobre as mesmas.

A Perpétua gostava da mesma forma das duas noras que, para ela, eram as meninas que não teve e com quem podia trocar algumas confidências bem femininas. De facto, eram pessoas muito à frente para o seu tempo e davam grandes lições de relações humanas. Mais tarde a primeira nora, a que já não tinha ligação civil, cuidou do ex-sogro até à morte como se fosse um pai que se ama muito.

Um dia a Perpétua, uma senhora que trajava sempre saia e casaco com camisas de seda rematadas com laços ou com alfinetes cheios de símbolos, saiu de casa, como era seu hábito, mas levou um percurso diferente. Todos os dias ia às compras, sempre muito bem ataviada, de cabelo cheio de laca e sorriso de enorme simpatia. Dava um dedo de conversa em todos os locais onde passava e seguia rumo à sua casa.

Nesse dia algo de diferente aconteceu. Caminhou em direcção à ponte 25 de Abril. A pé. Ninguém a viu. Ninguém a deteve. Ninguém a olhou. Era um dia de semana, tal como os outros de sempre, só que a Perpétua ia com um propósito específico. Nada indiciava que aquele seria um dia fora do comum. Chegou ao seu destino, a parte mais alta da ponte e atirou-se ao rio. Os cálculos foram tão precisos que ficou no limite rio/água. Uma verdadeira tragédia.

Certamente que alguém a terá vislumbrado e deve ter ficado atónito com a sua pessoa. Quase de certeza que a viram atirar-se do tabuleiro, mas não tiveram reação devido à surpresa. Obviamente que foi em estado de choque que ficaram quando perceberam o que tinham presenciado. Um horror. Uma vida que se gasta assim, como se fosse uma folha sem valor. Um lixo.

Em casa deixou comida para uma semana, separada em caixas, com rótulos para os dias, roupa passada a ferro, que não queria que o marido ficasse mal dali em diante e a indicação da indumentária que queria para o seu funeral, ou melhor, para o seu enterro. No papel solicitava que não a chorassem, mas que a recordassem como sempre havia sido. Uma mulher íntegra e competente.

O marido ficou fora de si, desnorteado e perdido e o filho chorou como se ainda fosse uma criança. Tudo parecia bem, pensavam eles. Mas não. Ela sofria em solidão, todos os dias, por não se sentir como era. Há muito que tinha deixado de viver e apenas vagueava, com rumo, pelos caminhos do quotidiano. Deixou de se importar com os outros, o que tinha feito a vida inteira. Importou-se consigo e tomou a decisão.

Não se podem tomar as pessoas como garantidas. Nada é perfeito. Nos tempos que correm, o afastamento e a indiferença são cada vez maiores e a falta de amor, do verdadeiro, faz com que as emoções se calem e que as pessoas deixem de ser humanas. Tudo errado. Muitas das vezes aqueles que parecem mais fortes, estão ainda mais frágeis que aqueles que costumam apoiar.

A Perpétua morreu num dia de sol. A sua vida já estava muito seca e árida. Deixou saudades e boas memórias. Até na morte foi eficaz e profissional. Era um fato de saia e casaco em tons de verde seco. Os brincos de esmeraldas continuavam no mesmo sítio, a enfeitar-lhe o rosto. Uma esperança que tinha acabado de morrer. Sorria.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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