Inês não é morta
Diz o provérbio: “Não vale a pena chorar sobre o leite derramado”. A sabedoria popular ensina-nos que, após perdermos algo, não adianta lamentarmo-nos. O que está feito, está feito. Mas existe outra expressão, também usada para se referir a situações irreversíveis — embora com um peso trágico maior: “Agora Inês é morta.” Tão famosa e cheia de meandros como Romeu e Julieta, a história do amor proibido entre Inês de Castro e Pedro embrenhou-se no imaginário popular e tem sido contada por gerações, chegando ao Brasil. Foi aqui, tão longe de Coimbra, onde Inês morreu, que eu ouvi esta frase pela primeira vez.
Ao contrário do tom leve e universal do provérbio do leite entornado, a frase “agora Inês é morta” vem mergulhada em tragédia. É uma sentença definitiva, uma espécie de epitáfio, transformado em ditado. Poucos sabem que ela nasceu de uma história de amor e morte da realeza portuguesa.
Inês de Castro era apenas uma dama da corte quando se apaixonou por D. Pedro, então príncipe de Portugal. O amor deles nasceu secretamente, enquanto Pedro era casado. Ao enviuvar, em 1345, o Príncipe passou a viver publicamente com Inês, o que escandalizou a corte e enfureceu o pai, o rei D. Afonso IV.
A história, como se sabe, não terminou bem. Em 1355, Inês foi assassinada por ordem do rei. A lenda conta que as suas lágrimas, derramadas no momento da morte, deram origem à Fonte das Lágrimas, em Coimbra. As algas avermelhadas que existem ainda ali, seriam o sangue de Inês, manchando a água do rio.
Ao saber do crime, D. Pedro ficou inconsolável. A mãe, D. Beatriz, tentou conter-lhe a fúria. E foi então que, resignado — ou apenas impotente diante do irreversível — ele teria dito: “Agora Inês é morta.” Nada mais podia fazer. O amor da sua vida partira para sempre.
Porém, em 1357, quando o pai morreu e Pedro herdou a coroa, ele decidiu que podia fazer justiça. Iniciou uma caçada implacável aos assassinos e, ao capturá-los, mandou arrancar-lhes o coração — literalmente. Um castigo simbólico, macabro e proporcional à dor que sentia.
Além disso, alegando que tinha casado em segredo com Inês, mandou exumar o seu cadáver, coroando-a rainha e obrigando os nobres da corte a beijar-lhe a mão. Quem se recusasse, pagaria com a própria vida. Foi a única coroação póstuma de uma rainha em Portugal. Depois, mandou sepultá-la no Mosteiro de Alcobaça, de frente para o túmulo que ele mesmo ocuparia quando morresse.
Camões n´ Os Lusíadas, eternizou a tragédia em verso:
“…Aconteceu de a mísera e mesquinha,
que depois de ser morta foi rainha…”
Ao longo das nossas vidas, estamos em constante luta contra pensamentos do tipo: “eu deveria ter feito”, “eu não deveria ter dito” … Mesmo sabendo que não podemos mudar o que aconteceu um segundo atrás. O tempo não retrocede. As oportunidades passam. A resiliência, um conceito frequentemente abordado em livros de autoajuda e psicologia, é a capacidade de recuperar e seguir em frente, fundamental para a saúde mental.
Diante da dor irreparável, o rei tomou uma decisão tão bizarra quanto compreensível: homenagear Inês da única forma ainda possível. Não podia trazê-la de volta, mas podia impedir que fosse esquecida. Nesse gesto, há algo de resiliência. Uma recusa em aceitar que o amor morre com o corpo. Pode parecer loucura, sim. Mas também pode ser visto como o ato mais radical de amor já registado na história: uma tentativa desesperada de eternizar Inês contra o esquecimento.
Talvez muitos de nós, no lugar dele, quiséssemos ter o mesmo poder: o de reescrever a história com a força do amor, mesmo que já seja tarde demais…
D. Pedro fez a Inês uma declaração póstuma de amor eterno.
Pedro não deixou Inês morrer na História. E nós continuamos a falar dela.
Reprodução da pintura de Paula Rego, Inês de Castro, 2014. – The Women’s Art Collection and the artist’s estate, UK
Nota: Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.