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A Casa do Presente e o Gato Caetano

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Escusam de me vir com falinhas mansas, “o paizinho precisa de descansar, é só até se sentir melhor”, que o que eles sabem já a mim me esqueceu. Há 81 anos que eu, Manuel Heitor de Assis Ramalho, me conheço nesta carcaça e não me lembro de uma única vez em que tivesse sentido que precisava descansar. Talvez tenha sentido – talvez! – que precisava de me estender um bocadinho, logo depois de ter acompanhado a minha Isabelinha à morada onde ficará à minha espera, até Deus decidir que chegou a hora de estarmos juntos outra vez. Achei que, deitado naquela que tinha sido a nossa cama durante 58 anos, 9 meses e 27 dias, conseguiria ouvi-la a sussurrar-me ao ouvido, como todas as noites, “dorme bem, meu amor. amanhã quando acordar vou amar-te um bocadinho mais”. E eu a ti, Isabelinha, e eu a ti. Todos os dias um bocadinho mais.

Já não estou certo de quanto tempo terá passado entre a partida da minha Isabelinha e a conversa que tiveram comigo sobre terem encontrado um sítio muito bonito para eu descansar durante uns tempos. Uma casa grande, a apenas meia-hora de caminho “para me poderem visitar muitas vezes”, virada para o mar, com sofás nos jardins, árvores de fruto espalhadas pelo terreno e pessoal qualificado, “todos muito simpáticos, vamos conhecê-los paizinho?”, e até teria um companheiro de quarto para me fazer companhia. Mas, que diabo, eu sou algum catraio com medo do escuro a precisar de companhia?

Depois da partida da Isabelinha, adormeço nas mais imprevisíveis circunstâncias, o que, admito, acaba por ser uma bênção. Talvez seja a Natureza a ajudar-me a encontrar forma de acelerar a passagem do tempo e a poupar-me de sentir esta coisa que sinto cá dentro que nem sei o que é. Como se no lugar do sangue circulasse agora uma água tépida e salobra. A primeira vez que me aconteceu estava eu muito bem a falar com o Sr. Agostinho no quiosque dos jornais e pumba, adormeci. Dei por mim a caminho de casa pela mão do próprio Agostinho e de um Oficial da Guarda que não conhecia. Fizeram disso um bicho de sete cabeças, não sei porquê. À noite lá estavam todos, “se me sentia bem, se me andava a alimentar como deve ser” e mais um role de perguntas idiotas. Caramba, adormeci. Sou velho e adormeci, é o que os velhos fazem, não percebo o que há de tão extraordinário no acontecimento. Felizmente, depois disso, deixaram-se de perguntas e considerações, o que talvez se fique também a dever à longa conversa que tiveram com o meu médico e, por sinal, meu grande amigo. Eles não fizeram questão que eu estivesse presente na conversa, e eu não fiz questão de estar. Não vou passar o tempo que me falta à procura de doenças.

Foi depois de uns quantos episódios semelhantes que surgiu a ideia peregrina de ir descansar para o tal lugar “não muito longe dali, com jardim, vista para o mar e pessoal qualificado”. O que eles queriam era enfiar-me num sítio qualquer onde não tivessem de se preocupar. Mas quem é que lhes pediu que se preocupassem? Sinceramente, quem já estava farto era eu. Inventaram de dormir lá em casa, à vez. Diziam que era para eu

não me sentir sozinho. Eu sinto-me sozinho no meio de uma multidão, o que é que ainda não perceberam? Dá-me perfeitamente igual ter alguém a dormir lá em casa ou partilhar a noite apenas com as aranhas que fazem as teias aos cantos. E depois foi a invenção do telefone. Um telefone que nem teclas tem, imagine-se! E eles queriam que eu atendesse as dezenas de chamadas que me faziam por dia, num telefone que não tem botões, mas que diziam eles ser uma forma de me poderem localizar, caso eu tornasse a adormecer na rua. É verdade que eu não percebo nada destes telefones inteligentes, mas para se saber onde é o Norte é uma bússola, não um telefone. Isso sei eu!

