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Sociedade

Redes (a)sociais

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Algumas das coisas pelas quais seremos lembrados no futuro, quando arqueólogos e historiadores refletirem sobre o nosso tempo, são as redes sociais. Aquelas bolhas onde podemos ser quem não somos, viver a vida que não temos e mostrar uma autenticidade adulterada; aquele mundo de sombras que acreditámos ser real.

Este não é um assunto que novo e não é uma visão condenatória do que representam o mundo das redes sociais. Já escrevi um pouco sobre as redes enquanto elemento da sociedade do espetáculo e enquanto espaço de produção em série de conteúdos que, num jogo de sombras, se agiganta a cada instante como uma bola de neve.

Se há quem diga que as redes sociais não são boas nem más, que tudo depende do uso para o qual lhe damos, também é verdade que alguns fenómenos mais extremistas se acentuam com elas. Afinal, já não existem duelos pela honra e no conforto do sofá ninguém consegue me atingir. Veja-se, por exemplo, a cultura do cancelamento que julga tudo e todos ao velho modo do faroeste. Nada foge ao ímpeto de uma multidão que cegamente avança sem saber muito bem para onde.

Não interessa muito se essa pessoa foi julgada e o juiz sentenciou a culpa ou a inocência. Aquela pessoa que caiu em desgraça, ainda que por um boato, tem de ser removida, bloqueada, enfim, tem de ser cancelada.

Este cancelamento tem a habilidade de não se restringir ao tempo presente, como também avalia o passado. A História tem, necessariamente, de ser analisada com os valores pelos quais nos guiamos (tudo o que se desvie deste princípio, é ideologia dos reacionários retrógradas); os personagens, longe de serem contextualizados nos princípios que deram forma à sociedade em que estavam inseridos, são julgados de arrastão pelos padrões atuais. Alguma semelhança com a Inquisição do século XVII conseguir tirar um morto ao descanso tumular para o julgar e condenar, são meras coincidências.

Não interessa muito se o Pe. António Vieira lutou a favor da libertação dos índios da escravidão, no final do dia, ele pertencia a uma Companhia que recorria a escravos e, por isso, a sua estátua no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, tinha de ser vandalizada. Mais que não seja para mostrar que aqui também conseguimos pintar estátuas em sinal de protesto, como acontece nos EUA. Como continua atual Eça, na fala de João da Ega…. Do mesmo modo que a escravidão não começou com as explorações marítimas europeias, tampouco este padre advogou a escravidão.

A cultura do cancelamento não começou, certamente, com as redes sociais, porém é um fenómeno que cresceu exponencialmente à boleia das mesmas. E esta cultura do cancelamento acabou por acentuar algo que as redes deveriam prevenir: polarização. A sociedade deixa de ser inclusiva e passa a ser dividida entre os Nossos e os Outros. Primeiro porque os algoritmos que escolhem o que vemos nos impele a ver conteúdos semelhantes, que aliado à tendência que temos de ver e ler preferencialmente conteúdos que concordem com as nossas crenças, nos isola em grupos incomunicáveis. Por outras palavras, temos tendência a dar prioridade a informações que confirmem as nossas opiniões e os algoritmos das redes sociais estão programados para nos “alimentar” com os mesmos tipos de conteúdos.

Afinal, com as devidas e justas exceções, há a exaltação do egoísmo (mesmo naqueles vídeos nos quais os produtores de conteúdos expõem sem-abrigos com um dia memorável ou com a oferta de 1000 dólares[1]). Tudo se centra à volta do Eu. Se eu não gosto que me contrariem em algo que é demasiado evidente para mim, então elimine-se! É mais importante como me sinto e não tanto o facto concreto, criando um tipo diferente de verdade: a pós-verdade. Aliás, o facto é que a maioria das redes assenta em reações dos utilizadores. E isto leva a uma superficialidade das causas sociais e trends que são lançadas nestas redes.

Porque foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem,

– José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira)

[1] Neste caso, o argumento do género: “Mesmo que de forma egoísta, ajudam” é insuficiente. Estarão mesmos a ajudar aquela pessoa? Qual a mudança que eles conseguiram produzir para elevar o nível de vida daquela pessoa? E a ajuda que tenha sido dada legitima a exposição pública, ainda que consentida? Em troca de quantas visualizações, que se converterão em dinheiro para o produtor de conteúdos, vale esta exposição?

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Davide Morais Pires
Cresceu no campo a pensar na cidade e agora que está na cidade só pensa no campo. Apreciador de café, mas isso não quer dizer que sonegue um bom chá, preferencialmente preto, para iniciar uma conversa interessante. É aluno de mestrado em Relações Interculturais e autor do livro Ecce Homo, editado por Poesia Fã Clube.

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