A presença dos ecrãs, da internet e das novas tecnologias na vida contemporânea é incontornável. São instrumentos de trabalho e objetos de lazer. Estão sempre no quotidiano de miúdos e graúdos. Contudo, tanto para uns como para outros, a sua utilização excessiva tem consequências para a saúde física e mental, algumas delas bastante danosas.
Por exemplo, sabemos que existe o risco de adição. E porquê? Tal como o contacto com outras substâncias (entre elas o açúcar e a cocaína) a exposição a ecrãs, de forma repetida, leva à existência de um ciclo de prazer e recompensa. Esta situação provoca a libertação de dopamina, uma substância química que está ligada ao sentimento de bem-estar. A dopamina «habitualmente referida como a “hormona da felicidade” ou de “sentir bem”, […] é o neurotransmissor responsável pela sensação de recompensa, prazer ou excitação.»[1] Assim, é “normal” que se queira repetir a experiência para que se consiga reviver esse sentimento.
Vivendo numa sociedade consumista, alimentada pelo marketing, o mercado infantojuvenil é muitíssimo apetecível e as empresas da área aproveitam-se da dependência dos ecrãs, potenciando até a sua utilização. As campanhas direcionas para esta faixa etária promovem os produtos que os mais jovens gostam e, por outro lado, os próprios algoritmos das redes sociais e da utilização da internet fazem chegar até eles – e até aos adultos – os produtos que mais apreciados com uma facilidade tremenda. Cria-se a necessidade de consumo, estimulada por um estilo de vida onde a aparência é praticamente tudo.
No entanto, há que estar atento não só às consequências mas também à forma de as evitar. A literatura científica e as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertam para se evitar a exposição a ecrãs de crianças até aos dois anos. A partir dessa idade a utilização deve ser gradual e monitorizada. A supervisão dos conteúdos digitais a que as crianças têm acesso, a duração e o limite diário de utilização da internet e dos aparelhos eletrónicos são essenciais. A adequação destes aspetos consoante a idade do utilizador irá permitir que a criança não se sinta excluída do mundo em que vive. A existência do controlo parental é essencial para a promoção do equilíbrio.

A psiquiatra Vera Ramalho recorda o aumento do tempo que as crianças abaixo dos oito anos passam nos dispositivos móveis e tablets. Triplicou nos últimos quatro anos. Sublinha, inclusivamente, que «o desempenho académico fica comprometido, mas também a vida pessoal e familiar: a criança pratica menos atividade física, deixa atividades antes valorizadas e o convívio com a família para jogar ou para estar no tablet/telemóvel.»[2]
Por outro lado, o Portal da Saúde refere que «o uso excessivo dos dispositivos eletrónicos e da internet está associado a um aumento da solidão, depressão, ansiedade, cyberbullying, dificuldades de sono e problemas comportamentais. A hiperatividade, a ansiedade, a depressão, as perturbações da imagem corporal e a baixa autoestima surgem pela exposição a conteúdos negativos e violentos, bem como pela comparação excessiva com os outros.» [3] Menciona também que o tempo excessivo passado nas redes sociais conduz «ao isolamento social, pela falta de interação social face a face; problemas de sono, pela exposição excessiva à luz do ecrã, e a sentimentos de dependência.»[4] E, obviamente, os grupos de risco são os mais jovens: crianças, adolescentes e jovens adultos.
A grande questão está no equilíbrio da utilização que fazemos destes aparelhos. Um documento redigido e divulgado pela Ordem dos Psicólogos portugueses refere que «a utilização de ecrãs pode, simultaneamente, representar “o bom, o mau e o vilão”».[5] E é nesta lógica que se deve equacionar o tempo e a forma de interação com televisões, telemóveis, computadores, tablets e outros dispositivos do género. Para que os ecrãs possam ter benefícios, devemos priorizar a qualidade dos conteúdos, em vez da quantidade de tempo que despendemos com eles.

No caso específico das crianças e adolescentes é importante sublinhar que a interação com os adultos e entre pares é fundamental, pois é através do convívio com as pessoas que melhor crescem e aprendem. Se é através do exemplo que as crianças aprendem, como podem ter a iniciativa de ler um livro ou praticar exercício se os seus cuidadores não o fazem?
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.
[1] https://www.cuf.pt/mais-saude/dopamina-e-serotonina-que-hormonas-sao-estas
[2] https://revistaspot.pt/psiquilibrios-impacto-da-tecnologia-na-saude-mental-das-nossas-criancas/
[3] https://revistaspot.pt/psiquilibrios-impacto-da-tecnologia-na-saude-mental-das-nossas-criancas/
[4] https://revistaspot.pt/psiquilibrios-impacto-da-tecnologia-na-saude-mental-das-nossas-criancas/
[5] «Vamos falar sobre ecrãs e as tecnologias digitais. Informação para pais, mães e cuidadores/as», Ordem dos Psicólogos, maio 2024.