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Sociedade

Desafios da nova geração

O dia terminou. Desligo o computador, arrumo a secretária, encosto a cadeira e saio. Ainda está sol, pelo que abrando o passo até ao carro, para saborear a luz. Ligo a ignição, escolho a estação de rádio conforme o humor. Inicio a minha meditação diária, tantas vezes interrompida pela música que me desafia a uma cantoria, obviamente de vidros fechados. Outras tantas vezes interrompida pelas notícias, algumas a que decido alhear-me, outras em que opto por me concentrar.

No noticiário, com um perfeito registo de voz, fala-se dum estudo realizado pela Gulbenkian, relativo aos nascidos nos anos 90 e sua situação no mercado de trabalho. Mantive na minha memória dois factos que me pareceram essenciais: por um lado, 2/3 destas pessoas , que se situam entre os 20 e os 30 anos, trabalham com contratos a prazo, o que constitui o triplo do existente em 1980;  por outro, em 1940/ 1950, a expectativa realizável era de um incremento no ordenado de cerca de 10% por cada ano de estudo concluído. Ocorreu-me que muito mudou desde que eu, ao tempo menina e moça, pensei seriamente sobre o assunto.

Posso dizer que faço parte da última geração de licenciados que ainda teve boas opções. À saída da universidade (1999 no caso), as opções eram várias, coexistindo processos de selecção para diferentes empresas e muitas vezes ofertas simultâneas, sendo necessário optar pela melhor, pelo menos aos nossos olhos. A mobilidade era fácil, se necessária. Mudei duas vezes, despedindo-me da primeira porque não me senti agradada com a função e sobretudo com o ambiente. Da segunda vez fui à procura de melhor ordenado. Fiquei efectiva em dois anos e meio, ao fim do 3º contrato. Ainda permaneço na mesma empresa. Como eu, muitos milhares, desde que licenciados em áreas essencialmente técnicas e numéricas, tidas em tempo como factor garantido de sucesso.

E hoje, o que temos?

A luta inglória começa muito cedo. Qualquer miúdo de 15 anos já sofre a pressão das médias para um possível futuro acesso à universidade. Nada que na minha geração não existisse, mas éramos menos a estudar, e os que ficavam fora do funil eram bem menos do que hoje, em que as vagas no ensino superior permanecem basicamente as mesmas, mas são muito mais estudantes a almejar a tal feito. Sete cães a um osso. Para os que querem estudar, e conseguem entrar nas universidades, seguem-se 3 anos de licenciatura ( no meu tempo pré-Bolonha , eram 5), e como pedido de adiamento, quase como se da tropa se tratasse, preferem adiar a entrada no mercado de trabalho, na esperança de o fazerem mais preparados e, sobretudo, serem reconhecidos, seguindo para os 2 anos de mestrado.

Correndo tudo bem, em 5 anos, se não o fizeram antes por outras razões económicas ou de iniciativa pessoal, estarão a procurar emprego. E o teste à resiliência continua. Não apenas para os recém-licenciados, mas por norma são estes que entram mais tarde no mercado, e munidos de mais formação, têm expectativas concordantes. E se o princípio do: procura-se jovem até 25 anos com 5 anos de experiência em altas finanças, por exemplo, já era um clássico, agora temos novas variações. Perversas variações, considero. Resolvi passar os olhos por alguns anúncios, virtuais, obviamente.

E estes olhos que a terra há-de comer, vêem coisas que nunca pensei ver. Um deles pede um estagiário na área de paginação que precisa basicamente de saber fritar batatas enquanto faz equilibrismo de circo e tarefas de detalhe. Tudo e nada, multitarefas, super-homem, operacional e estratégico, sensibilidades e conhecimentos, iniciativas e idas à lua. Interessante e desafiador. Contrapartida: primeiro mês pedagógico e depois ganho à comissão. Pergunto-me como se irá sustentar este astronauta da paginação, que até sabe de fotografia, mas não consegue sequer qualquer valor base mínimo ou qualquer recompensa material no primeiro mês. Ora, se cumpre todos estes requisitos, a pessoa que o apoiará não terá que lhe explicar o b-a-ba. Essa base, potencialmente elevada não tem valor? Não receber sequer um subsídio de almoço ou de transporte enquanto é moldado pelo empregador?  Acredito que no segundo mês, se de facto não tiver outra opção senão aceitar a escravatura, já estará a pedir aos pais, se estes tiverem condições, algum apoio para uma vida de subsistência. E sabem o que é pior? Ele até estudou.