Acedi à proposta. Aquela casa já não era a minha. Aos poucos tinham-me levado as coisas da Isabelinha e com elas foi-se o cheiro da sua pele e, esse sim, era o meu lar. Consegui guardar uma camisa de noite que era a nossa preferida. Tinha-a comprado numa loja de lavores na Baixa e ofereci-lha no dia em que fizemos 50 anos de casados. Comprida, até aos pés, do linho mais macio que pode haver, mangas longas, golinha redonda e punhos bordados a condizer, peitilho plissado e botõezinhos madrepérola. Que linda ficava a Isabelinha com aquela camisa! Guardei-a dentro da fronha da minha almofada. Tiro-a todas as noites e durmo agarrado a ela, inebriado com o cheiro que nunca há-de perder. Aquela camisa de linho é agora a minha casa, não importa onde esteja.

Acabei por ter sorte com o meu companheiro de quarto. O Antunes é um rapaz da minha idade, um tipo porreiro e bem-disposto, que me recebeu de braços abertos, feliz por ver novamente ocupada a cama do lado, “que a gente habitua-se e quando se vão …”. Tenho pena que a cabeça lhe pregue partidas tantas vezes. Do nada, é ouvir o Antunes a gritar “emboscada, emboscada!”, ao mesmo tempo que se agacha no chão com a velocidade de um caracol e protege a cabeça com as mãos. Fosse uma emboscada a sério e era ver o Antunes a ir desta para a melhor. E depois fica ali, muito encolhido, até o pessoal qualificado vir ter com ele, a dizer “está tudo bem, Sr. Antunes, já passou, está tudo bem”. Alguns destes episódios são mais longos e o Antunes demora um bom tempo até deixar as perigosas terras do Ultramar e voltar à segura Metrópole. Aprendi, com o pessoal qualificado, duas coisas importantes sobre estes eventos do Antunes: por um lado, não vale a pena dizer-lhe que aquilo é apenas fruto da sua imaginação. Para ele é real e mais vale que o seja também para nós. Por outro lado, também não vale a pena falar com ele sobre o assunto depois do episódio terminar. Porque, na verdade, depois daqueles momentos, o Antunes não se lembra de nada, é como se tivesse estado a dormir.

A primeira vez que assisti a este acontecimento estávamos na Sala Comum. Eu e o Antunes jogávamos às damas, com a dificuldade inerente em arquitectar uma jogada, tal o volume da televisão – que aquela gente é mais mouca que uma porta. O Antunes estava a demorar uma eternidade a decidir a jogada e eu desviei os olhos para o ecrã, onde o Presidente Marcelo discursava, mas o homem não usava óculos!? Estou eu nestes pensamentos, quando o Antunes grita “emboscada! emboscada!” Foi ver o Antunes a tentar esgueirar-se para debaixo da mesa, a cadeira a cair, o tabuleiro das damas a voar e peças pretas e brancas a choverem por todo o lado. E eu a pensar, ou sou eu que estou

maluco ou é o Antunes, e ao fundo o Presidente Marcelo e o pensamento na minha cabeça a martelar, mas o homem não usava óculos!? E aquilo deve ter-me cansado de tal maneira que eu adormeci.

