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CrónicasTecnologia

Palco, holofotes, fogos fátuos e pequenas verdades de bastidores

Na democratização da net, surgiram páginas dos mais variados teores, entre eles a escrita, quer na sua forma mais informativa, opinativa ou criativa.

Fruto da arquitetura das mesmas, a divulgação é de alguma forma estimulada, sendo através do convite dos amigos, seja da partilha do link, ou mesmo do pagamento de promoção,  para que  consiga abranger um universo maior. Nesse contexto, surge também o conceito de seguidor, que é como quem diz, aquele que acompanha a evolução da página e seus conteúdos de forma fidelizada. Em certas situações, é até atribuído a estes determinado estatuto, visível para o público, como sendo fã principal ou classificação análoga, que manifesta forte correlação com a página.

Parece-me óbvio que quem escreve publicamente não o faz para si próprio. Se assim fosse, não o partilharia, como provavelmente não partilhará tudo aquilo que escreve. Se opta por publicar, é porque considera que, de alguma forma, tem alguma mais-valia, qualidade ou o artigo poderá ser útil a alguém. Não querendo pensar que o faz para cumprir calendário, porque a liberdade de escrever quando e o que quiser é o maravilhoso apanágio dos não profissionais, tenho em crer que quando se opta por partilhar com o mundo, obviamente quer ser-se lido. Mais que lido, apreciado. Concordem ou não, que tenham a coragem de enfrentar as letras que se espraiam pelo monitor ou ecrã abaixo. Que leiam de fio a pavio. Que pensem. Que reflitam. Que discordem, eventualmente. Que se manifestem. Que se incomodem. Enfim, que reajam.

E é aqui que, como diz o povo, a porca torce o rabo. Continuando no linguajar popular, mais vale ser que parecer.

Eu própria tenho uma página. Evidentemente que senti alguma satisfação enquanto a página foi crescendo até aos estáveis 12.000 e muitos seguidores, onde permanece sem grandes avanços nem recuos. Sem dúvida que em tempos, na ingenuidade dos números, divulguei entre amigos e em grupos análogos. Até que, eureka,  percebi a pobreza que esse critério demonstra. Efectivamente, quantos colocaram gostos porque eram família ou amigos para “ fazer o jeitinho”, ou quantos destes vieram da promoção paga, ou pior, quantos destes o fazem em troca de um acto recíproco na página deles? Ou porque gostam das fotos que acompanham o texto sem sequer o ter lido? É um indicador de mérito, por si só? Não.

Facilmente conseguiria aumentar o milhar, se por exemplo, me desdobrasse em perfis diversos ou se pagasse promoções. Ou se me dedicasse ao bombardeio de mensagens aos amigos com todo e qualquer artigo, procurando à força que me comentem ou apreciem. Mas não me importa, nem tenho feitio para tal. Prezo muito a minha identidade e não vou desperdiçar dinheiro para olhar embevecida para um número que, como aqueles que pagam para ter amor (leia-se sexo), só têm porque o pagaram, embora prefiram esquecer-se de tal…

Se  fosse profissional, se  tivesse uma rede de marketing, provavelmente seria bem mais agressiva. Não sendo, e rendendo-me à minha dimensão, prefiro ter seguidores que de facto me leem, escreva eu sobre batatas ou sobre viagens, que me abordam com mensagens, que têm opinião, que leem nos meus tons ou temas as alterações do meu pensar. São um nicho? Um microcosmos? São. Mas são esses seguidores que me importam.  Sou conhecida na minha pequena rua, e sou feliz com os que me leem, muito longe dos 12.900 que a minha pagina assinala. Mas que me interessaria seguidores que não me lessem?

A ambição desmedida, o orgulho ridículo de se enaltecer com números, pode ter consequências ainda mais graves do que isso. Querendo, é fácil arranjar  seguidores ou chamar a atenção. Basta falar sobre algo polémico, ou colocar uma imagem apelativa,  sexo, então, é garantido. Contudo, que identidade existe num escritor que escreve o que querem ler, e não aquilo que quer efectivamente partilhar e lhe diz algo? Que beleza existe na análise estatística dos temas que saíram mais populares (leia-se com mais gostos, partilhas ou interações), de forma calculada e planeada para a deliberada caça ao manifesto popular?

E aí, então, é o descalabro total.

Hoje em dia consegue-se obter uma série de indicadores que vão muito além daquilo que é dado a ver ao olho do leitor. Nos bastidores dos sites é possível perceber, com acuidade cirúrgica, quem efectivamente leu o artigo, quem só o abriu, ou quem nem sequer o fez. Se pensam que toda a gente que pôs gosto, partilhou ou comentou, leu de facto o artigo, desenganem-se. Mais uma vez, a massificação aparente não espelha o leitor do outro lado. Com papas e bolos…

Penso que já aconteceu a todos, verem comentários nas mais diversas publicações com desenrolares que em nada se relacionam com o texto. Poderá ter a ver com uma dislexia ou desatenção, mas muito provavelmente as pessoas opinam sem ter lido o artigo integralmente, ficando-se pelas gordas, ou pelos títulos sugestivos. Já me tem acontecido, nos meus próprios artigos, os melhores comentários e leituras efectivas serem feitos porque quem nem sequer pôs gosto ou nem sequer comentou publicamente. Ou seja, sem entrarem na contagem aparente.

A preguiça da leitura extensa é inerente à internet, para não dizer que infelizmente é um mal que extrapola para os artigos físicos.

É amplamente aceite que a comunicação na net deve ser curta, directa. Que não se tem tempo, que é tudo rápido e os 15 minutos de fama encurtaram para segundos em que a primeira impressão, a primeira imagem na retina, fica ou não na mente do leitor. Mas como disse, não sou profissional, e resguardo o meu direito de escrever sobre o que me importa, sem pensar nas massas que obviamente não me lerão.

Se chegaste até aqui, agradeço-te. Ponhas ou não gosto, comentes ou não. Brevemente saberei quantas leituras efectivas este artigo teve, e não apenas quantos clicaram ou se manifestaram. Mas de  ti, meu seguidor nos bons e maus temas, que me vais acompanhando ao longo deste caminho, já sei que falaremos, longe dos holofotes e dos falsos e espampanantes fogos-fátuos.

Até logo, então. Fica bem.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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