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Crónicas

A menina dança?

As formas de tratamento entre pessoas têm sofrido alterações de monta. Se há uns anos os títulos, aquelas letras que antecedem os nomes de muitos nos livros de cheques e cartões bancários, estavam em alta, agora parecem ter caído em desuso e o que está a dar é apresentar o primeiro nome com senhor ou senhora, mesmo que tal não se aplique em nenhum dos casos.

Quer isto dizer que o clássico Senhor Fulano de Tal agora, depois de uma boa limpeza de modernização, ganha a forma de Senhor Fulano. O Tal, vulgo apelido, desaparece para parte incerta e a democratização do primeiro nome ganha nesta corrida de ser inclusivo e muito à frente do seu tempo. Calha que alguns dos nossos apelidos valem ouro e deviam ser mostrados com orgulho.

Carrageta, Carganha, Apanha Uva, Torradinhas, Palmadas, Cuecas, Penetra, Murcho, Manso e outras delícias de linguagem, são apelidos alentejanos que, anteriormente, eram meras alcunhas. Imagino a assistente do advogado a dirigir-se a um dos clientes nestes termos: Senhor Vadevinos Cuecas, o senhor doutor está retido no trânsito. Pode aguardar mais um pouco? E o Cuecas abana a cabeça. Ou então o higienista oral a chamar: Senhor Penetra Murcho, é a sua vez. Riso geral mudo.

Isto de se possuir um certo grau de ensino já não confere nada de mais. Os dias dos senhores doutores, engenheiros ou arquitectos acabaram. Ficaram arrumados juntamente com o que é sazonal, assim como as boias da praia e os baldes de plástico. Um dia ressurgirão, mas, por ora, repousam em débil tranquilidade, qual guerreiro que se encosta à sombra da bananeira.

Recordo-me de um cavalheiro que era tratado, de forma muito formal, como comandante. Fazia todo o sentido pois tratava-se da marinha mercante e o título ficava-lhe bem, avivava a cor dos olhos que eram azuis. Acontece que era um ser insuportável e de trato duro. Talvez um dia tenha tido uma epifania e começou a gostar de mim. Pediu-me que o tratasse por engenheiro. Deu-me cá uns abalos que nem dormi. Mais tarde confidenciou-me que era arquitecto e, como que em súplica, sussurrou-me para não o comentar com os colegas.

Há segredos que se guardam com muita facilidade, assim como a chave do euromilhões ou de outros jogos de azar, mas este desabafo roía-me tanto a garganta que me esforcei para não o revelar. A embirração com os outros não se tinha alterado e um dia, num ataque de fúria, soltou umas palavras cheias de ódio: Não me respeitam! Eu sou uma pessoa com pergaminhos. Foi a minha deixa. A partir desse dia passou a ser conhecido pelo comandante, engenheiro, doutor. Um mimo!

Voltando à vaca fria, o que quer dizer, às diversas formas de se mencionar alguém, uma delas deixa-me virada do avesso, assim com vontade de dizer palavrões dos puros e duros. São o “Senhora” e o “Dona”. Durante anos foram motivo de diferenciação entre classes sociais e senhora era usado para a criatura, a senhora Maria, que limpava a escada. Por outro lado, dona Isabel era a forma de se dirigir à esposa do senhor engenheiro ou do senhor doutor. Por isso era necessário que não houvesse misturas e que tudo ficasse bem claro.

Outra situação é usar o senhor ou senhora quando esses vocábulos não fazem qualquer sentido. Vejamos o exemplo de um consultório médico. A assistente vem chamar o senhor Fábio Nelson e levanta-se uma mãe, com um filho assim para o redondo, de oito anos, que não quer largar o jogo que está a fazer por ter conseguido chegar ao patamar mais elevado. Ou então, liberta um estrondoso Kátia Vanessa e salta de lá uma adolescente com a cara sarapintada com uns brilhantes, meias esburacadas, botas com atacadores abertos e uma bandolete com luzinhas. Um festim para a vista.

Pela parte que me toca já tive de tudo. No início recebi o “Coisinha” e “Pst! Pst!”, como tanta gente. Uma incógnita forma de estar que se encaixava com todos. O “Senhora” demorou a chegar e já ia nos maduros anos quando o ouvi. Claro que passei por outros modos e o “Senhora Doutora” fez parte deles, mas por pouco tempo. Saltou para o “stôra” e, mais recentemente, professora. O você sempre me irritou pelo facto de estar associado a uma estirpe que me fazia arrebitar as unhas dos pés. Uns por serem absolutamente estúpidos e outros por serem parolos e saloios. Há de tudo como na farmácia.

O melhor veio com as décadas avançadas. Já ultrapassei todas as barreiras dos títulos ambíguos e aterrei, de modo bem confortável, no “Menina”. Que coisinha mais linda e cheia de graça. Menina. Não como a tia solteirona que ficou emperrada e muito menos como aquela que era tão feia que nunca olharam para ela, menina por ter ar de quem ainda não sabe o que é a vida. Uns fofos, os que dizem isso. Só que não, mas fica assim que tem piada.

Fiz as pazes com o meu nome, tal como fiz com o meu cabelo. De nada serve lutar contra a maré que ela vence sempre. Aceito que me tratem pelo nome que me registaram à última da hora. Margarida, sem o Maria regulamentar que até parecia mal a uma mulher não se chamar Maria. Façam o favor de dispor que eu sou Margarida, simplesmente, como a flor que tem cores e pétalas com tanta simbologia.

Dona só se for dos meus caracóis e senhora é para as santas, que lhes fica mesmo a calhar. Uma luva que usam para brilhar. Eu sou apenas aquela que persiste a andar por cá. Siga o baile que ainda se ouve a música. Para que raio inventaram os nomes e apelidos se não são para os mencionar?

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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