Sempre que o São Pedro está de feição, o nosso tempo é passado no jardim, e o dia em que conhecemos o visitante improvável não foi excepção. Sentados nos sofás que emprestavam a imagem ao folheto de promoção da casa, a contemplar o mar que se perdia ao fundo, damos conta de um pequeno felino estacado a olhar para nós, com aqueles olhos que só os felinos têm e que parece que nos lêem a alma. Era um gato imponente, com pelo lustroso, cinzento-claro e manchas brancas. “Bichano, bichano, anda cá, anda”, mas o bichano nada. Parecia uma estátua. Nunca o tínhamos visto por ali. Embora não tivesse coleira, parecia bem tratado. Ficou ali um bocado até que se fartou, deu meia-volta e seguiu caminho, qual modelo num desfile de moda. Começou a aparecer todos os dias e em cada dia se chegava um bocadinho mais, até chegar tão próximo que nos conseguia cheirar. Andou com a cabecita à nossa volta que tempos, nariz activo no ar, até ter parado a olhar-nos como quem dá uma ordem, “agora já me podem fazer festas”. Onde há gatos, já se sabe quem manda. Ganhámos um amigo e discutimos que nome havia de ter o bichano, “Tareco? Félix?”. Caetano! O Antunes disse que ele tinha ar de Caetano e eu a perguntar “desde quando é que o nome se vê pelo ar, que eu, se me tivessem perguntado, não diria que te chamavas Antunes”. Mas dizia o Antunes que por trás daquela graciosidade estava um felino, “era preciso não esquecer”, e isso é coisa de Caetano, “comó outro, que durante anos nos entrou pela casa dentro com a sua Conversa de Família, mas tratar de acabar com a guerra e trazer os rapazes para casa, tá quieto!”. Não ripostei, não fosse o Antunes desertar para África outra vez. Ficou Caetano.

Quem se sentiu verdadeiramente feliz pelo facto de passarmos a ter um animal em casa, foi a Senhora Dona Clarisse. O que ela gosta de animais! Era vê-la a esconder pedacinhos de queijo, de peixe ou de carne num guardanapo à mesa das refeições, para ir de seguida chamar pelo Caetano para lhe dar o repasto. Escusado será dizer que a Senhora Dona Clarisse era a residente preferida do Caetano. Na verdade, não só do Caetano, que eu bem via como o Antunes falava com ela, cheio de delicodoces e reverências. É certo que a Senhora Dona Clarisse é uma mulher muito interessante. Sempre muito bem-posta nos seus fatos de excelente confecção, cabelo arranjado e brincos de pérolas. De uma cultura como há poucas, percebia-se ao longe que tinha tido um bom berço. Era mais antiga na Casa do que nós, embora fosse um bom par de anos mais nova.

Lembro-me de ter pensado, quando a conheci, que bem que se havia de dar com a minha Isabelinha, ambas senhoras de gosto apurado e extrema educação. Foi logo no meu primeiro dia. Estive a arrumar os meus parcos pertencentes no que passaria a ser o meu quarto – sabe-se lá por quanto tempo-, sempre acompanhado pela disponibilidade e diligência do Antunes. Tive até de criar uma manobra de diversão para que o meu companheiro de infortúnio se entretivesse com outra coisa durante um bocadinho e me desse oportunidade de guardar a camisa de linho da Isabelinha junto à almofada sem

que ele desse conta. Íamos partilhar o quarto, mas isso não significava que tivesse de partilhar com ele a minha casa.

O Antunes tinha a televisão do quarto ligada no canal das notícias, “é uma companhia para quando estou sozinho, mas agora já tenho com quem conversar”. Lá estava o Presidente Marcelo, já não sei precisar se numa visita a uma escola onde tinha rebentado um cano, se numa cimeira de Chefes de Estado. mas o homem não usava óculos!? Com o cansaço da mudança, adormeci.

Depois de ter acordado da sesta, o Antunes levou-me até ao jardim. A Senhora Dona Clarisse estava sentada numa mesa-redonda de ferro branco e cadeiras a condizer. Um grande chapéu de sol fazia a sombra necessária para que o espaço convidasse a sentar e a ler, como fazia a Senhora Dona Clarisse. Cumprimentou-me, como vim a descobrir que cumprimentava todos os novos residentes, declamando o belo poema de Eugénio de Andrade, que lhe acompanhava o sorriso:

“É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.”

Antes de ter tempo de devolver o cumprimento, a Senhora Dona Clarisse apresentou as suas desculpas pela ausência que se seguiria, “que hoje é dia de estreia e ainda é preciso ir descer bainhas e reforçar botões para não haver azar”.

