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A vida feita em palavras

Tem vezes que a vida só é feita de cansaços. Aos que escrevem, dizem, nunca lhes faltam as palavras.  Mas faltam. Não só nos dias seguidos, quando se carregam as casas às costas mas também em todos os outros, em que a carga se requer mais leve.

As palavras não saem. No que queremos dizer aos outros e não dizemos. No que achamos que é uma injustiça mas engolimos e as ideias não se revoltam. No que dizemos tudo ao contrário do que realmente queríamos dizer. No que as palavras explodem e se soltam, doidas, sem percebermos muito bem de onde vieram e nos encolhemos ao perceber no que é que vão dar.

As palavras são assim. Têm uma certa vida própria e são de uma força e brutalidade surpreendentes. Talvez, por isso, quem escreve as tente arrumar de forma mais lógica (pelo menos, no que parece, a quem as põe no papel e no ecrã). Transparece, esta ideia de arrumar palavras, na tentativa de se manter uma certa sanidade mental, até porque, não se sabe fazer as coisas de outra forma.

Aos que a alma não escolheu a escrita, outras formas de orientação imperam. Na arte maravilhosa de se fazer bolos decadentes e deliciosos, quando achamos que a cabeça vai explodir de raiva e para calar as palavras que não deixam de nos remoer a cabeça. No movimento elegante do corpo, que segue a música que impera e ensina que há outras formas de se exprimirem ideias. Ou quando se corre com os filhos, pela praia, porque já não há palavras que cheguem para lhes dizermos o quanto os amamos.

Faltam-nos, tantas vezes, as palavras. Outras tantas que não podemos dizer o que realmente gostaríamos. Muitas mais em que já não vale mesmo a pena dizermos mais nada.

Na parte em que vos falava da fase dos cansaços, trouxe-me a memória que, por muito que acredite que tudo tem um porquê e que existem sincronicidades (sim, acredito), nem sempre a vida nos traz palavras muito bonitas. Às vezes traz-nos desespero, descrença, tristeza, partidas, acusações, humilhações. Não são coisas lá muito bonitas de se dizer.

Mas a questão é que acredito em todas as ideias. Em todas as emoções. E, perdoem-me a repetição, em todas as palavras.

Não acredito em falsas ilusões de que devemos ignorar que estamos a viver fases mesmo ranhosas (ora aqui está uma daquelas palavras), com a desculpa de que se ser forte é se ignorar o que se sente. Nem sigo a crença de que com fórmulas certeiras, vamos viver uma vida fantástica, sem problemas ou contradições.

A vida é mesmo isto, feita de medos e dúvidas e mergulhos internos que, muitas vezes, não são os melhores nem os mais ternos. Mas também tem a habilidade de nos surpreender quando achávamos que o peso já era tão grande, que iria durar uma amarga vida inteira.

Tanta coisa por dizer que não se disse. Tanto que se quer dizer e não se pode. E se a vida se acaba? Ainda há palavras?

Carla Moreira

Fiz teatro e fui jogral de poesia há algumas luas. Ainda piso as tábuas, volta e meia, porque faz parte de mim, nem me vejo de outra maneira. Gosto muito de vários assuntos. De pessoas. De assuntos que envolvam pessoas. A paixão por livros e letras é tão grande que tenho de aprendê-las através das palavras.

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