Sempre existiram as chamadas teorias da conspiração, boatos ou, modernamente apelidadas, fake news. Este fenómeno atingiu proporções consideráveis no decorrer desta pandemia.
Temos os médicos e enfermeiros pela verdade e outras variadas profissões pela verdade. Mensagens são partilhadas (até o WhatsApp dizer que aquela mensagem já foi partilhada muitas vezes) com informações de “quem está por dentro”; um amigo de um amigo que trabalha lá ou imagens de uma veracidade que não é possível desmentir.
Vi, recentemente, numa rede social uma mensagem que apelava à sensibilidade com a seguinte frase: as crianças são a linha vermelha, numa clara alusão à oposição ao processo de vacinação se estender às crianças. Com toda a informação disponível, porque continuamos a preferir acreditar em conteúdos que não são fidedignos? O facto de ninguém acreditar numa verdade absoluta, porque há sempre um ponto de vista diferente, não é suficiente para explicar este fenómeno. Continuamos a acreditar em notícias falsas e boatos selecionamos a informação com base em filtros de gosto pessoal.
Se é verdade que o fenómeno das fake news não é recente – quem se lembra, apenas para dizer um exemplo, de que os comunistas eram temíveis porque comiam bebés? -, por outro lado, é verdade que atingiu proporções consideráveis na atualidade que não seria possível no passado. Não, porque as pessoas sejam mais ou menos inteligentes, mas porque vivemos num mundo do imediatismo, onde não interessa muito a veracidade do que vejo, mas o que sinto com o que vejo. Ou seja, é mais provável que procure informações que vão de encontro ao que acredito do que o contrário. E este é a grande estratégia dos conteúdos e anúncios “personalizados” que as redes sociais, mas também os media apostam para nos entreter.
Nunca como hoje se teve tanto acesso a informação e, ainda assim, vivemos em bolhas cerradas, onde o contraditório não entra. Se por um lado, filtramos a informação de acordo com as nossas preferências, também é verdade que, não apenas as redes sociais, mas os meios de comunicação contribuíram para este processo. Por mais que se procure a isenção, os meios de comunicação são empresas e as empresas precisam ter lucros para conseguirem sobreviver. Assim, as notícias mais extravagantes como um condutor de reboque que foi baleado por um idoso ou um médico que foi condenado por violação têm mais projeção mediática do que outro género de notícias. São os clickbaits que fazem tráfego online não outro critério.
Outro facto que alimenta a propagação das fake news assenta na falta de credibilidade nas fontes “oficiais”, ou por outras palavras, a perda de confiança e credibilidade nas fontes. Com a revelação dos esquemas de corrupção e a divulgação dos interesses privados em diversos meios, ensacam-se todos no mesmo plano. Afinal, Fulano, por pertencer a determinado partido, claramente decidiu “abafar” o assunto; ou o “claro” favorecimento de determinada pessoa pela relação de proximidade com alguém influente.
Mais do que criticar quem acredita em fake news é necessário entender que este fenómeno esconde uma realidade que nem sempre queremos ver: preferimos buscar fontes que se coadunem com as nossas crenças porque isso nos faz sentir seguros e em coerência com uma imagem que construímos da realidade em que nos inserimos. E é o que sinto que prevalece sobre a veracidade de determinada fonte. Por outro lado, a falta de confiança nos meios que tradicionalmente filtravam, de forma imparcial, estimula a viragem para meios “alternativos” onde são partilhas as verdadeiras notícias sem medo.