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Uma dose de espanto diária

O médico estudou as radiografias penduradas no quadro luminoso. Analisou o electrocardiograma. Leu as análises ao sangue. Auscultou, apalpou a garganta, mediu a tensão. Os minúsculos vidros partidos que brilhavam iridescentes por trás da córnea confirmaram as suas suspeitas.

Anunciou o diagnóstico:

“Alguns pedaços do seu coração partido espalharam-se pelo corpo.”

Ah, estava explicado por que motivo lhe doíam tanto as articulações.

O pai sempre avisara: a poeira dos corações partidos infiltra-se nos ossos, nos músculos, em todo o lado, nunca mais nos voltamos a mexer da mesma forma, nunca mais voltamos a ver nem saborear nem tocar da mesma maneira.

“É para operar, doutor?”

O médico passou-lhe uma receita.

“Para já, não. Mas para evitar que piore, recomendo tomar pelo menos três espantos por dia.”

Aceitou a receita. Leu os lugares, os títulos e as pessoas que o médico prescrevera. Tinha um aviso: quando tomar, não misturar com o corpo de um amante.

Três espantos por dia durante seis meses para ajudar a dissolver os restos de amor e a desinflamar a desilusão. Esperava-se que depois o sangue já estivesse cheio de deslumbramento, mas convinha manter o tratamento durante toda a vida para ter um coração saudável.

“Sabe que tentei outros tratamentos. Álcool e o toque de outras peles.”

“Isso são remédios para atenuar sintomas, não é um tratamento.”

Será que custava muito tomar espantos? Tinham de ser grandes ou bastavam doses pequenas? Desde criança que precisava de partir as emoções, os sentimentos e as notícias ao meio ou em quartos para conseguir engoli-las sem ficar com medos atravessados na garganta.

“E se não resultar?”

“Teremos de marcar uma cirurgia para corações avariados. Abrimos o peito, tiramos o coração com cautela e acomodamos bem as lembranças.”

“E retiram as tristezas?”

“Não, não, nunca, que pode vir um sorriso agarrado. As tristezas são muito necessárias. O que fazemos é preencher as fissuras e os vazios dos estilhaços com as serenidades do paciente, por exemplo, música, paisagens ou a sensação da areia entre os dedos os pés. Depende do receptor. Depois, o coração está pronto a bombardear encantamentos pelo corpo todo e os fragmentos partidos vão sendo absorvidos pela memória. Geralmente, não atrapalham mais o corpo, embora possa haver algum mais afiado que de vez em quando roce um nervo ou uma emoção.”

“E a recuperação é complicada?”

“Não, mas para não haver rejeição, tem de seguir uma dieta equilibrada. Repare, o problema é que as pessoas viciam-se no amor e esquecem-se do resto. Há tantos outros deslumbramentos, há tanto mundo para sentir. Não nos podemos alimentar só de raiva ou só de euforia.”

Dobrou a receita em quatro. Prometeu seguir as recomendações e voltar passados seis meses para fazer mais análises. Saiu do consultório. Caminhava lentamente enquanto pensava em impossibilidades. Já nem reparava no tilintar dos pedaços de vidro que acompanhava os seus passos pelos corredores do hospital.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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