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Tecnologia

A minha vida por um Like

A cada instante uma notificação surge nos ecrãs dos nossos telemóveis de aplicações como o Facebook, WhatsApp, Instagram ou, mais recentemente, do TikTok. O conteúdo é quase sempre o mesmo: alguém partilhou algo. Quando não se trata de ver quem nos enviou algo, procuramos por notificações que indiquem quantas visualizações teve a fotografia que tirámos à beira do rio, enquanto, ao longe, o Sol se vai ocultando no horizonte ou das belas paisagens que umas pessoas que seguimos captaram ao fazerem rota da Nacional 2.

Nenhum destes momentos se dá sem qualquer influência da rede social que escolhemos. Para uma “verdadeira” fotografia de pôr do Sol que atraia mais likes, há um filtro para melhorar; para ocultar algum estilo de pele ou marcas que não são esteticamente ou socialmente apreciados, existem filtros que nos ajudam a “melhorar”.

As redes sociais podem dividir-se, grosso modo, em dois grandes grupos: consumidores e produtores. Os consumidores são a imensa maioria dos utilizadores que estão dispostos a seguir celebridades, páginas de notícias ou outros perfis; no outro lado, existem os produtores de conteúdos.

Onde existe um grande número de consumidores existe, consequentemente, um grupo de produtores. Há quem lhe prefira chamar influencers ou social influenciers, até porque dá um tom mais neutro. Mas será mesmo neutra? De um modo ou de outro, todos sabemos que as redes sociais não são apenas mais uma forma das pessoas se encontrarem. As redes sociais são, afinal, mais um meio da sociedade do consumo nos alimentar com mais conteúdos.

Se a análise crua do funcionamento das redes sociais se revela desta forma, como é possível, então, haver tantos utilizadores dispostos a seguirem ou a adicionarem pessoas que não conhecem?

Guy Debord ao explicar o Maio de 68, defendeu que vivemos numa sociedade do espetáculo, na qual a realidade é mediada por imagens. O espetáculo que carateriza a sociedade passa pela construção de uma realidade (falsa), através dessas imagens, e ergue-se como um todo coerente que cresce à medida que mais consumimos e que nos separa da realidade concreta porque nos alienamos na contemplação deste objeto.

Vivemos numa sociedade onde a aparência conta mais do que a realidade. Estatísticas indicam que em 2020 cada pessoa passou, em média, 145 minutos em redes sociais e o Facebook é a aplicação em que mais tempo se passa; as mesmas estatísticas dizem que metade do tempo que se passa ao telemóvel é consumido em aplicações de redes sociais. De cada vez que abrimos o Facebook ou Instagram porque temos 5 minutos de tempo livre, acaba muitos minutos depois quando nos apercebemos que passámos 30 minutos. Este é um dos exemplos de como se cria o alheamento da realidade concreta em que nos encontramos porque ficámos a contemplar uma realidade em que apenas as coisas boas aparecem e tudo é perfeito; onde tudo está bem porque acabou bem. Quanto mais tempo se passa mais o espetáculo nos circunda e mais em função dele vivemos.

Adicionamos pessoas que vão ao encontro do nosso imaginário de como o mundo deve ser, através de uma sociedade consumista que nos bombardeia constantemente com conteúdos para consumo imediato. E vamos partilhando ou criando mais uma publicação porque temos de aparecer para existir e para existir a rede alimenta-nos com mais conteúdos. E quem não queremos que apareça, simplesmente bloqueamos, num ato simbólico de purificação do nosso mundo construido conforme os nossos interesses e à nossa semelhança.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

Davide Morais Pires

Cresceu no campo a pensar na cidade e agora que está na cidade só pensa no campo. Apreciador de café, mas isso não quer dizer que sonegue um bom chá, preferencialmente preto, para iniciar uma conversa interessante. É aluno de mestrado em Relações Interculturais e autor do livro Ecce Homo, editado por Poesia Fã Clube.

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