Segue-se um tutor para dar apoio a crianças e jovens. E aqui a exigência de qualificações vai do 12º ano à licenciatura em Sociologia ou afim. Ou seja, ordenado de 12º ano, mas com conhecimentos de licenciatura, para além de motorista de transporte colectivo de crianças, derivando para tarefas ao nível de ter conhecimentos ao nível de doces conventuais, animação cultural e lançador de pesos. Entrada imediata, claro. Ouvi dizer que o último saiu ontem. Não me espanta.

Volto aos estágios, desta vez profissional. É-lhe exigido conhecimentos técnicos, carta de condução e carro próprio. Mais uma vez, malabarismo de numerosas funções exigentes. Pergunto-me: sabendo tanto, é necessário um estágio em que lhe pagarão, com sorte,  o ordenado mínimo? Ou poderá ter a audácia de se candidatar a um emprego de facto ? Porque ainda que vá ganhar pouco (e merece ser castigado dessa forma?), sempre ganha um pouco mais do que nos estágios. Embora a expectativa dos ordenados não esteja de forma alguma correlacionada com os anos de estudo, pelo menos de forma imediata e proporcional, está provado que quanto maior a formação, maior a possibilidade de encontrar um emprego compatível, ainda que seja um objectivo de longo termo.

Ficaria aqui por todo o artigo com exemplos de exigência máxima e retribuição mínima ou inexistente. E aqui, parece-me óbvia a falta de consideração pelo valor do outro, pelas suas capacidades, conhecimentos, esforços. Existe, e não é de agora, um pensamento base de que devemos ser gratos por até termos sido chamados para a entrevista. Regra geral, as empresas posicionam-se de forma que os potenciais colaboradores, sobretudo os putos, sejam eternamente reconhecidos pela oportunidade. Como se não fosse uma relação a dois.

Estudo não é necessariamente sinónimo de boa capacidade profissional. Nesta regra de (des)proporcionalidade, conheci duas excepções: no Millenium Bcp, no fim do século passado, havia escalões de evolução na carreira distintos, a que correspondiam valores diferenciados, para os que tinham o ensino secundário e os licenciados. Outro exemplo é a função pública, em que os escalões estão necessariamente agregados à formação académica. Quanto ao resto, essencialmente no privado, as combinações são inúmeras: desde directores com ensino obrigatório a caixas de supermercado licenciados.

Não ando em busca de emprego, mas já aconteceu ir a entrevistas. Já estava empregada na empresa onde estou, ainda não tinha 30 anos, fui chamada a uma empresa. Quando questionada relativamente ao ordenado que queria auferir, atirei um número. O director geral disse-me que isso ganhava ele, o que quase me fez dar-lhe as moedas que tinha na minha mala. Coitadinho, para director geral estava muito mal pago, que aborrecimento. Outra vez , ao perguntarem-me quanto ganhava, reagiram com a seguinte pergunta: então e até onde está disponível para baixar? Surreal. Outra vez interromperam a entrevista e só me perguntaram se a pessoa que me ligou não tinha feito o enquadramento salarial. Em todas estas experiências eu estava empregada e tinha por isso espaço para me defender e não me ficar pela primeira oferta. Mas…. quando não se está empregado e não se tem essa âncora de sustentação?

Nestas duas décadas que levo de mercado, já vi muito. Uns, os putos bons, sabendo o que valem mas sabendo que não sabem tudo, têm ainda assim uma postura cooperante e pelejam pelo crescimento de forma edificante. Vi outros também,  ambiciosos e demolidores, como um que aos 3 meses de casa me perguntou quando começava a ir às reuniões da administração. Hilariante, certo?

Vendo pela perspectiva deles, percebo, embora não aceite, a postura arrogante que alguns têm. Talvez a negritude dos tempos o exija. Haja bom senso, essa coisa que, devendo ser comum, é do mais raro que existe!

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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