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ContosCultura

Um narrador embriagado invade esse estrangeiro que é o outro

Ocupei o trono do narrador e criei um país de marginais, de putas e de despenteados infodíveis. Desde então, as casas que escrevo têm servido de abrigo a esses muitos que nunca terão lugar na mesa dos crescidos.

Bem sei que, aqui no lugar do contador, me competiria a função de me sumir por detrás de um qualquer ambiente mundano, mais ou menos soturno, onde pairaria sobre a vida uma qualquer personagem, de maior ou menor densidade sociológica. Já lá vamos, o cânone nunca me serviu.

O narrador se confessa: interessa-me, sobretudo, a satisfação desse divino capricho da omnipotência. Olho de cima o país que fiz, a gente escorraçada que nele dança, o baile descompassado da roupa nos estendais. Fixo uma casa engavetada num prédio escuro, que esconde?

Toco a parede, rasgo o betão com o indicador, a custo abre-se uma fresta, espreito. Aí está o Mendes, um tipo feio, gago, nervoso e sujo. Poucos são os que lhe conhecem a voz — para o Mendes, o mundo quase sempre acontece por dentro, solitariamente.

O trabalho maquinal na fábrica, muito repetitivo, tão repetitivo, demasiado repetitivo, torna-se-lhe suportável quando timidamente vislumbra a sensualidade carnal de Mel, dos recursos humanos. Sonha-lhe o corpo despido, a temperatura quente da pele, a boca aberta contra a sua.

Encontro-o na quietude do seu apartamento cavernoso e húmido. A luz estreita escorre do pequeno candeeiro pela parede abaixo, alumiando tenuamente a tela que repousa no chão. Pinta com o corpo todo, como se desse gesto dependesse a solidez do mundo.

Lentamente, desenha Mel. Vai-lhe descobrindo os contornos e as arestas à medida que um corpo nu emerge das pinceladas cruas e hábeis. Procura-a no carrossel das cores. Mendes é um artista prodigioso, sujo e apaixonado — um dos bons, portanto. Afasta-se, contempla o quadro inacabado, sonha.

Ainda abertos, os olhos esvaziam-se para dar lugar à fantasia. Os corpos naufragados um no outro, unidos pela sensibilidade dos sexos, contorcem-se numa bebedeira de sedução. Elevados ao Olimpo, atiram gritos contra as paredes — eis a substância primeira da poesia. Depois, um silêncio doce e transpirado.

Aqui, neste lugar de quem tudo pode, facilmente concretizaria o devaneio do pobre Mendes. Bastar-me-ia abrir um fantasioso portal nessa tela em que se debruça e forjar um encontro mágico de onde brotaria uma pujante história de amor. Acredito que o leitor apreciasse.

Porém, não me fiz deus deste país para me arrogar ao direito de corrigir o mundo. Serve-me o despotismo da narração apenas para poder falhar com estrondo. Se procuravam um deus que vos inspirasse, continuem à procura. Nunca encontrei nenhum.

Depois de se masturbar, o Mendes percebeu que as janelas da casa estalavam ao ritmo das chapadas de chuva. Encolhido de medo, voltou ao retrato. As noites de tempestade sempre o aterrorizaram. Mergulham-no numa insuportável insónia amarga e azul, mas despertam-lhe o génio criativo.

Nessa noite, fiz trovejar.

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