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Santuário

Andava devagar e balançava a perna esquerda. Com cuidado, como se embalasse aquela parte imperfeita. Tong Bai era feita de ternura. Parava para observar o mundo, pensar muito nas coisas dela, admirar-se. Também Molo ficava para trás, um pouco perdida, um pouco cansada. Tong Bai e Molo eram os elefantes mais velhos daquele santuário na Tailândia. Quando conheci Molo, ela encolheu os olhos de medo. Um deles estava cego, o outro estava alagado de tristeza. Os quarenta anos eram-lhe pesados no corpo, tinham passado com ponteiros de chumbo.

“Trabalho duro e maus-tratos”, explicavam os mahouts.

Nós a segurar a emoção com o peito. O mundo era uma abstração que existia fora daquele lugar. Aqui, só o sol a ferver, o cheiro a terra, a vida a entrar-nos por todos os sentidos.

À frente, Liam marcava o nosso ritmo com o cuidado e a confiança de uma mãe. O filho, Halloween, parecia saltitar em passos minguados para a acompanhar. Ela abrandava, lançava pacientemente a vista para saber da família: onde estão Tong Bai e Molo? Por vezes, o olhar dela alcançava-nos e parecia sorrir. Para nos entreter, o mahout pediu-lhe que mostrasse um truque. Liam ignorou. Ele pediu de novo, com voz dengosa de pai impaciente que roga um favor. Ela fez contrariada, de gestos amuados e a resfolegar de revolta contra os truques de circo que lhe tinham forçado pela mente adentro. Demos-lhe bananas, suborno imbecil. Nós não precisávamos de ser entretidos. Doeu-me na garganta o desagrado dela.

Tong Bai e Molo aproximaram-se em passo quase onírico. Ser livre era não precisar do tempo dos outros. Os nossos pés arrastavam poeira e pedras pelo caminho de silêncio até ao rio. Halloween procurava-nos com o toque curioso, abraçava-nos as mãos com a tromba, pele dura, gesto destrambelhado de criança traquina. Levava a tromba à boca, a provar-nos, a conhecer-nos. Depois, distraía-nos para roubar bananas.

“Halloween! Não deixas para os outros?”

Ele sorria de satisfação.

De repente, o brilho do rio como uma magia. Os elefantes correram para a água, deitaram-se, brincaram. O sol a bater neles, eles a resplandecerem e eu sem espaço suficiente no coração para testemunhar a existência da eternidade. Era comovedor. Como se, subitamente, houvesse a possibilidade de acreditar em deus e eu pudesse decidir que acreditava no amor. Eles chamavam-nos com as trombas, mandavam água, escolhiam partilhar a felicidade connosco. E nós ali, sem saber como agradecer, sem saber como não chorar, sem saber como avançar para o mundo depois daquele encantamento todo.

Na despedida, abracei a tromba de Liam e acariciei suavemente Tong Bai, Halloween, Molo. Gravei em mim a pele áspera, os pêlos rijos, os olhos gentis (quando chegasse a Lisboa, iria tatuá-los). Molo não tremeu, não fechou os olhos. Tinha perdido um bocadinho do medo. Dizia-me que talvez ainda fosse possível ser feliz.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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