Explicou-me o Antunes que a Senhora Dona Clarisse tinha sido costureira no Parque Mayer e que, de quando em vez, era como se o tempo voltasse para trás e ela tornasse a ser a responsável pelo guarda-roupa de todo o elenco do Teatro. A Senhora Dona Clarisse “pegava ao serviço” sempre que algo diferente se passava, como a chegada de um novo residente. Tudo o que fossem situações que pudessem gerar ansiedade. “A cabeça prega-nos partidas, Ramalho! Sabes como é!… mas depois a Senhora Dona Clarisse não se lembra de nada. É como se tivesse estado a dormir”. Naquela altura eu ainda não sabia que enquanto a Senhora Dona Clarisse ia para o Parque Mayer coser botões, o Antunes ia para as colónias fugir “rapidamente e em força” às emboscadas.

Por razão destes episódios, a Senhora Dona Clarisse tinha sempre a sua roupa impecável. Não havia botão que se soltasse, nem bainha que descaísse. Não se lembrando que era ela própria a responsável por tais feitos, elogiava repetidamente os serviços de costura da Casa, “que perfeição de trabalho, já não se vê disto em lado nenhum”.

Despojados de obrigações, passávamos longas horas a conversar. Sabíamo-nos prisioneiros do presente, com o futuro a ser pouco mais do que uma miragem. Alimentávamo-nos das memórias, que partilhávamos sem ressalvas ou pudores, que os anos que carregávamos já nos tinham levado as reservas.

Eram as manhãs e o cair da noite os momentos mais difíceis. Acordar e perceber, dia após dia, que a Isabelinha não estava ali; preparar-me para adormecer sem o sussurro da sua voz a dizer que me amaria todos os dias um bocadinho mais. Encontrei no Antunes e na Senhora Dona Clarisse uma espécie de porto seguro, uma certeza nos dias. Criámos uma cumplicidade que lembrava os tempos de juventude, onde a simples presença faz dos pés raízes agarradas ao chão. Chego a sentir-me culpado, quando me vejo agradecido por viver aqueles momentos, ao invés de ter partido com a Isabelinha.

O Caetano passou também a fazer parte desta família improvisada e, ao fim de um tempo, o pessoal qualificado lá permitiu que ele habitasse na Casa, para grande alegria da Senhora Dona Clarisse, que dormia com ele aos pés. De alguma forma, o Caetano consolidou os nossos laços. Tomámo-lo como nosso, uma espécie de neto comum e, como todos os netos, lá o “estragámos” com mimo. Exigia constante atenção e, quando não a tinha, miava até que um de nós o tomasse no colo, onde ficaria enquanto bem lhe apetecesse.

Na Sala Comum ouvíamos as notícias de última hora, que davam conta de um grande incêndio lá para os lados de Pedrogão. O Presidente falava já aos portugueses. mas o homem não usava óculos!?, e entre o burburinho dos comentários e exclamações dos presentes, o Caetano fazia sobressair a sua chamada de atenção, obrigando-me a repreendê-lo:

“Pára de miar que estamos a ouvir o Marcelo, Caetano!”

O representante do pessoal qualificado destacado naquele dia para nos servir de dama de companhia, por sinal um dos tipos mais sisudos e antipáticos que por ali andava, olhou para mim e sorriu, trocista. Lembro-me de ter olhado de novo para a televisão onde falava o Presidente Marcelo e de ter pensado, mas o homem não usava óculos!? depois, adormeci.

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Joana Kabuki
Há em mim um certo desassossego. uma espécie de formigueiro que me impele à criação. talvez pudesse ter sido um Professor Pardal, ou um Mr. Q., não se tivesse dado o caso de eu e a Física nos termos cruzado sem nunca nos termos visto. Quis o destino que encontrasse nas palavras o sossego para o que me desassossega e desse encontro se revelasse uma alma de escritora. Sim, eu disse que se revelara "uma alma de escritora", não disse que se revelara "uma escritora". Ainda não disse.

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